Mercado Prateado mostra como público 60+ tem mudado a cara do empreendedorismo
Aos 62 anos, Lana de Oliveira não se contentou com as graduações em Administração, Psicologia, pós-graduação em Gestão de Pessoas, além de mestrado em Ciência e Tecnologia. Ela decidiu fundar uma startup voltada para automatização de um banco de currículos de mulheres em situação de vulnerabilidade social. A ideia é que as empresas acessem a plataforma criada por Lana e façam a seleção a partir dos currículos disponibilizados por lá.
“Ofereço para empresas a gestão do processo para que façam a seleção pela plataforma. A proposta é ajudar mulheres a se recolocarem no mercado de trabalho, principalmente, aquelas em vulnerabilidade social. A proposta era automatizar os processos seletivos da empresa onde eu trabalhava”, revela.
O desafio tem sido manter o negócio funcionando de maneira sustentável, ao mesmo tempo em que ajuda mulheres a entrar no mercado de trabalho.
“Meu desafio é complexo porque não sou dona das vagas, tento mitigar o desemprego e usar a linguagem para mostrar a importância de contratar mulheres”, defende.
A startup de Lana, a LanaCOS, se encaixa no que o mercado chama de “negócios de impacto”, que são iniciativas voltadas para algo que vá além do lucro já que, apesar de precisar se manter financeiramente, esse não é o foco principal. Por causa do impacto social, o projeto já passou por dois processos de aceleração do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do RN (Sebrae/ RN).

“Abriram as inscrições e parte do meu projeto era tecnológico e parte era negócio de impacto. Desenhei a proposta e foi aprovada para ser acelerada e receber verba, assim pude contratar pessoas. Depois passei em uma nova seleção e fui acompanhada por vários consultores. É muito bom porque atendem em todos os aspectos, tanto quanto a cálculo de preço, gestão de equipe, como ensinam a gerenciar seu negócio, só que com pegada em negócios de impacto”, esclarece.
A inquieta Lana faz parte de um setor em expansão, o do Mercado Prateado, como tem sido chamado o público sênior ou 60+. O nome é uma alusão aos fios brancos, que nem de longe lembram a imagem frágil do idoso de bengala das antigas placas de trânsito.
“No inconsciente das pessoas, quem está com 60 anos não pode mais empreender, não sabe onde fica botão de ligar… mas tem uma galera empenhada em desconstruir essa ideia na mente das pessoas, de que nessa idade não sabemos nada de tecnologia! Gosto de saber, de adaptar o conhecimento às necessidades práticas, de trazer para a minha realidade. Ninguém para de estudar, o mundo muda constantemente, tivemos a pandemia e quem não se reinventou ficou para trás”, lembra.
Numa sociedade que está envelhecendo, esse é um mercado em ebulição. Tanto para quem consome, como para quem empreende. Dos mais de três milhões de habitantes (3.305.729) do Rio Grande do Norte, quase meio milhão (497.891) faz parte da turma 60+. Além disso, o estado tem registrado um crescimento negativo. Entre 2022 e 2023, por exemplo, o número de nascidos vivos no estado passou de 39.918 para 39.384, uma queda de -1,36%, a 8ª maior do país entre os entes federativos e a 2ª maior do Nordeste, segundo os dados divulgados em maio deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo a gerente da Unidade de Negócios de Impacto do Sebrae/ RN, os anos de experiência são bem aproveitados por esse tipo de investidor.
“Eles têm mais conhecimento de vida e profissão e podem utilizar todo esse know-how que acumularam ao longo da vida para pensar em modelos de negócios mais maduros. O empreendedor sênior tem algumas prioridades, ele já não quer empreender a qualquer custo ou de qualquer maneira. A gente observa que eles têm um propósito muito claro sobre o que querem fazer e não querem perder tempo”, analisa Mona Nóbrega.
No Brasil, de mais de 29,8 milhões de donos de negócios, quatro milhões (13,5%) são sêniores, segundo levantamento realizado pelo Sebrae a partir da Pnad Contínua Trimestral do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2023. No Rio Grande do Norte, dentre os donos de negócios, 6,7% são sêniores.
“O Rio Grande do Norte tem um potencial gigante para esse mercado. Primeiramente porque esses investidores sêniores têm buscado o Sebrae para iniciar um novo negócio ou permanecer com o apoio, muitos negócios no estado já são liderados pelo público sênior, esse público chega quase a 12%. Existe um potencial mercado a ser atendido, há muitos serviços sendo desenvolvidos para esse público”, avalia Mona Nóbrega.
De olho nesse mercado, o Sebrae lançou o programa “Bora empreender 60+” no qual é ofertada modelagem de negócio, abertura de novos mercados, capacitação e inclusão desse público com a tecnologia, Inteligência Artificial e mídias sociais.
“Esse público já vem com um diferencial competitivo, já tem know how em muitas atividades que já fizeram ao logo da vida, uma rede de relacionamentos extremamente importante que pode ajudar nesse processo de empreendedorismo, além de ter acesso a mais capital por ter se organizado financeiramente ao longo da vida”, avalia Mona Nóbrega.
Lana é exemplo prático disso. Já passou por várias empresas em diferentes estados, mas sempre na área de recursos humanos, setor que decidiu aperfeiçoar com sua startup. Mais do que colecionar títulos e superar preconceitos, ela segue projetando um futuro mais justo, eficiente e cada vez mais próximo do presente. Para a startup, a meta é cruzar dados, aplicar inteligência artificial e oferecer treinamento para as mulheres em situação de vulnerabilidade em busca de emprego.
“Sinto que há um preconceito mascarado, não é algo tão escancarado, mas camuflado. Mas, me relaciono bem com as pessoas, gosto de interagir com os jovens, são meninos muito inteligentes, tento tirar o máximo de proveito das coisas boas, não fico remoendo coisa ruim, não sofro por isso. Sou do pós guerra, da geração que faz uma limonada com o limão, foco na solução”, resume a empreendedora.