Parceria entre UFRN e universidades africanas garante intercâmbio cultural e metodológico
Natal, RN 22 de jun 2026

Parceria entre UFRN e universidades africanas garante intercâmbio cultural e metodológico

19 de junho de 2025
6min
Parceria entre UFRN e universidades africanas garante intercâmbio cultural e metodológico
Foto: Cicero Oliveira

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Num processo de seleção disputado, no qual concorreu para cinco instituições de diferentes estados, Arsênio Tesoura é só sorrisos com o doutorado que começou a cursar no ano passado, em Educação, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

“Não tem como não gostar”, começa a conversa.

Ele veio de Moçambique e trabalha na linha de educação inclusiva. Quer estudar como os pais podem atuar no processo de inclusão e adaptação de crianças do espectro autista.

No meu país esse é um assunto que ainda não está muito claro, as pessoas não sabem bem o que é, como lidar”, conta Arsênio, que em agosto retorna a Moçambique para fazer uma pesquisa de campo.

O pesquisador, que em Moçambique trabalhava como assistente universitário, enfrentou algumas dificuldades até se adaptar à nova rotina no Brasil.

“Foi a primeira vez que vim ao Brasil e a primeira coisa que achei diferente foi a língua, apesar dos dois países falarem português, disseram que o meu é mais parecido com o de Portugal e que falo rápido. Também notei que aqui o ensino é mais rigoroso, há mais fontes de pesquisa e base de dados”, avalia Arsênio, que já traçou os próximos planos.

Minha meta é voltar para Moçambique e aplicar o que aprendi aqui, mas também quero fazer um pós-doutorado”, resume.

Arsênio, durante exposição de trabalho I Foto: cedida

Perto de concluir o curso de Ciências Contábeis na UFRN que começou em 2020, Christie Jennifer Angue Zoua, que veio do Gabão, planeja começar a trabalhar.

Não importa se será no Brasil ou no Gabão, para mim está ótimo. Uma coisa ruim no início foi que tive que me separar da família e fiquei com muito medo de não passar nas provas, de não dar conta, mas com o tempo você vai se acostumando com a língua e vai aprendendo”, explica.

Como reflexo do intercâmbio com a UFRN, Christie relata que já percebe mudanças na atuação dos professores no Gabão.

Aqui percebo que os professores são bem dedicados. Eles mostram, ajudam você a entender. Lá, se falou uma, duas vezes já é o suficiente, se você não entende tem que se virar sozinho. Mas, os professores que estudaram fora já não repetem mais esse comportamento”, comemora a estudante.

Christie I Foto: cedida

Arsênio e Christie são apenas dois entre uma centena de estudantes e professores que já vieram para a UFRN através da parceria de 20 anos entre a instituição e universidades africanas.

Há mais de 20 anos interagimos com países africanos, recepcionamos estudantes e professores. Temos um programa chamado PEC G que é fundamental para financiar a vinda desses estudantes estrangeiros. Temos mais de 10 países integrados ao programa”, detalha Fransualdo Azevedo, professor titular do Departamento de Geografia da UFRN.

Tudo começou em 2010, quando o professor da UFRN foi desenvolver um projeto de extensão em Uganda.

O foco principal era trabalhar a temática da economia solidária, associativismo, cooperativismo e relações de gênero, trabalhando com mulheres viúvas no interior de Uganda, discutindo formas de associativismo no campo para esse grupo de mulheres”, explica Fransualdo.

Já em 2011 foi iniciada uma parceria com a maior universidade de Moçambique, a Eduardo Mondlane, através da qual os professores de lá passaram a procurar a UFRN para realizar mestrado e doutorado.

Desde então já foram realizadas outras parcerias, como no caso da Universidade Pedagógica e das outras universidades que se desdobraram a partir dela, além da 1ª edição do projeto Trilhas Internacional.

Fransualdo ao centro (de camisa listrada) durante passagem por Moçambique

Estamos há um ano dialogando para fazer uma nova edição do Trilhas Internacional. A previsão é que a gente realize essa intervenção em setembro, estamos com editais abertos, em processo de seleção da equipe através da Pró-Reitoria de Extensão”, revela o professor da UFRN.

Temos a expectativa de continuidade dessas ações de formação, eventos científicos, de execução de projetos de pesquisa e extensão, além de publicações”, acrescenta Fransualdo.

Com as formações realizadas em território potiguar, agora, a UFRN apoia as universidades parceiras africanas para que abram seus próprios programas de pós-graduação.

Mais do que a língua, uma das principais dificuldades para manter os estudantes na universidade é a concessão de bolsas.

Sem bolsa, é praticamente impossível eles virem para cá. Porque o custo der vida é muito alto em relação à moeda deles. As bolsas são fundamentais para que possamos ter essa interação”, revela o professor da UFRN.

Os relatos são extraordinários em termos de aprendizado, de novas metodologias que são adquiridas, aperfeiçoadas. É uma via de mão dupla. Aprendemos muito com eles do ponto de vista cultural, político, social, econômico e ambiental, e eles também aprendem muito e levam nossas metodologias para seus respectivos campos de atuação, seja acadêmico, seja técnico”, Fransualdo Azevedo, que está em diálogo com dez universidades para trabalhar em conjunto, entre instituições brasileiras, africanas e europeias.

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