MST interdita BR-101 e ocupa prédios públicos no RN; entenda jornada de lutas nacional
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocupou, na manhã desta quarta-feira (23), a rampa da Governadoria do Estado, em Natal, em mais um ato que integra a Semana Camponesa, jornada nacional de lutas pela reforma agrária. A ação foi precedida por uma caminhada iniciada na Avenida Senador Salgado Filho e mobilizou cerca de 500 pessoas, que exigem uma reunião direta com a governadora Fátima Bezerra (PT) para tratar das pautas do movimento.
Poucas horas depois, de forma pacífica, o MST bloqueou completamente o km 94 da BR-101, nas proximidades de Natal. A interdição teve início por volta das 15h30 e durou cerca de 30 minutos. A manifestação foi encerrada por volta das 17h, com previsão de continuidade no dia de amanhã.
As mobilizações desta quarta-feira dão continuidade a uma série de atos iniciados no começo da semana, com participação de cerca de 800 trabalhadores e trabalhadoras rurais de diversas regiões do estado. Na terça-feira (22), o grupo ocupou a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), no bairro Tirol, em Natal. A ocupação foi mantida durante todo o dia, enquanto uma comissão do movimento aguardava reunião com a Superintendência do órgão. O MST também afirmou que uma equipe está em Brasília para dialogar com a direção nacional do Incra.
A pauta reivindicada pelo movimento inclui quatro eixos centrais: desapropriação e criação de novos assentamentos; concessão de crédito rural para produção; financiamento para moradia no campo; e a retomada de políticas de educação no campo, como o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), que enfrenta paralisações por falta de orçamento.
Segundo Jailma Lopes, da Coordenação Nacional do MST, as terras prioritárias no estado incluem o Complexo Açucareiro de Ceará-Mirim, o Baixo Assú (que pertence ao Governo do Estado) e a área irrigada da Chapada do Apodi. “Essas três áreas não seriam suficientes nem para a metade das cinco mil famílias acampadas hoje, mas já representariam um avanço importante diante da paralisação da pauta nos últimos anos”, afirmou.
As manifestações no Rio Grande do Norte começaram na segunda-feira (21), com uma caminhada de quase 18 quilômetros, que partiu do km 161 da BR-406, em São Gonçalo do Amarante, e seguiu até o Ginásio Poliesportivo da RN-160. A mobilização também alcançou o entorno do Hospital Maria Alice, na BR-101, e causou lentidão no trânsito, mas ocorreu de forma pacífica e sob acompanhamento da PRF.
Na ocasião, o dirigente estadual do MST, Márcio Mello, denunciou a estagnação da política agrária no estado: “Hoje, no Rio Grande do Norte, temos cerca de 5 mil famílias acampadas, lutando pela terra e por dignidade. Temos 700 famílias no Vale de Ceará-Mirim, cultivando uma antiga área de usina há mais de seis anos, além de famílias no Baixo Assú e na Chapada do Apodi, esperando resposta do Estado”.
Movimento nacional
A mobilização no estado integra uma ofensiva nacional do MST, que desde segunda-feira (21) realiza atos em pelo menos 21 estados e no Distrito Federal. Em São Paulo, Belém, Recife, Belo Horizonte, João Pessoa e outras capitais, o movimento ocupou sedes do Incra e prédios de instituições públicas como o Banco do Brasil. As ações reúnem cerca de 17 mil pessoas em todo o país.
Na manhã desta quarta-feira (23), lideranças do MST se reuniram com o presidente Lula (PT) e a ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann. Segundo Ceres Hadich, da direção nacional do MST, o encontro discutiu temas como soberania nacional, tarifas comerciais e a urgência da reforma agrária. “A luta pela terra está diretamente ligada à defesa da soberania. E soberania nacional só se constrói com soberania alimentar, o que exige fortalecer a agricultura familiar e camponesa”, declarou.
O governo federal, no entanto, ainda não apresentou respostas concretas às reivindicações. Segundo o MST, a permanência nos prédios públicos será mantida até que haja diálogo efetivo e compromissos firmados com as autoridades.
A Semana Camponesa continua nos próximos dias e deve ganhar novos desdobramentos, sobretudo com a proximidade do Dia Internacional da Agricultura Familiar, celebrado na sexta-feira (25). O MST reforça que, mesmo diante da boa relação histórica com o governo Lula, “não há reforma agrária acontecendo efetivamente no país” e que “as promessas não podem substituir as ações concretas”.
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