O projeto da extrema direita dos Estados Unidos e suas implicações
Natal, RN 6 de jun 2026

O projeto da extrema direita dos Estados Unidos e suas implicações

31 de agosto de 2025
16min
O projeto da extrema direita dos Estados Unidos e suas implicações

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Em 2025, foi publicado no Brasil o livro O Projeto – como a extrema direita está transformando os Estados Unidos, de David Grahan (Editora Zahar). A relevância de sua publicação está no fato de que a compreensão do que está ocorrendo nos Estados Unidos, com impactos globais, é um projeto em curso, cuidadosamente elaborado antes da eleição de Donald Trump  de 2024 e em apoio a ele, intitulado Projeto 2025, essencial para entender os vários passos em direção ao autoritarismo do governo norte-americano e a erosão e colapso de sua democracia, com suas consequências internas e externas.

O Projeto, intitulado Diretrizes para os líderes (Mandate for Leadership), foi elaborado pela Heritage Foundation, um centro de estudos de direita criado em 1973, no governo de Ronald Reagan (em apoio a ele). Em seu site, consta que sua missão é “formular e promover políticas públicas baseadas nos princípios da livre iniciativa, governo limitado, liberdade individual, valores americanos tradicionais e uma forte defesa nacional”.

Apoiou o primeiro governo de Donald Trump (2017-2020) e, com a derrota deste na eleição de 2020, iniciou um processo, que foi impulsionado em 2022 articulado com mais de cem organizações e instituições de direita – que faziam e fazem campanhas contra direitos de pessoas LGBTQIAPN+, minorias, imigrantes etc.,-  e com a participação de convidados diversos especialistas e colaboradores para elaborarem um projeto (que ficou conhecido como Projeto 2025), destinado a servir como parâmetro do governo. Entre seus principais formuladores estão Paul Dans e Russel Vough, que o autor considera como “os homens atrás da cortina”, responsáveis pela elaboração do Projeto. Articulado com o movimento Make America Great Again (MAGA)(Faça a América Grande de Novo) que tem origem na campanha presidencial de Ronald Reagan em 1980, retomado por Trump durante suas campanhas de 2016, 2020 e 2024, o Projeto busca consolidar o poder de Trump, visando “enfraquecer os freios e contrapesos do Congresso, degradar o expertise e afastar qualquer pessoa que se oponha às violações do Estado de direito”.

O Projeto 2025, com 920 páginas, é considerado pelo autor como chave-mestra para a compreensão da segunda presidência de Trump, bem como do futuro do Partido Republicano e da direita americana. Mesmo não coincidindo 100% com os objetivos de Trump, o cuidadoso planejamento significa que o projeto “está em posição de dominar o governo e formar o modelo intelectual para decisões estratégicas e políticas”. O que o distingue em relação a projetos anteriores é tratar de temas amplos e apresentar um minucioso plano de execução e planejar a restruturação radical do governo americano.

Além disso, alimenta ambições que vão além da presidência de Trump, ou seja, não se trata de um plano apenas para um governo. Entre outros aspectos relevantes, procura redefinir o papel dos Estados Unidos na segurança e na economia global, reduzir a ajuda humanitária, expulsar imigrantes e retirar o país de organismos internacionais, como ocorreu no início do governo em relação ao Acordo de Paris — um tratado internacional sobre mudanças climáticas, com adesão de mais de 200 países — e à Organização Mundial da Saúde (OMS), agência de saúde pública das Nações Unidas.

O livro com 154 notas, é dividido em dois capítulos: Os métodos e os meios e Os objetivos, subdivididos em Gênero, família e direitos; Imigração e segurança de fronteiras; Economia e comércio; Política externa e defesa. Nesses capítulos, diversos temas são abordados. Em Economia e Comércio, por exemplo: Tributação e gastos sociais (reduzindo-os), Comércio, Big Tech, Regulação financeira, Federal Reserve (Banco Central, com intervenção do governo visando diminuir seu poder), Trabalho, Rede de segurança social (diminuição de recursos), Mudanças climáticas (prevalência do negacionismo).

A análise dos temas abordados, desenvolvidos pelo autor e seguidos por Trump, constitui em grande parte os parâmetros estabelecidos para seu governo, com integrantes da equipe de colaboradores do Projeto 2025 em posições relevantes na administração do país. Como afirma Jamil Chade em Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana (Editora Nós, 2025), resultado de viagens pelos Estados Unidos na campanha eleitoral de 2024 e no início do governo Trump, nada é fruto de improviso “Ao gerar um clima de incerteza, ruptura e medo, Trump semeia o caos como método para causar a desorientação de qualquer tipo de resistência e da organização de trincheiras contra o desmonte do Estado de direito”.

No prefácio, o cineasta Walter Salles afirma que “poucos países estão passando por um processo tão acelerado de erosão de sua democracia e de seu tecido social quanto os Estados Unidos” e que “a desconstrução é violenta: deportação em massa de imigrantes, censura às universidades públicas e privadas, suspensão do financiamento à pesquisa científica, ataque feroz a todas as formas de minorias, desregulamentação das mídias sociais como ferramenta de controle social, negacionismo climático, neutralização do legislativo”.

Sua campanha eleitoral que vem se refletindo em sua governo, foi a prevalência da desinformação e mentiras (trata-se afinal, de um mitômano), com apelos ao autoritarismo, xenofobia, insultos racistas, machismo e misoginia, fake news e apologia às armas (compartilhados por seus seguidores).

Como em todos os governos, mesmo com planos minuciosos, surgem questões não previstas. No caso de Trump, não estavam no Projeto, da forma como foram estabelecidas, as taxações (arbitrárias) aos países, o ataque a três usinas nucleares no Irã em junho de 2025 (após combates aéreos entre Israel e Irã), nem o envio de navios de guerra  para o sul do Caribe em agosto de 2025, com a justificativa de combater cartéis de drogas latino-americanos. A operação incluiu três destroyers com mísseis guiados e navios anfíbios, próximo à Venezuela. Os EUA acusam o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, de liderar o Cartel dos Sóis, quando o objetivo é o controle de um país que tem as maiores reservas de petróleo do mundo. A ação dos Estados Unidos elevou a tensão na região, com a mobilização de tropas militares e de organizações civis organizadas por Maduro em resposta a um possível ataque ao país.

Outras medidas permaneceram, como continuidade do governo anterior, como o apoio militar à Ucrânia na guerra contra a Rússia e a Israel com a conivência em relação ao genocídio em Gaza. O Projeto 2025 também se refere a armas nucleares e gastos militares, propondo grandes aumentos no orçamento de defesa, “visando fortalecer a base industrial militar dos EUA, ampliar a venda de armas no exterior e redefinir o papel do país em relação à Coreia do Norte, Oriente Médio e América Latina”.

Entre o conjunto de temas abordados pelo autor, destaca-se a influência do que ele chama de cristianismo evangélico, “que domina o Partido Republicano”, e outras questões relevantes como gênero, raça, educação, saúde e direitos civis. Temas que voltaram ao debate, como o aborto (com o objetivo de estabelecer e executar uma política antiaborto), além de um “machismo robusto, uma feminilidade recatada, desigualdade racial herdada” e a defesa do que o Projeto chama de “espinha dorsal da família americana e proteção às nossas crianças”, tudo inserido no uso do poder centralizado do governo federal para impor sua visão de família.

Outro aspecto fundamental defendido pelo Projeto 2025 é a transferência de poder do Congresso para o presidente, para que ele governe sem contestação — em defesa da concentração de poderes pelo Executivo.

Essencialmente, o que se pretende é a subordinação das instituições e impor políticas para todas as áreas, como a saúde, por exemplo, tal com ocorre em outros países com governos de extrema direita. Em vez de se basear na ciência e em evidências, amplia a participação de movimentos antivacinas (programas contra vacinação pública), como durante a pandemia da Covid-19, no final do governo Trump e início da pandemia, em 2020, com consequências conhecidas, como mortes evitáveis.

Um dos objetivos do Projeto 2025 é promover profundas mudanças, como cortes de recursos em programas sociais importantes (em relação à saúde pública, para pessoas de baixa renda, como a lei federal criada em 2010, no governo Obama, que reformulou e expandiu o acesso ao sistema de saúde, criticada pela extrema direita na época e agora atacada no governo Trump).

Também busca acabar com programas de diversidade, equidade e inclusão do governo federal, além de se opor a iniciativas de combate à pobreza e às mudanças climáticas (com negacionistas climáticos em cargos relevantes da administração).

Outro aspecto importante é quanto à política externa. No Projeto 2025, o destaque é para a China, considerado como o principal inimigo, por sua relevância econômica, política e militar no mundo. O documento analisa a China como uma “ameaça imediata”, não apenas a Taiwan, mas também a todos os aliados dos EUA no Pacífico. Identifica a China como “a mais alta prioridade diplomática do país”, defendendo que os Estados Unidos assumam papel central em relação à Nova Rota da Seda, “um programa gigantesco de gastos globais em infraestrutura em países em desenvolvimento”.

No Projeto 2025, fica claro que “derrotar tanto a China quanto a burocracia ‘woke’ deixa pouco tempo livre para qualquer outra coisa, mas o Projeto 2025 dá ideia de como os autores veem o resto do mundo – e o lugar dos Estados Unidos nele”.

Além disso, há propostas em relação à imigração e segurança nas fronteiras, como prisões e deportações de imigrantes ilegais, mesmo que “sejam de legalidade e constitucionalidade duvidosas”, inclusive de muitos latinos que apoiaram Trump na eleição.

Quanto às big techs, a proposta inicial do Projeto 2025 era de críticas e enfrentamento, analisando-as como adversárias. Contudo, antes mesmo da eleição de Trump, houve adesão de empresários como Elon Musk, dono da X (antigo Twitter), cuja rede se transformou, segundo o autor, em “um pântano de racismo e teorias conspiratórias da direita”. Musk financiou a campanha de Trump com bilhões de dólares e chegou a ocupar um cargo de relevância no governo, embora por pouco tempo. Também houve adesão de proprietários de outras grandes empresas de tecnologia, como Mark Zuckerberg (Meta), Jeff Bezos (Amazon) e Tim Cook (Apple), que igualmente fizeram doações bilionárias e compareceram à cerimônia de posse.

Ao analisar o papel das Big Techs, o autor mostra que o objetivo é o fim de políticas de combate à disseminação de fake news e campanhas de ódio. “Longe de representar uma defesa do princípio da liberdade de expressão”, o que se busca é a liberdade para cometer crimes em seu nome. Um dos efeitos nefastos da adesão da Meta, por exemplo, foi à eliminação da checagem de fatos e das restrições a discursos de ódio em plataformas como Facebook e Instagram.

Para a extrema direita de outros países, como o Brasil, o Projeto 2025 deve servir de modelo, assim como para movimentos semelhantes em El Salvador (Nayib Bukele) e partidos de extrema direita na Argentina com Milei, e em outros países, como Alemanha, França, Espanha, Portugal, Itália e Hungria. Como disse o autor, Trump  tem “engendrando imitadores”.

Em relação ao Brasil, ao se referir ao Projeto 2025 como modelo para a extrema direita global, o autor afirma que uma das ligações mais diretas entre esses movimentos é a existente entre Donald Trump e Jair Bolsonaro. Segundo ele, “de certa forma, Bolsonaro foi precursor de Trump, participando ativamente da vida política antes que seu homólogo norte-americano se candidatasse à presidência”. Embora tenham diferenças — um poderoso e o outro apenas um seguidor fiel —, ambos não reconheceram suas respectivas derrotas eleitorais em 2020 e 2022, acusando sem provas os órgãos responsáveis pelas eleições. A diferença é que Trump conseguiu se eleger em 2024, mesmo condenado em 34 processos em Nova York, enquanto Bolsonaro não se reelegeu, mesmo adotando a tática de Trump.

O Projeto 2025 é um plano detalhado de uma plataforma política, com extenso banco de dados e cursos de formação. É, enfim, “um manual para assumir totalmente o controle do governo”. Entre os objetivos do projeto, a educação tem papel central: acabar com o ensino público, atacar as universidades (cortes de verbas, críticas ao progressismo e ao “marxismo cultural”), submeter o judiciário independente à agenda política do governo.

Como salienta David Grahan, o poder judiciário é um dos alvos importantes, mas ainda existem algumas salvaguardas que protegem o Departamento de Justiça da política partidária. Contudo, a intervenção e reformulação do Departamento — principal agência de aplicação da lei no país — é um dos objetivos do Projeto 2025, assim como mudanças no FBI e na DEA (agência de combate às redes criminosas de drogas, com 241 escritórios domésticos e 93 no exterior).

Embora haja resistência, não se sabe até que ponto a Justiça estará à mercê dos interesses de Trump e seu governo. O objetivo dele (e do Projeto 2025) é desmontar os limites impostos pela democracia, seus pesos e contrapesos, possibilitando o avanço do autoritarismo, a erosão democrática no país e a criação de uma presidência imperial, subordinando instituições e submetendo-as à vontade do presidente (e de quem se beneficia disso).

Como afirma Wilson Gomes no artigo O declínio da democracia americana (26.08.2025) “o inesperado foi a ‘desdemocratização’ dos Estados Unidos – e a velocidade vertiginosa com que a erosão avançou, sem encontrar resistências, num país repleto de instituições criadas justamente para conter o absolutismo” e se refere a uma espécie de “nova constituição”,  cujo primeiro artigo é que Trump é o Estado e é ele quem decide o que se pode falar e qual a opinião se deve ter”.

Em relação aos funcionários públicos de carreira e não indicados politicamente, sua substituição é parte do desmantelamento de agências governamentais, a fim de substituir servidores não leais ao governo. O documento é claro, ao enfatizar que os membros do governo devem alinhar seus pontos de vista com os do presidente, com a implicação de que não fazer isso resultará em demissão. E isso tem ocorrido. Entre outros exemplos, em 28 de agosto de 2025, o Washington Post publicou a matéria: FEMA employees put on leave after criticizing Trump administration in open letter, informando que dezenas de funcionários da Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA) foram afastados por terem enviado uma carta aberta ao Congresso criticando o governo Trump. A denúncia afirma que tais ações podem levar os EUA “a uma catástrofe no nível do furacão Katrina”.

Houve também a demissão da diretora do FED (Banco Central), Lisa Cook e da diretora dos Centros de Controle  e Prevenção de Doenças (CDC, a Agência Sanitária) Susan Monarez, que se recusou a deixar o órgão por considerar que o objetivo de Trump é usar a saúde pública  como arma política, de forma ilegal e sem precedentes, reforçando programas antivacinas, por exemplo, colocando em risco à saúde pública.

No artigo Uma conspiração de extrema direita às claras, publicado no site Outras Palavras em 05/11/2024, dia da eleição que elegeu Donald Trump,  Mel Gurtov, professor emérito de Ciência Política na Universidade Estadual de Portland, autor de trinta livros, além de numerosos artigos sobre política externa dos EUA,  escreve que Trump afirmava “não saber nada sobre o Projeto 2025”, mas “seu nome aparece no documento mais de 300 vezes. A CNN contabiliza pelo menos 140 pessoas que trabalharam no Projeto 2025 e também já haviam servido no governo Trump (2017-2020). Além disso, mostra como Trump mantém laços estreitos com a Heritage Foundation, que publicou o documento, com parceria de uma rede de extrema direita em Washington chamada Conservative Partnership Institute, no qual muitos de seus integrantes passaram a ocupar cargos em seu governo.

As decisões de Trump, mesmo considerando sua imprevisibilidade, não são fruto apenas de um psicopata de extrema direita, mas parte de um projeto muito mais amplo, do qual ele é apenas um dos instrumentos (como ocorre com seus seguidores autocratas em outros países). O autor alerta que quem quiser barrar o avanço desses movimentos em outros lugares “deve ficar atento e aprender com os Estados Unidos”. Como disse Jamil Chade: “Trump e seus aliados não chegaram ao poder desarmados. Vieram com um novo projeto de país e de sociedade. Enquanto o caos é o novo normal, a extrema direita cavalga destemida na captura do Estado. Hoje, a democracia americana está sob seu maior ataque. E precisamos aprender as lições para 2026” (p.142).

Para Mel Gurtov, “se uma agenda Trump-Projeto 2025 for implementada, podemos esperar crises cada vez maiores na Europa Central e no Oriente Médio, novas corridas armamentistas com a Rússia e a China, outra guerra comercial com a China e novas tensões no Estreito de Taiwan”.

O fato é que, quase um ano depois da posse, o conjunto de ações do governo Trump mesmo que às vezes de forma caótica, desorganizada e imprevisível, com ameaças, atos e alguns recuos impostos pelas circunstâncias, tanto internas quanto externas — mostra que suas decisões fazem parte importante do Projeto 2025. Daí a importância de se “cavar as trincheiras” da resistência, tanto nos Estados Unidos, como em todos os países submetidos ao seu poder pretensamente imperial.

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