Marcha das Mulheres Negras: Saúde, Poder Político e a Reafirmação da Ancestralidade
Por Rosangela Nascimento¹
O Grito da Tripla Opressão | A II Marcha das Mulheres Negras transcendeu o simbolismo de um protesto, consolidando-se como um ato de soberania política e um catalisador de mudanças estruturais no Brasil. Em um país marcado pela tripla opressão (racismo, machismo e desigualdade social), a Marcha emerge para exigir que a vida e o bem-viver da mulher negra sejam prioridade nacional.
A Saúde da Mulher Negra: Racismo Institucional e Reparação
A saúde é uma pauta central e urgente do movimento, pois o acesso aos cuidados básicos é severamente limitado pelo Racismo Institucional no Sistema Único de Saúde (SUS) e em toda a rede assistencial.
As principais reivindicações na área de Saúde incluem:
• Combate à Mortalidade Materna: Exigência de políticas eficazes que reduzam as altas taxas de mortalidade materna, que afetam as mulheres negras de forma desproporcional.
• Fim da Violência Obstétrica: Denúncia e combate ao tratamento discriminatório e à desumanização dos corpos negros nos serviços de parto e pré-natal.
• Saúde Mental Antirracista: Demanda por suporte psicossocial especializado para lidar com o peso do racismo, do genocídio da juventude negra e do luto familiar.
• Acesso e Diagnóstico: Garantia de que queixas e dores sejam levadas a sério, combatendo a invisibilidade e a subnotificação de doenças crônicas que atingem esta população.
Poder e Representatividade: A Força Política da Base
A Marcha é a materialização do poder político em articulação. É uma pressão direta por representatividade e pela implementação de políticas públicas que transformem o Brasil.
A Mobilização e o Impacto Político
- Exigência de Reformas: O movimento pressiona por reformas que garantam maior representação de mulheres negras nos espaços de poder, reconhecendo-as como formuladoras legítimas de políticas públicas.
- O Exemplo do Rio Grande do Norte: A força do movimento é demonstrada pela sua articulação capilar. A organização de seis potentes comitês no Rio Grande do Norte, com presença confirmada em Brasília no dia 25 de novembro, evidencia a maturidade da mobilização de base e a capacidade de transformar demandas locais em pressão nacional.
- Luta por Território e Bem-Viver: A Marcha reforça a defesa dos territórios quilombolas e tradicionais, vinculando a luta pela terra e pelo ambiente saudável à própria sobrevivência da mulher negra.
Movimentando a Estrutura Social
A Marcha das Mulheres Negras transcende a crítica para se apresentar como um projeto de nação. Ela ensina que não haverá justiça social nem democracia plena no Brasil enquanto a mulher negra for a base da pirâmide da desigualdade.
A filósofa e ativista Angela Davis sintetiza a essência dessa luta:
“Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela.”
Este movimento é, em sua essência, a vanguarda da transformação, guiada pela sabedoria e resistência de suas ancestrais.
Salve Dandara e Nossas Ancestrais
A II Marcha das Mulheres Negras, ao unir milhares de vozes e corpos de todas as regiões, reafirma a necessidade de reparação histórica e justiça. A luta é contínua e a presença organizada em Brasília é um lembrete inegável: as mulheres negras estão na luta e no poder de decisão.
Salve Dandara e todas as nossas ancestrais!
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¹ Escritora negra brasileira que tem se destacado na literatura afrobrasileira. Graduada em Letras e Comunicação Popular, com especialização em Literatura Ladina, responsável pela Biblioteca Comunitária Auta de Souza, além de ser educadora com formação em Direitos Humanos.