“O outro dia chegará”: certidões corrigem a mentira oficial sobre 12 potiguares mortos pela ditadura
Natal, RN 16 de jun 2026

"O outro dia chegará": certidões corrigem a mentira oficial sobre 12 potiguares mortos pela ditadura

16 de junho de 2026
7min
Foto: Ana Beatriz Sá

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Eu vos contemplo
Gerações futuras,
Herdeiros da paz e do trabalho.”

Por alguns segundos, o auditório da Reitoria da UFRN deixou de ser apenas o cenário de uma solenidade oficial. A voz que ecoava no espaço era a de Emmanuel Bezerra dos Santos.

Não a voz que a ditadura civil-militar brasileira tentou calar nos porões da repressão em 1973. Nem a voz registrada em documentos policiais ou relatórios dos órgãos de segurança. Mas a voz do poeta que escreveu para um tempo que talvez soubesse que nunca veria.

Mais de cinquenta anos depois, seu primo, Jessé Andrade Alexandria, leu os versos de “Às Gerações Futuras” diante de familiares, militantes, estudantes e representantes do Estado brasileiro.

Naquele mesmo instante, o país começava a corrigir uma mentira.

Todos conhecem a faceta de Emmanuel como militante político. Mas todos eles têm uma faceta de pai, de filho, de irmão. No caso de Emmanuel, também de poeta.

Ao lembrar que os mortos e desaparecidos da ditadura eram mais do que suas fichas de perseguição política, Jessé tocou numa das dimensões mais profundas da reparação simbolizada pelas certidões de óbito retificadas entregues pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania a familiares de 12 potiguares vítimas da violência de Estado.

Por trás dos documentos corrigidos estavam histórias interrompidas de estudantes, trabalhadores, jornalistas, advogados, camponeses, intelectuais e dirigentes políticos.

Como Emmanuel Bezerra dos Santos, líder estudantil da UFRN, fundador de jornais estudantis e dirigente do Partido Comunista Revolucionário (PCR), assassinado sob tortura em São Paulo, em 1973.

Certidão retificada de Anatália Alves | Foto: Raiane Miranda

Ou como Anatália de Souza Alves de Melo, nascida em Frutuoso Gomes e criada em Mossoró, trabalhadora da Cooperativa de Consumo Popular e militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), presa em Recife e encontrada morta após sofrer torturas e violência sexual.

Entre os homenageados estava também José Silton Pinheiro, estudante potiguar cuja trajetória política começou no movimento estudantil e terminou aos 23 anos, em uma operação do DOI-Codi posteriormente apontada por testemunhos e investigações como uma execução.

A lista inclui ainda Lígia Maria Salgado Nóbrega, nascida em Natal e militante da VAR-Palmares, morta aos 24 anos durante a Chacina de Quintino; e Zoé Lucas de Brito, estudante de Geografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), executado em São Paulo quando tentava escapar da perseguição política.

Também foram homenageados dois dirigentes comunistas potiguares do século XX.

Hiram de Lima Pereira, deputado federal eleito pelo PCB em 1946, cassado após a ilegalização do partido e desaparecido em 1975 depois de ser preso pelos órgãos de repressão.

E Luiz Ignácio Maranhão Filho, advogado, professor, jornalista e dirigente comunista, preso durante a Operação Radar e desaparecido até hoje sem que o Estado brasileiro tenha esclarecido o paradeiro de seus restos mortais.

Entre os trabalhadores perseguidos pela ditadura estavam Luiz Gonzaga dos Santos, vice-prefeito de Natal ao lado de Djalma Maranhão, preso, condenado e morto sob custódia do regime; e Virgílio Gomes da Silva, operário nascido em Santa Cruz, dirigente sindical e militante da ALN, morto sob tortura poucas horas após sua prisão em São Paulo.

Familiares de Edson Quaresma | Foto: Raiane Miranda

A relação dos homenageados inclui ainda Edson Neves Quaresma, marinheiro perseguido após o golpe de 1964 e posteriormente desaparecido; Gerardo Magela Fernandes Torres da Costa, poeta, jornalista e estudante de Medicina cuja morte foi registrada como suicídio, versão contestada pela família até hoje; e Sebastião Gomes dos Santos, jovem trabalhador rural morto durante operações militares contra camponeses organizados no interior do Rio de Janeiro.

As trajetórias são diferentes. Mas todas carregam uma marca comum: a tentativa do Estado brasileiro de apagar não apenas essas vidas, mas também a verdade sobre suas mortes.

“Isso restitui parte da verdade que eles tentaram cobrir, esconder, falsear“, afirmou Jessé.

Segundo ele, a correção dos documentos representa o reconhecimento oficial de uma realidade que as famílias conheciam desde o início.

Emmanuel não morreu a partir de um tiroteio em São Paulo. Ele faleceu vítima da ação terrorista do Estado ao prendê-lo, torturá-lo e assassiná-lo nos porões da ditadura.”

A observação ajuda a compreender o significado das certidões entregues nesta segunda-feira (15).

Mais do que uma alteração burocrática, elas representam o reconhecimento oficial de que homens e mulheres perseguidos pelo regime militar foram vítimas da ação do próprio Estado.

Durante décadas, familiares tiveram de conviver com versões produzidas pelos mesmos órgãos responsáveis pela repressão. Confrontos que nunca existiram. Suicídios contestados por evidências de tortura. Mortes registradas sem qualquer menção à violência política que as provocou.

“O outro dia chegará“, escreveu Emmanuel em um dos versos mais conhecidos do poema.

Na noite desta segunda-feira, o outro dia finalmente chegou.

Chegou na forma de um documento que demorou mais de meio século para reconhecer o que mães, pais, irmãos, filhos e companheiros sempre souberam.

Aqueles homens e mulheres não morreram como o regime militar tentou fazer acreditar. Foram perseguidos. Foram presos. Foram torturados. Foram assassinados. Mas a justiça continua incompleta.

Durante sua fala, Jessé lembrou que o Brasil ainda convive com desaparecidos políticos cujos corpos nunca foram localizados. Famílias que sequer tiveram o direito de sepultar seus mortos. Casos ainda não reconhecidos oficialmente pelo Estado.

As sequelas da ditadura perduram até hoje“, afirmou.

Para ele, a reparação não se encerra com a retificação das certidões. Passa também pela responsabilização dos autores de crimes contra a humanidade, pela revisão da interpretação da Lei da Anistia e pela continuidade das políticas de memória, verdade e justiça.

A observação encontra eco na própria trajetória do Rio Grande do Norte. Durante décadas, o estado não contou com uma Comissão Estadual da Verdade. Apenas recentemente passou a desenvolver uma política permanente voltada à preservação da memória e à reparação histórica por meio do Comitê Estadual de Memória, Verdade e Justiça.

Auditório da Reitoria da UFRN | Foto: Raiane Miranda

Ao final da cerimônia, a sensação compartilhada por muitos familiares era a de que a certidão corrigida não representa um ponto de chegada.

É apenas um passo.

Porque aqueles documentos corrigem uma mentira.

Mas a verdade completa continua exigindo a abertura dos arquivos militares, a localização dos desaparecidos, o reconhecimento de todas as vítimas da violência de Estado e o enfrentamento de um legado autoritário que ainda produz consequências no presente.

Talvez por isso o poema de Emmanuel tenha atravessado tão bem o tempo.

A ditadura tentou apagar sua voz.

Mais de cinquenta anos depois, ela continuava ecoando no auditório da UFRN.

“Eu vos contemplo
Gerações futuras.”

Pela primeira vez, as gerações futuras puderam responder.

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