Lá vinha a moça, um tanto tímida, com seus 30 e poucos anos, uma beleza incomum, um passo atrás do outro, olhos fixos à frente, passando pelo meio de uns oito adolescentes entregues ao ócio debaixo do bloco, em Brasília. Os olhos, como eu disse, permaneciam presos a um ponto adiante e revelavam um evidente grau de estrabismo. Eu devia ter uns 12 ou 13 anos naquela época e ainda procurava o significado das palavras.
A mulher passou prendendo a respiração, meio constrangida diante do súbito silêncio da molecada. Quando já estava a uma boa distância, quase a perder de vista, fiz o comentário, quase um sussurro, que deixou meus amigos atônitos e sem chão:
– Vocês viram? Essa mulher é lésbica.
Os olhos se voltaram para mim arregalados. Como assim? Nossa vizinha ? Como você sabe? Você viu alguma coisa? Onde ela mora? Que história é essa !?
Para cada cabeça e mente poluída pelas descobertas sexuais da adolescência, um canavial de dúvidas e um balaio de curiosidades. Instalou-se ali, por alguns minutos, um tribunal rodrigueano. Eu, moleque candango, mascote da turma, filho de pais funcionários públicos, fui por alguns minutos o próprio menino que enxergava a vida pelo buraco a fechadura.
O garoto que via – e vivia – a vida como ela é. Um autêntico personagem de Álbum de Família, uma das peças censuras de Nelson Rodrigues: o filho que aparentemente viva numa família margarina feliz, mas nas entocas estava imerso em relações incestuosas e ideias meticulosamente pervertidas.
Naquele instante, admito, não entendi o alvoroço da turma.
“Vocês não perceberam? Está na cara”, devolvi, entre o blasé e a inocência, uma única resposta para o interrogatório.
Meus amigos se entreolharam meio que tentando entender a maior revelação de que se tinha notícia no Plano Piloto desde a chegada de Juscelino. Estávamos na primeira metade dos anos 1990, ainda armazenávamos nossa memória em disquetes, e a vida era tudo aquilo que passava, para lá e para cá, debaixo dos blocos armados de concreto e seus pilotis coloridos.
Não lembro quem foi o mais incisivo – se o Batata, o Marquinho ou Ganso -, aquele que me arrancou a confissão pública, no fundo buscando os mínimos detalhes:
“Como você sabe que a mulher é lésbica?”
Com a minha resposta, instaurou-se o universo em desencanto:
– Gente, vocês não viram a cara dela, os olhos trocados?
“O quê ? Que a mulher é vesga !?”
– Sim. Então… lésbica, né ? Não é a mesma coisa?
O tempo parou por dois segundos e, se lembro bem, até seo Dedé, o zelador que ouvia conversa limpando o chão do bloco, rachou o bico.
A rua é a gramática da vida.
Pior que esse dia só quando desci com o terceiro olho estampado na testa.
Mas essa é história para outro dia.