A esquerda esqueceu a luta de classes
Natal, RN 1 de mar 2024

A esquerda esqueceu a luta de classes

28 de maio de 2018
A esquerda esqueceu a luta de classes

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Não é de hoje, a polarização política e eleitoral no país deixou a mostra que parte da esquerda brasileira tem a dificuldade, quase infantil, de conseguir dialogar com os trabalhadores que não se totalizam ou que apresentam diferenças com alguma de suas pautas. Ou seja, nesse momento, a esquerda tem dificuldade de diálogo com boa parte da classe trabalhadora brasileira.

Trabalhadores amedrontados pelo desemprego que cresce, por um discurso midiático que devora os movimentos populares, pela crise econômica e pelo alto custo de vida nas grandes e médias cidades. O que chama a atenção é que a nossa resposta, para esses trabalhadores, não é de solidariedade pelo seu latente estado de revolta. Preferimos mesmo é manter vivo o nosso permanente estado de vingança. Focando nos inimigos errados, como já é de costume.

Antes voltada a entender as questões de classe, agora parte da militância olha para os trabalhadores com desconfiança e revanchismo. Não se importa muito com os  processos de manipulação e desgaste que levaram os setores médios e os setores populares a apoiarem o golpe e todo o cenário terrível que se seguiu. Tão pouco a esquerda optou  pelo caminho da autocrítica para entender o que fez esses setores marcharem atrás do pato, justo eles que receberam tantos benefícios no período que a centro-esquerda ocupou o poder.

Tenho a avaliação de que, perdido nas alianças conservadoras, os “progressistas” “esqueceram” de organizar politicamente a população. Boa parte dela só era chamada a votar, a cada 4 anos, em projetos que não apresentavam muita diferença no financiamento e na sustentação política. O consumo das famílias, base importante, mas aqui tratada como pilar de sustentação popular do governo, acabou por rachar e caiu; O governo veio junto.

O espetáculo orquestrado contou com apoio popular, e desde então elegemos os tais inimigos do golpe. Não são as elites que manipularam a classe trabalhadora, essas seguem intocadas. Os inimigos são os próprios trabalhadores que agora penam sob os efeitos de um governo que ajustou  tudo em benefício dos ricos, reduzindo ainda mais o espaço no orçamento para a classe média baixa e para os mais pobres. Ao invés de utilizar o momento para dialogar com os trabalhadores, optamos pela empáfia. “Não queriam isso, agora aguentem!”

Desconectada das ruas e conectada na bolha de sua linha do tempo a “esquerda” vai falando para si. No entanto, a política não deixa brecha para vazios, assim a  classe trabalhadora vai sendo ocupada por pautas que, muitas vezes, depõem contra seus próprios interesses.

As elites, ágeis e coesas, seguem manobrando as massas para garantir seu projeto mesquinho de país. E a gente?  Bom,  já não vamos para a rua se a manifestação não gritar três  das quatro palavras de ordem do momento. Preferimos  o conforto das redes sociais, onde podemos julgar qual pauta política merece nosso apoio, desprezo ou nosso deboche.

Muitas vezes, impressionados com análises de Face, vamos classificando todos os trabalhadores de um movimento dinâmico e diverso como se eles fossem conservadores, coxinhas ou burros.  Longe de descartar o vigor fascista que corre o país, tentando se aproveitar de momentos de grande ebulição social, ainda é preciso lembrar que  se não é da esquerda a tarefa de organizar trabalhadores altamente precarizados, caso dos caminhoneiros, de quem será essa tarefa? Vazio o  espaço não ficará.

São Paulo - Manifestação na Avenida Paulista (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Oportunamente perdida em caracterizações que favorecem o lugar comum e o imobilismo, parte da esquerda segue classificando trabalhadores, aos quais deveria lutar para organizar, como mera massa de manobra. Ao mesmo tempo em que, confortavelmente, isenta-se de intervir no processo, deixando os trabalhadores  livres para reprisar, sem grande interferência, a ideologia do discurso dominante.

Despreza ainda o contexto social caótico, as precariedades se avolumam. Trabalhadores, por exemplo, passam a cozinhar com lenha por já não ter condições de fazer frente aos reajustes constantes no gás de cozinha. A luta contra a carestia não deveria ser vista como coisa de coxinha, mas sim um elemento que pode impactar a vida de todos os trabalhadores, os únicos que pagaram a conta da crise.

Toda essa conjuntura bastante complexa, onde os movimentos não se apresentam coesos e nem bradam nossos gritos, cobra da esquerda uma postura consequente que não abandone os trabalhadores a própria sorte, nem os generalize. Fora do lugar comum, precisamos interromper a distância que tomamos da classe trabalhadora. O despertar das consciências não virá pela livre iniciativa, só pela forte disputa social com a elite, essa que vive a usar o povo para reprisar um discurso que sempre o massacra. É hora da revolta, não da revanche.

As mais quentes do dia

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.