Tem o vice-governador alguma relevância na política do RN? (parte 2)
Natal, RN 17 de jul 2024

Tem o vice-governador alguma relevância na política do RN? (parte 2)

2 de fevereiro de 2022
10min
Tem o vice-governador alguma relevância na política do RN? (parte 2)

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O Golpe de 1964 colocou o país em nova quadra política, pois os militares, ao tomar o poder rapidamente buscaram institucionalizar a quartelada e isso significava dois movimentos: expurgos e cooptação. Em pouco tempo os expurgos enfraqueceram os partidos que se opuseram ao Golpe e houve uma enxurrada de prisões que eram um sinal claro de que os militares estavam determinados a permanecer muito tempo no poder.

Essa recomposição de forças chegou ao RN, e logo se fez sentir na “cultura política” vigente, com o adesismo de primeira hora, a começar pelo governador Aluízio Alves, que se apresentou como defensor do Golpe, gesto compartilhado pelo cel. Dinarte Mariz, inimigo de Aluízio e que, pelo seu conservadorismo, era componente do setor cívico que se aliou aos militares no Golpe.

As eleições de 3 de outubro de 1965 foram realizadas ainda com os partidos legalizados, mas apenas quatro dias depois o governo promulgou o Ato Institucional n° 2 e baniu todos os partidos. Nestas eleições o embate Aluízio x Dinarte, o “verde” e o “encarnado”, deram o tom da disputa e Aluízio foi o grande vitorioso, ao conseguir com que o Monsenhor Walfredo Gurgel, saísse do Senado para derrotar o próprio Dinarte Mariz, numa vitória apoteótica (55% x 45%), que deixou o velho coronel furioso, disposto a vingar-se politicamente.

O AI-2 criou a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), oficialmente o “partido do governo” e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), a “oposição consentida” e no RN a onda de adesões à Ditadura foi massacrante, a tal ponto que o MDB era tido como um partido que “cabia numa Kombi”.

O novo cenário impôs a eleição indireta para governador, mas como o do RN já tinha sido eleito, fez-se a eleição para vice, em março de 1966, e a escolha recaiu sobre o empresário Clóvis Coutinho da Motta, amigo de Aluízio, com posições progressistas que foram diluídas no seu novo cargo. Clóvis Motta foi a escolha para deixar o ambiente político totalmente pacificado.

Os dois vices seguintes, Tertius Cesar Pires de Lima Rebelo (1971-75) e Genibaldo Barros (1975-79), eram figuras garantidoras da estabilidade e fiéis aos generais. Tertius Rebelo, sequer era norte-rio-grandense e sua escolha pelos militares, deveu-se ao singelo fato de o mesmo ser oficial da Marinha e prefeito de Natal, desde a deposição de Djalma Maranhão (1964). E Genibaldo Barros era um seridoense que exercera o cargo de Secretário de Saúde no governo de Cortez Pereira, sendo “premiado” posteriormente com a presidência do Tribunal de Contas do Estado, em 1979.

Só houve um solavanco no sistema político potiguar, que chamou de fato a atenção, em 1978, quando improváveis aliados, Aluízio Alves e Tarcísio Maia, costuraram a primeira “Paz Pública”, na verdade um conchavo desavergonhado, em detrimento do velho e decadente cel. Dinarte Mariz. Nesse “acordo”, o escolhido para vice de Lavoisier Maia, escolhido de Tarcísio Maia, foi o usineiro Geraldo Melo, representante dos velhos e decadentes senhores de Engenho de Ceará-Mirim, que fora secretário do Planejamento do governo Aluísio Alves (1961-65) e que para firmar esse acordo entrou posteriormente para o Partido Democrático Social (PDS), herdeiro da ARENA.

Durante o processo eleitoral de 1982, Geraldo Melo rompeu com os Maia e apoiou a candidatura de Aluísio Alves, que foi derrotado pelo esquema dos Maia, que fez eleger o ex-prefeito INDICADO de Natal (1979-82), José Agripino Maia. O vice na chapa de José Agripino Maia, foi Radir Pereira de Araújo.

Radir Pereira, velha liderança política que aderira à ARENA e na década de 70 presidira a importante loja comercial “A Sertaneja” foi lançado ao Senado, em 1978, pelos “históricos” do MDB, que se recusaram a aceitar o “acordão” fechado por Aluísio e Tarciso Maia, para eleger Jessé freire ao Senado. Radir foi derrotado por Jessé. No ano seguinte filiou-se ao PDS, fez as pazes com os Maia e foi lançado a vice de José Agripino, trazendo muitos votos da região do Seridó. Em maio de 1986, José Agripino Maia renunciou para disputar uma cadeira no Senado e Radir Pereira assumiu o governo do Estado até 15/03/1987.

Um novo embate entre Alves e Maia, nas eleições de 1986, trouxe a vitória para Geraldo Melo, cujo vice foi o patriarca da família Alves, Garibaldi Alves, que consolidou o poder dos Alves na gestão pública, já que seu filho, Garibaldi Alves Filho fora eleito no anterior, prefeito de Natal, nas primeiras eleições desde 1960.

As eleições de 1990 trouxeram, mais uma vez, a disputa entre Alves e Maia, sendo que neste último, ocorrera um “racha” entre Lavoisier e José Agripino. Lavoisier bandeou-se para o lado de Aluísio Alves e Geraldo Melo e teve a companhia de sua esposa, a deputada federal Wilma Maia, que em 1988 foi eleita prefeita de Natal, derrotando Henrique Eduardo Alves, já no Partido Democrático Trabalhista (PDT), brizolista, que se aliara ao PFL de José e Lavoisier.

José Agripino Maia deixou sua cadeira no Senado, disputou o governo com Lavoisier Maia (apoiado por Aluísio) e venceu. O vice de Agripino Maia era o caicoense Vivaldo Silvino da Costa, político tradicional do Seridó que fizera carreira na ARENA, depois PDS e em 1988, para fazer os devidos ajustes políticos, entrou para o Partido Liberal (PL).

Lavoisier fez as “pazes” com Agripino que o recebeu de braços abertos e o apoiou na disputa para o governo do Estado, dessa vez contra Garibaldi Alves Filho, senador eleito em 1990. Enquanto Agripino voltava para o Senado, Garibaldi Filho deu uma “surra” de votos no decadente Lavoisier Maia (52,7% x 38,7%). Seu vice foi Fernando Antônio da Câmara Freire, empresário e filho do ex-senador Jessé Pinto Freire (aquele do “acordão”). Fernando Freire, do Partido Progressista Reformador (PPR), malufista, tinha bom trânsito no empresariado local e era próximo de Geraldo Melo, então “dono” do Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB).

Fernando Freire foi vice-governador nos dois mandatos de Garibaldo Alves Filho, que em 1998 venceu o próprio José Agripino Maia (50,2% x 41,4%) e em abril de 2002, assumiu o governo do Estado, visto que Garibaldi Alves Filho, candidatou-se, como acordado com seu esquema político, ao Senado, e Freire saiu candidato ao governo, apoiado por Geraldo Melo.

Freire foi derrotado por Wilma de Faria, agora no Partido Socialista Brasileiro (PSB) e que já fora eleita, em 1998, para prefeita de Natal, derrotando a surpreendente Fátima Bezerra (35,8% x 28,9%) e em 2000 trouxe o apoio do PMDB, que lhe deu o vice, o deputado estadual Carlos Eduardo Alves, filho de Agnelo Alves, um dos patriarcas dos Alves e primo de Garibaldi Alves Filho, e uma vitória estrondosa. No ano seguinte Carlos rompeu com Aluísio/Garibaldi Filho/Henrique Alves e foi de mala e cuia para o PSB, recebendo a garantia do apoio de Wilma nas eleições para prefeito em Natal, já que ela disputaria o governo do Estado em 2002 e, vencendo, abriria caminho para Carlos ser prefeito.

O vice de Wilma, o deputado estadual Antônio Jácome, que fora líder do governo Garibaldi Alves Filho e que depois se bandeara para o grupo político que sustentava Wilma, introduziu a vertente evangélica como componente da luta pelo espaço de poder, já que Jácome utilizou esse poder nascente para se consolidar e, dessa forma, chamou a atenção de Wilma.

Em 2006 troca Jácome pelo deputado federal Iberê Ferreira de Souza, que já vinha atuando como auxiliar próximo da governadora, e representava o setor mais tradicional da política, consolidando o voto mais conservadores dos grupos interioranos. A aposta de Wilma deu certo e ela foi reeleita, vencendo a maior liderança dos Alves, Garibaldi Alves Filho (52,4% x 47,6%).

Iberê foi regiamente recompensado com a indicação do seu nome para ser candidato ao governo, em 2010, mas o peso da aliança Alves-Maia, afundou os planos de Wilma, derrotada no Senado exatamente por Garibaldi Filho e Agripino Maia, e vendo seu candidato ser derrotado por Rosalba Ciarlini Rosado, do DEM, que tinha como vice, o presidente da Assembleia Legislativa, Robinson Faria, cujo trânsito entre os empresários e prefeitos, muito em função do seu cargo, foi essencial para a vitória de Rosalba.

Ocorre que em pouco tempo as relações do vice com a governadora azedaram, na medida em que Rosalba não permitiu a ocupação de certos espaços políticos, necessários para firmar o nome de Robinson e 10 meses depois de iniciado o mandato, romperam.

Rosalba basicamente isolou Robinson, deixando-o à míngua e sem o apoio das mais poderosas oligarquias. Mesmo assim, impulsionado pelo pequeno PCdoB, Robinson montou uma “coligação dos pequenos”, tendo como vice o empresário Fábio Dantas, filho do chefe local de São José de Mipibu, que entrou para o PCdoB às vésperas das eleições e, em troca do apoio de Robinson para a eleição de sua esposa, Cristiane Dantas, para uma vaga na Assembleia Legislativa, disponibilizou seu nome para vice.

A vitória da Chapa Robinson/Fábio, derrotando ninguém menos que o poderoso Henrique Eduardo Alves, que teve o apoio dos Maia, foi, até certo ponto, surpreendente e permitiu que, pela primeira vez na história do RN, um comunista, pelos menos filiado ao PCdoB, ocupasse a vice governadoria do RN. Mas logo Fabio Dantas e Robson Faria mostraram mais desacordos que acordos, com Robinson se aproximando, de novo, das velhas oligarquias locais, preterindo a candidatura do próprio Fabio Dantas, que em 2018 rompeu com o governo e logo em seguida saiu do PCdoB. Era o segundo vice que consecutivamente rompia com o governador.

Em 2018 Robinson acabou abandonado pelas poderosas oligarquias locais, que preferiu a candidatura de Carlos Eduardo Alves e sua candidatura sucumbiu. No novo embate, o PCdoB recompôs a aliança com o PT, que apoiara Robinson, mas rompera com ele antes de completar um ano de governo, e indicou o presidente do local do partido, Antenor Roberto, como vice da senadora Fátima Bezerra e esta chapa acabou vencendo, de forma categórica, Carlos Eduardo (57,6% x 42,4%) e, pela primeira vez um governo tinha um governador e um vice do campo da esquerda.

Agora, em 2022, as peças do xadrez político se movimentam. O PCdoB quer manter Antenor Roberto como vice, enquanto Fátima se movimenta buscando atrair Carlos Eduardo Alves para uma aliança com o MDB, embora Carlos seja do PDT, na perspectiva de neutralizar as tentativas de formação de uma poderosa chapa de oposicionistas.

Quem viver verá.

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