Esta crônica é pra você, meu amigo!
Quem me conhece sabe o quanto amo meus amigos e amigas. Talvez porque amizade, para pessoas como eu, nunca tenha sido apenas um detalhe da vida. Para uma Travesti, cultivar afetos é também um ato de permanência, de resistência e de sobrevivência…
É encontrar abrigo em meio às tempestades. É descobrir quem fica quando o mundo inteiro parece treinado para partir.
Por isso, sempre digo que uma das maiores raridades da minha vida são as amizades que cultivo. Particularmente essa, que será o assunto desta crônica, uma amizade que atravessa mais de vinte anos. E, talvez mais raro ainda, uma amizade com um homem cisheteronormativo.
Não porque homens sejam incapazes de amizade. Longe disso! (A “machosfera” está para provar o quanto eles são leais uns aos outros). Mas porque a sociedade costuma não entregar a eles um manual de como ser amigo de uma mulher Trans/Travesti. (O que é menos rígido quanto se trata da amizade de mulheres Cis).
No caso dos homens parece haver, sim, um manual que ensina distâncias, silêncios, constrangimentos. Um manual que transforma afeto em suspeita e carinho em motivo para explicações.
No nosso caso, nunca seguimos manual nenhum.
Ao longo dessas duas décadas, acumulamos histórias suficientes para abastecer várias vidas. Algumas caberiam num livro. Outras, felizmente, ficarão guardadas apenas entre nós.
Há situações em que flertamos descaradamente. Não por desejo. Não por intenção romântica. Apenas pela diversão de observar a confusão se instalar nos rostos de quem não nos conhece.
Uma brincadeira, um jogo silencioso em que não revelamos que estamos jogando. Soltamos um comentário aqui. Uma resposta atrevida e apimentada ali. Uma intimidade cuidadosamente exibida. As pessoas tentam decifrar esse “namoro” que nem sequer existe. Enquanto isso, nós nos divertimos. E colecionamos histórias. Afinal, amizade também é isso: uma pequena oficina de intimidades, invasões e absurdos compartilhados.
Mas entre as brincadeiras existem os territórios mais profundos. Os papos sérios. As conversas que começam em qualquer assunto e terminam em lugares que nem sabíamos que precisavam ser visitados. Os medos. As perdas. Os amores. Os fracassos. As versões de nós que mostramos para quase ninguém.
Existe um momento curioso nas amizades muito antigas. Um estágio em que você conhece o outro para além da narrativa. Você conhece os gestos. Os limites. As grandezas. As falhas. As contradições. E aí surge uma certeza rara. Quando alguém conta uma história sobre ele, sou capaz de dizer:
– Não. Ele não faria isso.
E não há arrogância nessa frase. Há conhecimento. Há convivência. Há anos suficientes para reconhecer a arquitetura moral de alguém. A ombridade que ele carrega. Eu a conheço. E a defendo com unhas e dentes!
Da mesma forma, sei que ele faria o mesmo por mim. Sem hesitar. Sem medo. Sem precisar consultar provas. Porque certas amizades produzem esse tipo de convicção. Sabemos de nossas falhas e de nossas virtudes. Há como defendermos estas últimas.
A vida, claro, também faz suas travessuras. Impõe hiatos. Distâncias. Rotinas. Mudanças de cidade. Mudanças de hábitos. Mudanças de emprego. Mudanças internas que nem o espelho consegue acompanhar. Mudamos, pois… e nem sempre dá pra acompanhar tudo.
Às vezes passamos dias sem conversar. Às vezes semanas. Às vezes uma meia dúzia de anos… Mas algumas amizades aprenderam um segredo precioso: o tempo não é um predador. É apenas uma pausa. Um hiato, como gosto de nomear esses intervalos.
Quando voltamos a nos falar, a conversa reaparece exatamente do ponto onde ficou. Nenhum constrangimento. Nenhuma cobrança. Nenhuma necessidade de justificar ausências. A amizade permanece sentada à mesa, esperando. Paciente. Inteira. Provavelmente tomando uma cerveja gelada…
Nos últimos anos, talvez nossa principal linguagem tenha se tornado uma mistura improvável de afeto e algoritmo. Memes. Reels. Vídeos sem sentido. Piadas que fariam qualquer pessoa normal questionar nossa sanidade. Um retorno à 5ª série C (HAHAHAHAHAHA!!!)
Outro dia, mandei um vídeo que dizia: ”Ciclos de amizade se encerram, mas o nosso, não. Se enjoar de mim, dorme que passa!”
A resposta chegou logo depois: “Isso, tire um cochilinho e me ame de novo. KKKKKKKK”
Tem como não amar!?
Talvez a amizade seja exatamente isso…
Uma casa construída com conversas, silêncios, ausências temporárias, confidências, gargalhadas e vídeos aleatórios enviados tarde da noite, no meio do dia, numa madrugada qualquer.
Uma casa que atravessa décadas sem pedir reforma. Uma casa onde sempre há uma luz acesa. E onde, não importa quanto tempo passe, a porta continua aberta. Escancarada…