A guerra não tem rosto de mulher
Natal, RN 17 de jul 2024

A guerra não tem rosto de mulher

5 de março de 2022
4min
A guerra não tem rosto de mulher

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Bombardeados por informações vindas diretamente do front de batalha, somos atingidos e afetados de diferentes formas pelos conflitos vividos no Leste Europeu. Tão longe e tão perto, na palma da mão recebemos vídeos de bombardeios, mísseis e tanques de guerra, invasões a cidades ucranianas pelos inimigos históricos russos antes mesmo que tornem-se notícias nos grandes jornais. Ao lançarmos um olhar sobre as imagens que nos chegam nas diferentes mídias, não é difícil de concluir: a guerra não tem rosto de mulher.

Esta reflexão não é originalmente minha, mas da jornalista ucraniana Svetlana Aleksiévitch que reescreveu a história da II Guerra Mundial a partir das histórias de vida de mulheres que atuaram no front de batalha. Sua obra, publicada em russo em 1980, só foi traduzida para português em 2016. Aqui no Brasil, demoramos 36 anos para ler e pensar sobre o papel feminino e o silenciamento das mulheres na maior guerra mundial. E na iminência da III Guerra Mundial protagonizada pelos mesmos atores e motivos da II Guerra, emanam questões também antigas como o racismo, xenofobia, machismo e misoginia duramente combatidos ao longo das últimas décadas.

A II Guerra Mundial ceifou a vida de aproximadamente 47 milhões de pessoas. Dentre elas, 13 milhões eram crianças. O saldo negativo deste conflito catastrófico foi a divisão do planeta terra em dois grupos: os detentores de armamento nuclear e os não detentores de armas de destruição em massa. Apesar do elevado número de vítimas diretas e indiretas, pouco se sabe sobre a importância ou papel das mulheres no maior conflito bélico do mundo. O pouco que se sabe, são relatos de vítimas, onde citamos o famoso diário da jovem Anne Frank, que sobreviveu com sua família em um anexo no sótão do escritório do seu pai até serem encontrados e levados aos campos de concentração nazistas. Anne e sua irmã foram levadas para o campo Bergen-Belsen, onde quase não havia comida, aquecimento o que favoreceu que adoecessem de febre tifóide. Em fevereiro de 1945, ambas morrem nas véspera do fim da guerra.

Na batalha mais drástica deste século, a Rússia (antiga União Soviética) invadiu sua vizinha a Ucrânia sob o argumento de combater o neonazismo e o alinhamento com a Organização do Atlântico Norte – OTAN, criada para proteger o mundo da ameaça comunista. São muitos os outros motivos, mas as notícias que nos chegam são sempre sustentadas por interlocutores masculinos. Resta-nos pensar como seria a guerra protagonizada por mulheres? Onde elas estão? Sempre fugindo? Carregando seus filhos? Lamentando a perda de suas casas e o fim da sua rotina?

Na obra da jornalista Svetlana Aleksiévitch, descobrimos que as mulheres desempenharam importantes papéis de comando e de logística. Atuaram no front de batalha do exército soviético, no exército alemão, na saúde, na engenharia, na alimentação de soldados e na assistência social de diferentes formas.

“Me casei rapidamente. Um ano depois [da guerra]. Queria uma casa e uma família. Que a casa cheirasse a crianças pequenas. As primeiras fraldas eu cheirei, cheirei, não me cansava nunca. Cheiro de felicidade. Felicidade de mulher. Na guerra, não há cheiros femininos, são todos masculinos. A guerra tem cheiro de homem”.

[Depoimento de Kládvia S-VA, francoatiradora] (ALEKSIÉVITCH, 2016a, p. 305).

Na guerra entre Rússia e Ucrânia, resta-nos enfrentar o fantasma do silenciamento das mulheres. Nas transmissões, devemos deixar o papel de refugiadas, frágeis, resilientes e percebê-las como guerreiras, fortes e protagonistas. As mulheres são parte importante da guerra, se apresentando às forças de resistência para lutar contra a invasão russa. Enquanto muitas levam filhos, pais e animais para fugir dos ataques do inimigo, outras fazem treinamento militar. Mostram que não são frágeis. Muitas delas carregam seus filhos, mas outras portam fuzis AK-74. Muitas delas também estão na ONU e nas frentes diplomáticas negociando a paz. Mas o machismo nos impede de vê-las.

Como seriam as guerras se elas tivessem os rostos das mulheres?

ALEKSIÉVITCH, Svetlana. A guerra não tem rosto de mulher. 9. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

FRANK, A. O diário de Anne Frank. Edição integral. Rio de Janeiro: Ed. Record. 2000.

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