Lançamento de obra sobre Manoel Lisboa na UFRN debate luta por justiça
Natal, RN 14 de jun 2026

Lançamento de obra sobre Manoel Lisboa na UFRN debate luta por justiça

28 de outubro de 2025
6min
Lançamento de obra sobre Manoel Lisboa na UFRN debate luta por justiça
Foto: Ana Beatriz Sá

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As cadeiras do auditório da Universidade Federal do Rio Grande do Norte foram ocupadas por estudantes, militantes e familiares de perseguidos políticos que, mais do que assistir a um lançamento literário, participaram de um ato de afirmação histórica. A 3ª edição do livro A vida e a luta do comunista Manoel Lisboa foi apresentada no último dia 24 de outubro, em um encontro que transformou memória em convocação política.

A mesa foi composta por Edval Nunes Cajá, dirigente do Centro Cultural Manoel Lisboa e um dos organizadores da obra; Jana Sá, jornalista e presidenta da Comissão de Memória, Verdade e Justiça do Rio Grande do Norte; e o juiz e escritor Jessé Alexandria. A mediação foi feita por Samara Martins, vice-presidenta nacional da Unidade Popular.

“Operação Condor completa 50 anos e segue impune”, afirmou Cajá ao iniciar sua fala. Ele relembrou que a articulação entre regimes militares da América do Sul foi responsável por prisões, torturas e desaparecimentos. “Não nos calamos ontem e não nos calaremos hoje. Nossa luta só se encerra quando o último responsável pelos crimes da ditadura for responsabilizado.”

Edval Nunes Cajá, dirigente do Centro Cultural Manoel Lisboa e um dos organizadores da obra | Foto: Ana Beatriz Sá

A publicação reúne relatos, documentos e testemunhos sobre Manoel Lisboa, fundador do Partido Comunista Revolucionário (PCR), preso, torturado e assassinado em 1973. Para os debatedores, revisitar sua trajetória é um modo de enfrentar as disputas atuais sobre a história e o futuro do país.

Jana Sá destacou que o lançamento ocorre em um momento de reorganização da extrema direita e de reabilitação pública de discursos autoritários. “Estar aqui não é apenas um gesto de memória. É um ato de posicionamento político diante da história”, afirmou. Segundo ela, a lembrança de Manoel Lisboa ultrapassa a dimensão biográfica. “Ele não foi vítima de um excesso, foi alvo de um projeto de Estado. Quando defendemos memória, verdade e justiça, estamos disputando o presente e afirmando que não haverá democracia sem enfrentar o legado da ditadura.”

Jana Sá, jornalista e presidenta da Comissão de Memória, Verdade e Justiça do Rio Grande do Norte | Foto: Ana Beatriz Sá

A jornalista enfatizou que o livro é também um instrumento de formação política, especialmente para os jovens. “A juventude brasileira enfrenta hoje novas formas de fascismo. Resgatar Manoel é afirmar que a liberdade nunca foi concedida, foi conquistada com resistência.”

Em sua intervenção, Jessé Alexandria questionou a ausência de responsabilização pelos crimes cometidos durante a ditadura militar. “É vergonhoso para um país que se diz democrático não ter julgado os torturadores”, disse. Para ele, a Lei de Anistia foi interpretada de forma a impedir a punição dos agentes do Estado, contrariando princípios internacionais. “A tortura é crime imprescritível. É hora de o Supremo Tribunal Federal rever esse entendimento e permitir que os responsáveis sejam julgados.”

O juiz afirmou ainda que o lançamento da nova edição do livro deve ser entendido como parte de uma agenda de luta política mais ampla. “Que este momento marque o início de uma nova etapa, com mais determinação na busca por verdade, memória e justiça.”

O juiz e escritor Jessé Alexandria | Foto: Ana Beatriz Sá

Encerrando o evento, os participantes reforçaram que o livro não é apenas uma homenagem ao passado, mas uma ferramenta para compreender os desafios atuais da democracia brasileira. Para Cajá, a memória de Manoel Lisboa é um exemplo de coerência e compromisso com o povo. “Eles nos chamam de revanchistas, mas o que exigimos é justiça. Não queremos vingança. Queremos que os crimes contra a humanidade sejam julgados, como determina a lei.”

Quem foi Manoel Lisboa

Nascido em Alagoas, Manoel Lisbôa de Moura iniciou sua militância ainda estudante secundarista, no Colégio Liceu Alagoano, participando ativamente da União Estadual dos Estudantes Secundaristas (UESA). Posteriormente ingressou no curso de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), onde ajudou a criar o Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), articulando arte e política em defesa das liberdades democráticas.

Atuou na Juventude Comunista de Alagoas, passando pelo PCB e pelo PCdoB, até fundar o Partido Comunista Revolucionário (PCR), organização que defendia a luta contra a ditadura militar instalada em 1964. A repressão se abateu sobre ele ainda naquele ano, levando-o à clandestinidade. Viveu em Recife e no Rio de Janeiro, foi expulso da universidade e teve seus direitos políticos cassados. Em 1965, após se entregar à polícia, foi preso por 45 dias e torturado. Condenado pela Justiça Militar no ano seguinte, voltou à clandestinidade, adotando diversos codinomes – Mário, Miguel, Galego e Celso – para continuar a militância.

Manoel tornou-se editor do jornal A Luta, voltado à denúncia das violações cometidas pelo regime. Preso novamente em 1973, foi levado ao DOI-CODI e submetido a tortura. Morreu em 4 de setembro daquele ano, aos 26 anos, ao lado de Emmanuel Bezerra dos Santos, também militante do PCR. Documentos oficiais tentaram sustentar que ambos foram mortos em confronto, mas registros posteriores do próprio aparato repressivo, bem como testemunhos de sobreviventes, comprovam que foram presos, torturados e assassinados sob custódia do Estado. Os dois foram enterrados como indigentes no Cemitério de Campo Grande, em São Paulo.

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