Música e Memória: projeto resgata resistência à ditadura civil-militar
Natal, RN 24 de fev 2024

Música e Memória: projeto resgata resistência à ditadura civil-militar

25 de novembro de 2023
5min
Música e Memória: projeto resgata resistência à ditadura civil-militar

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Filho desse nosso tempo em que segmentos sociais e políticos não tiveram, nem têm, vergonha em defenderem e tentarem estabelecer uma ditadura militar no país, nos moldes daquela que vigorou entre 1964 e 1985”. É assim que o professor Alessandro Augusto de Azevêdo, do Centro de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), explica como surgiu a ideia o projeto de extensão coordenado por ele: "Memória, Música e Educação de Resistência pela Democracia

Na próxima segunda-feira (27), o Grupo Netinho de Adelaide & Os Inimigos do 8/1, por meio da música fazem o resgate da história de Zoé Lucas de Brito e lembra os 50 anos do seu assassinato pelo regime civil-militar no Brasil. A apresentação do grupo ocorre no auditório da Biblioteca Central Zila Mamede, a partir das 18h30. Além de Alessandro, que faz voz e violão, o Grupo tem como componentes, os professores do IFRN, Artemilson Lima (voz e violão) e Danúbio Gomes (flauta e percussão), além dos Pablo Brito (violoncelo) e Luiz Cysneiras (viola de arco), da UFRN.

Como o seu nome indica, o projeto se ocupa em fazer o anúncio da democracia e a denúncia das ditaduras por meio da memória e da música. No projeto, ambas são consideradas armas pedagógicas potentes para se abrir esse diálogo. E os locais prioritários para a realização desses diálogos são as escolas, onde adolescentes, jovens e adultos passam boa parte do seu tempo, porém sem terem a oportunidade de dialogarem sobre essas questões porque, muitas vezes, o currículo não as aprofunda”, explica o professor Alessandro.

Com a metodologia das aulas-espetáculos, o grupo destaca músicas proibidas pela censura, proporcionando diálogo em escolas e diversos espaços sobre a importância da democracia na convivência civilizada. Desde abril, o grupo tem se apresentado em escolas e eventos, priorizando a educação básica e firmando parcerias, incluindo uma com o professor João Maria Fraga, autor de um livro sobre a censura na produção musical durante o regime.

Para isso, são apresentados os contextos históricos e as circunstâncias sob as quais os compositores e compositoras se encontravam quando criaram aquelas peças musicais; o porquê de algumas de suas opções estéticas; e o significado que aquelas músicas tiveram naquela época (e ainda têm em alguma medida)”, esclarece Alessandro.

Segundo o professor, as apresentações nas escolas são realizadas mediante convites e “é dado preferência àqueles convites em que a aula-espetáculo esteja articulada a atividades já desenvolvidas na escola sobre o tema da ditadura e da democracia. Para isso, basta apenas o contato conosco, via email ([email protected]) ou pelo instagram (@inimigosdo8.1)”.

O nome do grupo, Netinho de Adelaide & Os Inimigos do 8/1, é uma fusão de significados. O professor Alessandro explica que, primeiramente, representa uma posição contrária ao 8 de janeiro, marcado por um atentado à democracia. Em um segundo plano, a origem remonta à resistência de Chico Buarque à ditadura militar. Diante da censura, Chico criou o heterônimo "Julinho de Adelaide" para aprovar suas composições. Netinho de Adelaide surge como um parente fictício desse heterônimo, um símbolo de resistência contra a opressão, conectando-se à rica tradição de enfrentamento à censura artística no Brasil.

Zoé Lucas de Brito

Zoé Nasceu no dia 17 de agosto de 1944 no município de São João do Sabugi, Rio Grande do Norte, filho de Zoe Lucas de Brito e Maria Celeste de Brito.

Fez o curso primário no Grupo Escolar Senador José Bernardo em São João do Sabugi, cidade em que morou até 1958. Em 1959 transfere-se para Caicó, onde conclui o curso ginasial no Ginásio Diocesano Seridoense em 1962. O segundo grau, Zoé completou na cidade de Recife-PE, tendo posteriormente prestado exame vestibular, ingressando no curso de Geografia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Participou do movimento estudantil na capital pernambucana no período. Inicialmente foi militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e a partir de dezembro de 1969, da Ação Libertadora Nacional, condição na qual foi preso em 31 de março de 1970 pela repressão política. Permaneceu preso durante sete meses, percorrendo diversas prisões: Segunda Companhia de Guarda, Forte de Cinco Pontas e Casa de Detenção do Recife. Antes de ser preso, Zoé era professor de Geografia, exercendo a profissão em escola particular. Depois de libertado, ficou alguns meses em Recife, mas diante do cerco e das ameaças policiais, Zoé viaja para São Paulo. Nesta cidade passou a trabalhar como corretor de imóveis.

Seu corpo foi encontrado sobre trilhos da Estação de Trem Ipiranga-São Paulo, em 28 de junho de 1973. As circunstâncias de sua morte continuam sem esclarecimentos; a testemunha que comunicou ao seu irmão o falecimento de Zoé não se identificou.

Seus familiares ainda buscam elementos de prova com o objetivo de obter o reconhecimento da responsabilidade da União pelo assassinato de Zoé Lucas de Brito Filho.

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