Vizinhança
Natal, RN 21 de abr 2024

Vizinhança

4 de março de 2024
6min
Vizinhança
Foto: Lucca Medeiros

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Eu tenho um vizinho no lado esquerdo de quem sai da minha casa, que só está lá durante o dia. À noite, some, mas durante todo santo dia, está lá, sem faltar nenhum. Fica sentado num tamborete, diante de um painel que montou com arames na parede do mercadinho da esquina. Lá, ele pendura sua mercadoria: CD’s pirateados e genéricos de DVD’s de filmes, numa variedade enorme de blockbusters. Ele tem uma cara de alguém que bebe muito todo tipo de bebida alcoólica, já está com o olho inchado,  aquela cara de papudinho, mas me disseram que não tem nada disso; é só a cara dele que é assim mesmo. Devido à natureza informal da sua atividade, vou chamar esse meu vizinho de Deda.

Pois bem. Hoje pela manhã, ao sair da minha garagem dirigindo meu carro, vi que Deda estava arrumando seus CD’s e DVD’s, mas parou  para me cumprimentar. Ele  sempre faz isso, me diz bom dia e me deseja, com um gesto, que meu dia seja produtivo como provavelmente as suas vendas de CD’s e DVD’s piratas serão. Não faltam clientes para Deda, incluindo os moradores da minha rua, os clientes do açougue, da padaria e até os transeuntes, que param suas caminhadas ou seus carros para olhar a vitrine pendurada na parede. Deda é um vendedor prestativo, mas quando me vê manobrando meu carro, muitas vezes  quer me ajudar a estacionar fazendo gestos inúteis que eu não vejo ou que, mesmo vendo, não me servem para nada. Ou até me atrapalham. Ah, mas eu sei que ele se sente útil fazendo isso. A utilidade é o de menos: suas maneiras o tempo inteiro fazem, de Deda, muito bom vizinho, mesmo que sua loja seja um pequeno pedaço daquela calçada de esquina.

Já do meu lado direito, tenho uma vizinha que vende cadeiras recobertas com uma trama de fibras como se fossem vime, palha, bambu. Que nada, são realmente é de plástico. Ela me vendeu uma cabeceira de cama e uma cortina também de plástico, pelas quais  paguei a metade do valor adiantado. Paguei, mas não recebi, ela nem sempre entrega o que promete. Eu até tomei posse da cortina, a parte mais barata da compra, mas da cabeceira, jamais vi nem a sombra. A essa vizinha, que já se notabiliza um pouco na vizinhança pelos calotes, vou chamar de Salete. Os calotes são sempre com ela embolsando o adiantamento da metade ou o total do valor da encomenda. Ela diz que é para comprar o material do móvel a ser confeccionado em sua minifábrica artesanal, que funciona ali, na casa alugada onde ela também mora. Quando atrasa ou mesmo não entrega todo o prometido, ela sempre dá alguma desculpa acompanhada de muita simpatia.  Ela é, de verdade, uma pessoa muito agradável.

Talvez o que explique Salete quase nunca entregar sua mercadoria completa aos clientes seja o fato de que ela está constantemente interagindo com as pessoas da rua. Por exemplo, ela sabe quando eu estou de carro e quando eu estou sem carro. Ela sempre pergunta: "Está sem carro hoje?”; “O que houve, que você ficou sem carro tantos dias?”;  "Não tem mais carro? Vendeu?”. Agora estou com meu carro, que voltou da oficina. Na hora em que eu estava saindo da garagem, hoje pela manhã, Salete arrumava suas cadeiras de plástico na calçada bem pertinho do meu portão. Por isso, viu que eu estava saindo e, com um largo sorriso naquela cara tão sorridente sempre, acenou com a mão e, com esse aceno, estava me dizendo "tenha um bom dia”, assim como Deda fez. Eu, que estava dirigindo, me virei para o lado esquerdo e acenei para Deda; me virei para o lado direito e acenei para Salete. Quase uma princesa britânica acenando para as multidões ao passar, não fosse eu sem fortuna ou títulos  nobiliárquicos, sem parentes ilustres e sem palácios.

Nunca comprei um CD ou um DVD a Deda; nunca prestei queixa contra Salete, mesmo amargando certo prejuízo. Acho que a vida deles já é dura demais, incerta demais e não serei eu a cobrar lisura de gente que mal sabe ler e escrever e se vira assim mesmo. Deda e Salete sobrevivem trabalhando, ainda que seu trabalho seja informal ou roçando a ilegalidade. Nem todo ilegal é ilegítimo, as sentenças dos juízes que consideram as atenuantes estão aí para provar isso. Tenho uma melhor situação financeira que os dois, mas sou igualmente plebéia, uma condição compartilhada com a minha vizinhança inteira.

Já morei em muitos lugares, mas só uma vez numa rua como esta, curta e com uma vila transversal, cheia de casas minúsculas enfileiradas. Ruas têm alma, algumas enormes; outras são importantíssimas no plano urbanístico, mas de alma bem pequena. Nessa rua, que abriga a loja imponderável de Deda e a minifábrica inconfiável de Salete, tem muita gente admirável. Como Berg, que abastece todo mundo com água, gás e empatia, pedalando o dia inteiro sem parar para fazer suas entregas de porta em porta. Seu negócio se expandiu junto com suas panturrilhas e hoje ele já é dono de uma pequena empresa e pilota uma moto. É uma história extraordinária, assim como a do pintor Israel, que cria padrões fantásticos nas paredes, ou a do eletricista Osvaldo, que conserta tudo e mais alguma coisa. Todos valem o escrito e, ainda mais, o que está por se escrever.

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Josimey Costa é escritora, poeta, pesquisadora. Docente do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia/UFRN. Pesquisadora do Marginália - Grupo de Estudos e Pesquisas em Comunicação e Cultura. Membro do Conselho Estadual de Cultura/RN. Mãe de dois filhos. Publicou 5 livros autorais e 3 em co-autoria. Tem artigos ensaísticos, crônicas, contos e poemas publicados em coletâneas diversas.


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