Movimento Vida Além do Trabalho busca ganhar forma no RN
E se você conseguisse ter uma jornada de trabalho menor? Se houvesse mais tempo destinado ao lazer, à família, ao descanso? Essa é parte das propostas do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que defende o fim da escala 6×1 — aquela em que se trabalha seis dias por semana e descansa um.
No Rio Grande do Norte, a iniciativa nacional começa a dar os primeiros passos. No feriado do 1º de maio, por exemplo, um grupo fez uma panfletagem. A estudante de História Fernanda Pinheiro trabalhou por menos de um ano na escala 6×1 em uma empresa de telemarketing, e lembra dos dias frenético em que conciliava o trabalho com a faculdade.
“Devido à pressa, adquiri gastrite e problema de refluxo também; na escala 6×1 só temos 20 minutos de pausa para almoço, por exemplo”, recorda.
Ela diz que já conhece o VAT mas defende que a proposta deveria ser ainda além: em defesa da escala 4×3.
“Isso porque também não morro de amores pela escala 5×2. Pra quem estuda e trabalha ainda é cansativo, a parte boa é que podemos contar com dois dias livres, mas a rotina permanece frenética em dia de trabalho”, diz ela.
“Isso levando em consideração apenas as minhas necessidades. Para quem tem filhos, por exemplo, imagino que o cerco seja mais fechado ainda”, acredita Fernanda.
Professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRN com estudos na área da sociologia do trabalho, Cesar Sanson aponta que a reivindicação pelo fim da escala 6×1 não somente faz sentido, como é necessária.
“A luta pela redução da jornada de trabalho começou com a Revolução Industrial quando era comum trabalhar até quinze horas por dia, incluindo trabalho infantil. Ao longo dos dois últimos séculos se chegou a um patamar que se considera civilizado de uma jornada de 8h diárias. O problema, entretanto, não reside apenas na quantidade das horas diárias trabalhadas, mas também na quantidade de dias na semana”, explica.
“O movimento Vida Além do Trabalho (VAT) afirma que o fato de uma pessoa ter que se doar para a empresa seis dias na semana e folgar apenas um dia, e ganhar um salário-mínimo, é uma espécie de escravidão”, complementa o professor.
Sanson diz que essas pessoas praticamente passam mais tempo nos locais de trabalho do que em suas residências com suas famílias ou amigos, isso sem considerar o tempo de deslocamento.
“Portanto, trata-se de uma reivindicação que é universal: o direito a ampliação ao tempo livre para fruição de atividades como o lazer, a família, os amigos, a cultura. Escutar uma música, ler um livro, assistir um filme, passear ou se encontrar com a família ou amigos exige tempo livre e isso se torna impossível trabalhando-se seis dias por semana. Há inclusive experiências e pesquisas que revelam que as pessoas não perdem a produtividade trabalhando apenas 04 dias por semana, ou seja, a produtividade não está necessariamente vinculada a quantidade de horas ou dias trabalhados. Trabalhando-se menos se produz o mesmo e ainda se cria mais postos de trabalho”, defende.
Para o docente, há uma rejeição crescente e forte ao modo como o trabalho ocupa nossas vidas hoje:
“Principalmente ao trabalho padronizado, aquele em que a pessoa tem que ficar 08 horas trabalhando num mesmo local e muitas vezes subordinado a um supervisor ou patrão autoritário”.
Segundo ele, movimentos que questionam jornadas padronizadas de trabalho associadas à subordinação vêm crescendo em todo o mundo.
“Uma dessas manifestações foi o movimento conhecido como “Grande Renúncia” em que 4,3 milhões de americanos pediram demissão de seus empregos no pós-pandemia. Há uma tendência — que as pesquisas vêm confirmando — de que particularmente os jovens não veem sentido em ficar seis dias por semana trabalhando oito horas por dia. A sensação é da vida se esvaindo em detrimento ao tempo de lazer, convivência com amigos e família”, aponta.