A vida de quem trabalha com arte no Rio Grande do Norte
Natal, RN 21 de jun 2024

A vida de quem trabalha com arte no Rio Grande do Norte

2 de junho de 2024
9min
A vida de quem trabalha com arte no Rio Grande do Norte
Foto: Dunga

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O desafio de sobreviver da arte é enfrentado por vários artistas. Apesar do talento e da competência, fazedores de arte estão, muitas vezes, expostos à instabilidade, acúmulo de funções e dificuldades financeiras, além de precisarem enfrentar escassez de políticas pensadas para essa temática. No Rio Grande do Norte, essa é uma realidade muito frequente, ainda mais levando em consideração que o estado potiguar ainda não possui uma Secretaria de Cultura. Pensando nesse cenário, a Agência Saiba Mais conversou com dois artistas para entender como é trabalhar com arte no RN.

A artista e produtora Catarina Santos é fundadora e articuladora do Ateliê Santa Catarina, que funciona no bairro do Alecrim, Zona Leste de Natal e trabalha com pesquisa e produção cultural.

“O meu trabalho envolve diversas áreas e segmentos da cultura, exatamente o que a gente chama de multiartista. São artistas que trabalham com poesia visual; com arte postal; colecionistas; artistas urbanos que trabalham com lambe-lambe – uma arte de denúncia, que é a arte que eu mais venho trabalhando ultimamente, junto com a poesia e a experimentação do que isso seria para uma contação de história e para outros ambientes em que a arte deve se perpetuar”, conta.

Além de artista e produtora cultural, Catarina também é estudante de Pedagogia. Nesse sentido, ela entende que a arte é importante desde os primeiros anos de vida e, também por isso, deve ser vista como um serviço prioritário na sociedade.

“O meu trabalho também é observar o desenvolvimento das crianças e a arte é muito necessária para o desenvolvimento cognitivo e subjetivo das crianças na sociedade. Então o não investimento para uma cultura dentro de um estado se torna tão grave quanto você não reconhecer a verba necessária para recursos básicos como saúde como educação, como outros serviços que a gente tem primordiais”, defende.

A artista ressalta que, mesmo sendo cis e mulher branca, estando em posição de privilégio em relação a outros grupos fazedores de arte, ainda assim encontra dificuldades no meio artístico.

“Mesmo neste lugar que eu estou, no que poderíamos dizer que há uma pirâmide social, eu encontro dificuldades para manutenção, manuseio, circulação e para incubadora das minhas obras.”

A dificuldade que Catarina ressalta é principalmente a financeira, tão enfrentada pelos artistas.

“Esses gastos não são gastos que não convém a sociedade. Pelo contrário: são gastos extremamente necessários para essa arte contemporânea, de artistas novos que estão surgindo, principalmente das áreas periféricas e negras, para que tenhamos uma economia mais criativa, ecologia da cultura”, argumenta.

Mas, como as políticas públicas não parecem levar em consideração o que artistas como Catarina defendem, ela – e demais fazedores da arte –, precisam lidar com a instabilidade e o acúmulo de funções. 

“A instabilidade financeira é presente na vida de quem trabalha com arte. Mesmo que não seja muito cabível usar esse termo, mas é uma coisa muito generalizada, porque os artistas não têm CLT. Os nossos direitos trabalhistas não são garantidos. Artista não tira férias, artista trabalha no domingo. No meu ateliê, por exemplo, eu trabalho sozinha em todas as funções: divulgação, elaboração de projeto, elaboração de logo… você acaba sendo designer, comunicadora, artista, e ao mesmo tempo em que você está buscando realizar a curadoria”, relata.

A artista reclama que não vai conseguir expor.

“Simplesmente não dá pra você cumprir uma agenda de um festival ao mesmo tempo que você está cumprindo uma agenda para criação de obra, porque são processos diferentes. Um artista visual tem um processo de incubadora que é extremamente necessário, que é se debruçar sobre tela”, conta.

Outro artista que passa por uma realidade semelhante à de Catarina é Martim. Natural de São Paulo, ele mora na Grande Natal há 15 anos, e começou a pintar nas ruas aos 10 anos de idade. O multiartista trabalha com ênfase na arte urbana (graffiti-pixo-mural) e realiza ainda trabalhos como tatuador, arte educador, designer, ilustrador, produtor cultural, escultor e videoarte.

Ele conta que ser artista no estado potiguar é um desafio e que se sente, muitas vezes, um descaso com o seu trabalho, principalmente enquanto artista visual e urbano.

“Ser artista no RN é sem dúvida um desafio, tendo a visão que precisamos de uma Secretaria de Cultura para um maior fomento e desenvolvimento, mas não temos. Além de termos equipamentos largados, como a própria pinacoteca. Em uma visão municipal, também com pouco fomento. Eu mesmo estou há seis meses esperando receber de um edital de arte urbana”, relata o multiartista.

Ele compara a situação com a dos estados vizinhos, que ele vê como mais interessados em fomentar a arte.

“Comparo às vezes com amigos que moram em Recife, que tem um maior fomento, e amigos que moram em Fortaleza. Ambos os lugares têm uma visão maior e melhor para os artistas. Infelizmente sinto que estamos longe, com uma cultura muito conservadora”, lamenta.

Em relação à falta de reconhecimento dos fazedores de arte e cultura, Martim acredita que vem “de uma visão arcaica preconceituosa e conservadora, quem não vê a cultura como desenvolvimento econômico, social, e que pode desenvolver grandiosamente a sociedade como um todo”.

Êxodo cultural

Todo esse cenário traz um êxodo cultural. Por exemplo: quando artistas saem de suas cidades para produzir arte em um lugar com mais incentivos.

“É muito importante lembrar que muitos artistas hoje em dia largam os seus ofícios e acabam tendo que migrar: ou de estado, ou de município mesmo. E já tivemos diversos artistas que tiveram que ir embora do país, inclusive na época que tivemos uma grande perda do Ministério da Cultura”, narra. “Eu considero isso um êxodo cultural de artistas: ou eles migram de segmentos – por exemplo, ‘não sei fazer cinema, mas terei que ir para o audiovisual, porque é dali que está saindo verbas do governo’ – ou temos mesmo o êxodo territorial, quando artistas saem daqui porque já não cabe as suas demandas ou subjetividades artísticas.”

Martim também observa essa realidade.

“Os artistas visuais passam fome de fato. Alguns tendo até mesmo que procurar emprego fora da sua profissão. Precisamos de mais fomento, mais editais, locais para ocuparmos e conseguirmos ser valorizados como peça chave de fomento e desenvolvimento econômico cultural”, defende o artista.

As principais consequências dessa desvalorização da arte, de acordo com o artista, são a “fome, pobreza intelectual, emocional, artistas mudando de profissão ou até largando a cidade para conseguir se manter na profissão”.

Possíveis alternativas

Para Martim, possíveis caminhos para a arte ser mais valorizada no RN seriam os investimentos de políticas públicas e a criação de uma secretaria de cultura estadual. Além de eventos realizados para cada tipo de arte, pagando mesmo os cachês devidos, feiras de arte, bienais, dar voz aos artistas que temos: jovens, atuais e os antigos, ou seja, todos.

Catarina chama atenção para a mobilização sindical dos artistas do Rio Grande do Norte que, na visão dela, deveria ser maior. Ela menciona, ainda, a dificuldade que artistas potiguares têm de retirarem seus certificados de, por exemplo, atores ou atrizes, precisando ir a outros estados.

Atualmente, o RN possui o Sindicato dos Artistas, Técnicos em Espetáculos e Diversões do Rio Grande do Norte (SATED/RN).

Secretaria de Cultura do RN

O Projeto de Lei complementar, de iniciativa do governo do estado, que cria a Secretaria de Estado da Cultura no RN (Secult) foi rejeitado pela Comissão de Finanças e Fiscalização (CFF) no último dia 15, na Assembleia Legislativa do RN (ALRN). A proposta foi rejeitada sob o argumento de desobediência à Lei de Responsabilidade Fiscal.

O PL voltou à pauta da CFF após um pedido de vistas do deputado Francisco do PT, que argumentou que o projeto, em tramitação desde novembro de 2023, não implicava em novas despesas. Depois de amplo debate, a rejeição venceu por maioria de quatro votos a três, em favor do parecer do relator, deputado estadual Luiz Eduardo (SDD). Votaram a favor do parecer os deputados Coronel Azevedo (PL), José Dias (PSDB) e Tomba Farias (PSDB). Já os votos contrários foram de Francisco do PT, Neilton Diógenes (PP) e Dr. Bernardo (PSDB).

A decisão dos deputados estaduais desagradou os profissionais da arte do RN.

“Somos um dos únicos estados brasileiros ainda sem uma Secretaria de Cultura”, relembra Catarina Santos. “A realização, fundamentação e concretização de uma Secretaria de Cultura do estado do Rio Grande do Norte faz parte de um plano nacional do MINC [Ministério da Cultura]. É um plano que vai poder viabilizar poderes, verbas, recursos financeiros e programas do governo federal. Então se você diz não a esse tipo de projeto que foi encaminhado pelo governo do estado, você está dizendo não à cultura e está dizendo que artistas que já não tem CLT morram de fome."

Ela ainda rebate as alegações de que a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) poderia, por exemplo, roubar a verbas que seriam destinadas a outras áreas, como a saúde, e defende que a Política seja discutida com a população.

Catarina ainda pede que artistas e pessoas interessadas em defender a arte estejam atentas para quando o projeto da criação da Secult for anunciada em sessão plenária, para que a população possa se fazer presente e pressionar em defesa da arte e da cultura.

"A gente tem um chamado plural de artistas, para que nós deixemos de ter apenas uma Secretaria Extraordinária de Cultura do RN, para ter, de fato, uma Secretaria de Cultura do RN."

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