Amnésia Climática
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Amnésia Climática

23 de junho de 2024
12min
Amnésia Climática

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A Organização Meteorológica Mundial, ligada à ONU, acaba de alertar para a continuidade do aumento da temperatura global, em que pese a influência do El Niño estar diminuindo.

 “No final de maio, mais de 1,5 bilhão de pessoas -- quase um quinto da população do planeta -- suportaram pelo menos um dia em que o índice de calor superou 103 graus Fahrenheit, ou 39,4 graus Celsius, o limite que o Serviço Nacional de Meteorologia considera fatal”, informou o Washington Post.

Kristie Ebi, epidemiologista do Centro de Saúde e Meio Ambiente Global da Universidade de Washington, coletou dados dos eventos de calor extremo que atingiram a Nigéria, Tailândia, Vietnã, índia, Angola e Paquistão. “Quando uma onda de calor chega, a mortalidade começa a aumentar após cerca de 24 horas, já que as pessoas incapazes de se refrescar à noite começam a perecer”.

Segundo Kristie, metade de todas as mortes relacionadas ao calor são causadas por problemas cardiovasculares. "O coração realmente não gosta de esquentar", disse.

Em Meca, na Arábia Saudita, a temperatura de verão atingiu 51,8 ºC durante a peregrinação anual muçulmana, o Hajj, o que ocasionou milhares de mortes e mais de 5.000 atendimentos por exaustão ao calor.

Na Líbia, a população está abandonando suas terras e gado na aldeia de Kabao, onde os campos eram “verdes e prósperos até o início do milênio e as pessoas gostavam de vir e caminhar até lá”, afirma M´hamed Maakaf, agricultor local. As oliveiras, figueiras e amendoeiras estão desaparecendo com o intenso calor e falta de chuvas.

O grupo World Weather Attribution (WWA) estudou o excesso de calor entre maio e começo de junho, quando uma onda de calor atingiu o sudoeste dos Estados Unidos, incluindo Califórnia, Nevada e Arizona. Algumas pessoas chegaram a morrer por causa das temperaturas extremas.

Estudos que fazem esse tipo de correlação demoram para serem concluídos, por isso é difícil para cientistas determinarem com exatidão o papel das mudanças climáticas na atual onda de calor — que vai do centro dos Estados Unidos até o nordeste do país e o Canadá.

Além disso, temperatura causou diversos incêndios florestais na Europa em 2022. Mais de 61 mil pessoas podem ter morrido durante as sufocantes ondas de calor da Europa no ano de 2022, de acordo com uma nova pesquisa, sugerindo que os esforços de preparação para o calor dos países estão falhando fatalmente.

Um estudo publicado na segunda-feira (10/06), na revista Nature Medicine, concluiu que países do Mediterrâneo – Grécia, Itália, Portugal e Espanha – tiveram a maior taxa de mortalidade de acordo com o tamanho da população.

O Brasil, além do desastre no Rio Grande do Sul, anunciou uma operação de guerra para enfrentar incêndios e seca que já atingem o Pantanal, o Cerrado e a Amazônia. Parece ironia, mas a maior planície alagável de água doce do mundo, o Pantanal brasileiro teve um aumento de 974% no número de queimadas só nos cinco primeiros meses deste ano, em comparação ao mesmo período de 2023.

 Os números foram divulgados pelo WWF-Brasil e revelam o temor de que o bioma fique sujeito novamente a uma tragédia como aquela que aconteceu em 2020, quando incêndios sem controle devastaram quase 30% de sua área e mataram 17 milhões de animais.

O tamanho da devastação causada pelo fogo no Pantanal alcançou um novo patamar alarmante. De janeiro até a terça-feira (11/06), 372 mil hectares foram atingidos por incêndios, área que supera a de duas cidades de São Paulo.

No cenário global, os relatos são assustadores. Segundo artigo de Harry Stevens, para o Washington Post, em abril, uma fábrica de munições explodiu devido ao calor extremo na Ásia, matando os trabalhadores; no México, macacos bugios caíram mortos de árvores em função do calor; e no Brasil, os impactos climáticos da intensa e concentrada precipitação de chuvas sobre o Rio Grande do Sul impactaram milhões de pessoas.

Na Grécia, as temperaturas têm passado dos 40ºC e causaram até ontem (20) a morte de 5 turistas e ainda tinha 3 pessoas desaparecidas. O calor pode ter impactos negativos em qualquer pessoa, mas os mais vulneráveis costumam ser idosos, crianças pequenas, grávidas e portadores de doenças pré-existentes e transtornos mentais.

À rede CNN, cientistas disseram que o que está acontecendo na Grécia é um sinal de alerta sobre os impactos do clima excessivamente quente no corpo, e em particular no cérebro, podendo causar confusão, afetando a capacidade de tomada de decisão das pessoas e até a sua percepção de risco.

“O calor extremo pode perturbar a atividade cerebral típica”, salientou Kim Meidenbauer, neurocientista da Universidade Estadual de Washington, dos Estados Unidos. “As redes cerebrais que normalmente permitem às pessoas pensar com clareza, raciocinar, lembrar e construir e formular ideias podem ficar ‘desequilibradas’”.

O conjunto desses eventos traz a constatação de que a tragédia climática, prevista pelos cientistas, não está mais no futuro, já chegou. Também sinaliza que não estamos preparados para enfrentar essa realidade e vamos ter que conviver, em nossas vidas, neste plano incerto para o qual não existe referencial histórico, mergulhados no que está se definindo como uma era de incerteza radical.

Cientistas coincidem que existe uma conexão entre o aumento da temperatura global e os impactos climáticos como ondas de calor, incêndios, tempestades e inundações. Essa constatação traz forte potencial de desestabilização emocional, mesmo para os que são iniciados na compreensão do problema climático.

De acordo com a climatologista mexicana Ruth Cerezo, a expectativa atual da pesquisadora é que o mundo atinja 3ºC até o final do século. Cerezo-Mota vai além: "Acho que 3ºC é cenário esperançoso e conservador; 1,5ºC já é ruim, mas acho que não tem como a gente se ater a isso. Não há nenhum sinal claro de nenhum governo de que realmente vamos ficar abaixo de 1,5ºC."

A desesperança de Cerezo-Mota é compartilhada por centenas de especialistas do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), que foram entrevistados pelo jornal britânico The Guardian. A grande maioria acredita que a temperatura chegará em + 2,5ºC ou + 3ºC e apenas 6% acreditam que a meta de 1,5ºC do Acordo de Paris será cumprida.

Uma das questões que tem abalado os cientistas é a incapacidade dos governos de ouvir a ciência apesar das evidências fornecidas, o que os deixa, segundo relatos da pesquisa do The Guardian, “desesperados, furiosos e assustados”.

O insucesso e suas causas ficam cada vez mais claros. 75% dos especialistas citam falta de vontade política e 60% culparam interesses econômicos como os da indústria de combustíveis fósseis. "A resposta do mundo até agora é condenável – vivemos em uma era de tolos," disse um cientista sul-africano, que preferiu não ser identificado.

Enquanto isso, os governos estão mergulhados cada vez mais em estado de amnésia climática. Esquecem os recentes eventos extremos e acordos iniciados que poderiam salvar milhões de vidas. Alimentam o aumento da extração e uso de combustíveis fósseis, como se não houvesse amanhã. 

Mesmo diante desses cenários incontroláveis, a inação dos governos para conter as mudanças climáticas está causando exasperação entre especialistas.

Terminou em Bonn, debaixo de forte frustração, a Conferência preparatória para a COP29, que ocorrerá em Baku, no Azerbaijão, em novembro próximo.

Os representantes governamentais parecem ter esquecido os compromissos que assumiram na COP28 de Dubai, no final de 2023, de promover a transição para longe dos combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás). “Os debates de Bonn deixaram muito pouco espaço para a questão de como sair dos fósseis”, lamenta Tom Evans, especialista da E3G. “Em seis meses, parece ter havido amnésia coletiva”.

A luta contra as mudanças climáticas está profundamente minada por questões financeiras. A conferência preparatória de Bonn transformou-se em jogo de empurra global. Ninguém quer pôr a mão no bolso.

Em outras palavras, as nações mais ricas estão profundamente mergulhadas em interesses domésticos que geram estado de multilateralismo pouco colaborativo – sem a intenção de abandonar seus interesses geopolíticos domésticos nas mesas de negociação.

A conferência de Bonn de 2024 se caracterizou como uma nau dos esquecidos, repleta de “amnésia coletiva” ou cegueira seletiva, em um planeta que registra contínua piora de eventos extremos.

Além das evidentes dificuldades políticas, é preciso enfrentar o negacionismo climático e seus interesses corporativos. A começar pelo questionamento sobre o compromisso e isenção na condução das cúpulas climáticas, como ocorrerá agora no Azerbaijão, que segue a rota de sucessivas sedes em petroestados, como Egito e Emirados Árabes Unidos.

Callum Hood, chefe de pesquisas do Centro de Combate ao Ódio Digital, disse que à medida que eventos climáticos severos se tornam mais frequentes, “negacionistas do clima estão se esforçando mais para afirmar que esses extremos não têm nada a ver com a mudança climática”.

Segundo Hood, conforme mais alterações são registradas nas estações e nos ecossistemas, “um argumento ligeiramente mais conspiratório e mais novo” vai superando narrativas mais antigas que simplesmente negam o aquecimento da Terra.

Lincoln Muniz Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), apontou que a disseminação de falsas narrativas não só obstrui a comunicação eficaz durante crises ambientais, mas também “reforça as visões daqueles que negam a realidade da mudança climática”.

Os especialistas também estão preocupados com uma erosão da liderança climática da União Europeia, onde o parlamento europeu retroagiu em sua composição, apresentando perdas significativas de representações mais progressistas. Some-se a isso as expectativas das eleições britânicas em julho e as americanas em novembro.

A população global começa a sofrer de perda de qualidade de vida com a percepção desta nova era de instabilidade. O termo ecoansiedade há anos está nos consultórios e em pauta na Sociedade Americana de Psiquiatria.

Em matéria sobre clima e saúde mental, a revista Nature já apontava, em 2021, que, “em pesquisa com 10.000 pessoas de 16 a 25 anos em 10 países, quase 60% dos entrevistados estavam altamente preocupados com as mudanças climáticas, e mais de 45% disseram que seus sentimentos sobre as mudanças climáticas afetaram suas vidas diárias, como sua capacidade de trabalhar ou dormir”.

Recentemente foi registrada que a ecoansiedade vem atingindo os cientistas climáticos ao redor do mundo, conforme revela uma série de entrevistas conduzidas pelo jornal britânico The Guardian. A mesma frustração que atinge os cientistas vem atingindo os observadores das conferências climáticas.

Matthew Huber, especialista em paleoclimatologia da Purdue University, após a onda de calor extremo de 2023, afirmou: “Enfrentamos isso como cientistas há décadas, mas agora o mundo está passando pelo mesmo processo, que é como os cinco estágios do luto”, disse ele. "É doloroso ver as pessoas passarem por isso".

O processo demonstra que a profunda desconexão que o planeta enfrenta é a mesma desconexão da sociedade, com evidente falta de meios para superar a crise gerada pela própria espécie humana.

Os prognósticos deste momento atual têm raízes em alertas feitos há quase 40 anos por James Hansen (Nasa), que em 1988 testemunhou ao Congresso dos Estados Unidos, seguido por Mikhail Gorbachev, perante a Assembleia Geral da ONU e, finalmente, com a ficção da vida real da Verdade Inconveniente de Al Gore, em 2006.

Segundo a Revista Pesquisa FAPESP, variações de temperaturas podem provocar 5 milhões de mortes por ano, número que equivale a 9,5% de todos os óbitos globais, e 75% das vítimas fatais devido a questões de temperaturas moram na Ásia ou África.

Será preciso um esforço gigantesco para promover uma transição civilizatória, para longe dos combustíveis fósseis e do modo de vida insustentável. Sobretudo, será preciso uma população consciente sobre riscos climáticos, que exija a tomada de ações eficazes – e de homens públicos com coragem para realizá-las.

Não resta dúvida sobre quais medidas a humanidade deve tomar, entre outras: assumir compromissos para fazer cessar a exploração e queima de combustíveis fósseis; fazer cessar as alterações de uso do solo com perda de áreas florestadas (como ocorre no Brasil); e capacitar a sociedade humana com sistemas adaptativos de alertas precoces, introduzidos e estimulados pelas Nações Unidas desde 2022.

Há poucos alentos e esperanças no cenário internacional, o que lança sobre o Brasil maior responsabilidade humanitária na condução da COP30, no final de 2025, que terá por missão o estabelecimento de novas metas nacionalmente determinadas como mecanismos efetivos para redução da queima de combustíveis fósseis.

*Fontes do artigo: E((O)) Eco, Carta para o Futuro e Revista Pesquisa FAPESP.

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