Após repercussão, ALRN muda regimento que impedia entrada de pessoas com véu
Natal, RN 18 de jul 2024

Após repercussão, ALRN muda regimento que impedia entrada de pessoas com véu

15 de junho de 2024
5min
Após repercussão, ALRN muda regimento que impedia entrada de pessoas com véu
Ana Maria (com véu vermelho), com o esposo e os filhos I Foto: cedida

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Depois da repercussão negativa do episódio em que uma mulher muçulmana foi barrada na entrada da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte (ALRN) no início do mês, por estar usando um véu na cabeça, a Mesa Diretora da Casa modificou o regimento interno para corrigir esse tipo de ocorrência. A alteração foi publicada no Diário Oficial deste sábado (15).

A notícia foi divulgada em primeira mão pela Agência Saiba Mais. O Regimento Interno impedia a entrada de pessoas com capacete, chapéu, boné, gorro, capuz ou qualquer outro item de vestuário/acessório que cobrisse parte do rosto ou da cabeça. Porém, agora, ficam fora da regra os itens de vestuário/acessório relacionados à crença ou religião, ou em decorrência de patologias ou tratamento médico. Além de vestuário/acessório tradicionais e de cultura dos povos originários, ou de pessoas cujo nível socioeconômico não permita adequação à norma.

Imagem: reprodução Diário Oficial Eletrônico

A notícia foi comemorada por Ana Maria Pimenta, a potiguar barrada quando ia participar de uma reunião da Comissão de Direitos Humanos, no último dia 6.

Fiquei muito feliz porque houve uma consequência positiva diante do que aconteceu. Não faz sentido a casa do povo impedir que o povo entre. Apesar de todo o constrangimento, tivemos um avanço. Agora vamos aguardar que essa orientação realmente seja passada para as pessoas que lá trabalham”, comenta.

É muito desagradável não se sentir parte do povo com quem você vive. Não é só a vestimenta religiosa, se chegasse uma pessoa fazendo tratamento de câncer, ela também não poderia entrar. Fico feliz que a nova lei contempla patologias médicas”, acrescenta Ana Maria.

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Na ocasião em que Ana Maria foi barrada, foi o esposo dela, Mohamad Tawfic, que fez a denúncia. Ele também é membro do Comitê Estadual Intersetorial de Atenção aos Refugiados, Apátridas e Migrantes do RN (CERAM/RN),

Valeu a luta, a reportagem e a força das pessoas que apoiaram e ficaram indignadas pelo ocorrido. Aquilo não era intolerância religiosa, era racismo mesmo, o que é muito pior. Lá dentro tem capela e os católicos têm símbolos religiosos, porque não podemos ter os nossos, que é a vestimenta?”, questiona Mohamad Tawfic.

Ana Maria Pimenta é do interior do Rio Grande do Norte, mas se mudou para a capital para estudar. Ela chegou a cursar jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, mas abandonou o curso depois de ganhar uma bolsa para estudar na antiga União Soviética.

Sou de Augusto Severo, que hoje em dia se chama Campo Grande. Vim para Natal estudar na casa da minha avó. Comecei a fazer jornalismo, mas apareceu a bolsa do Centro da Mulher Brasileira, passei para cursar filosofia, conheci meu esposo que também estava lá para estudar e fomos morar na Palestina, onde hoje é território de Israel. Passamos quatro anos lá, quando decidimos vir para o Brasil”, conta Ana Maria.

Medo de andar sozinha

Apesar de ser potiguar e conhecer bem a capital, Ana Maria tem medo de usar o véu quando anda sozinha.

Esse tipo de coisa já tinha ocorrido em vários locais, inclusive, na própria empresa onde trabalho. Mas, em local público, foi a 1º vez”, relata.

Mesmo depois de voltar para Natal, Ana Maria demorou um certo tempo até começar a usar o véu.

Já levei corrida no shopping de quererem jogar pedra em mim. Nós usamos mais quando estamos acompanhadas, sozinha é mais complicado. Atualmente, depois dos ataques de Israel à Faixa de Gaza, as pessoas passaram a ser mais agressivas, vemos muito nas redes sociais. Já faz 75 anos da ocupação de Israel da Palestina, e a gente observa a islamofobia crescendo”, lamenta Aa Maria.

O casal, que montou uma empresa em Natal, teve dois filhos, uma é mestre em psicologia e o outro é engenheiro biomédico.

O respeito pelo outro é essencial para termos uma sociedade saudável. No mundo cabe todos nós, independente das diferenças. Vamos até falar com os vereadores para rever regimento interno da Câmara também, antes que tentemos entrar para alguma audiência pública, ou seja, para o povo, e sejamos barrados. Vamos lá na próxima semana”, revela Mohamad Tawfic, que é naturalizado brasileiro.

A assembleia deveria fazer um espaço dentro inter-religioso lá dentro, ecumênica, para todo mundo. Deveriam nos chamar para uma aula aos deputados e servidores para, quem sabe assim, possamos mudar a visão das pessoas para que se tornem cidadãos melhores”, sugere  Mohamad.

Ana Maria na Assembleia Legislativa I Foto: reprodução TV Assembleia RN

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