Engorda da praia de Ponta Negra: solução ou problema? 
Natal, RN 25 de jul 2024

Engorda da praia de Ponta Negra: solução ou problema? 

29 de junho de 2024
8min
Engorda da praia de Ponta Negra: solução ou problema? 
Praia de Ponta Negra, principal praia turística de Natal / Foto: Tiago Lincka

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Creio que em alguns dos meus textos aqui já confessei que sou nascido em Brasília, mas natalense de coração, cidade que vivo desde minha infância. E se tem uma coisa na minha vida que eu amo fazer é estar à beira do mar, principalmente num fim de tarde, com aquela brisa suave que toca nosso corpo, aquele céu amarelado em aquarelas com o pôr do sol e ao som relaxantes do vai e vem das ondas. Para mim este é um cenário muito relaxante, que me traz paz e me faz refletir sobre as cosias da vida. Queria eu estar escrevendo este texto para vocês sentado à beira do mar, como descrevi acima. Mas infelizmente a correria da semana cheia, com final da greve dos servidores da UFRN tomou todo meu tempo e cá estou, sentado na frente do computador com luz artificial.

Natal é uma cidade linda e privilegiada com o extenso litoral que nos cerca. Tanto que é uma das queridinhas do Brasil para os turistas de todos os cantos do mundo. Mas parece que a cada dia que passa, os atuais governantes tem tentado acabar e privatizar com esse paraíso que temos. 

Ora a Prefeitura quer aprovar às presas o ordenamento do plano diretor de Natal, querendo superlotar a beira do mar com aqueles espigões imensos dignos da praia da cidade de Balneário Camboriú. Basta uma rápida pesquisada na internet para constatarem como aqueles prédios tem acabado com a qualidade de vida da população local. Assim como, acabaram com a qualidade da praia do principal da cidade, na região central. Pouco mais de 13h do dia, na maior parte do ano, os espigões encobrem toda a faixa de areia com as sombras projetadas pelos imensos metros de comprimento de suas torres. Afetando não só os banhistas, mas também a dinâmica da natureza que ali existe, e depende do sol na faixa de areia e do mar para existirem.

E qual a solução encontrada para Balneário Camboriú? Fazer a engorda da praia com o bombeamento da areia retirada do fundo do mar, por uma draga, para alargar a faixa de areia para os banhistas. Essa obra foi realizada em meados de 2021, hoje, em 2024, já podemos observar os efeitos desse processo acolá, que não são nada interessantes nem para a natureza, tampouco para os banhistas e turistas. 

Balneário de Camboriú após a engorda da praia / foto: cedida

Diversos problemas já estão sendo verificados por lá fruto dessa obra de alargamento da praia. Destaco aqui dois deles, o primeiro é o aparecimento de tubarões na praia, tendo em vista a mudança no ciclo natural daquela praia. Outro fator é o surgimentos dos “degraus”, que são aqueles desníveis grandes entre a altura da faixa de areia com a água. Cientistas, geólogos e oceanógrafos de universidades de Santa Catarina e Rio Grande do Sul constatam que esse alargamento não resolve o problema, pois o que é da natureza, novamente a natureza resgata para ela. Ou seja, é um processo que com o tempo será naturalmente revertido em alguns anos. Além do fato de que aquela água que não está mais na praia que foi alargada ela não some, irá migrar para outra praia, e então causará sérios impactos nessa outra praia.

E o que isso tudo tem a ver com a cidade do Natal?

Bem, tem alguns dias que não vou na praia de Ponta Negra, mas fiquei sabendo que temos uma nova visitante, uma embarcação espanhola grandona que chamou a atenção no horizonte. Trata-se de uma draga vinda da Espanha que aportou no litoral potiguar, e marcará o início efetivo das obras de engorda da Praia de Ponta Negra, um dos principais cartões-postais de Natal. Essa iniciativa, que visa alargar a faixa de areia da praia em até 100 metros na maré baixa. É vista por parte de algumas pessoas como uma medida necessária frente ao avanço do nível do mar, para conter a erosão do Morro do Careca, um dos ícones turísticos da cidade. E para aumentar a faixa de areia para os banhistas.

A obra em Ponta Negra está dividida em várias etapas. A primeira delas foi a complementação do enrocamento do calçadão, que se estendeu de fevereiro de 2023 até janeiro deste ano, com a instalação de mais de 2 km de blocos de concreto ao longo da praia. Em março, uma nova fase foi iniciada com o serviço de drenagem das ruas entre a Avenida Engenheiro Roberto Freire e a orla da praia, abrangendo desde o Morro do Careca até o início da Via Costeira. Essa drenagem visa evitar que a água desça com força e leve a areia que será colocada na engorda da praia.

Agora, chegamos à terceira fase, a da engorda propriamente dita. Mesmo que se julgue uma obra necessária, essa intervenção ainda suscita preocupações e questionamentos sobre seus impactos sociais, econômicos e ambientais. Algo que nos leva a refletir sobre.

A promessa de alargar a faixa de areia da praia pode trazer benefícios turísticos, aumentando o espaço para visitantes e, possivelmente, revitalizando a economia local. No entanto, não podemos deixar de olhar para outras cidades que já fizeram essa obra, por isso que coloquei acima a realidade da praia de Balneário Camboriú, onde 70 metros de areia foram “engolidos" de volta pelo mar em apenas dois anos após a obra. Ou seja, levanta dúvidas sobre a sustentabilidade desse tipo de intervenção. A mesma empresa que realizou a obra em Camboriú está à frente do projeto em Natal, o que reforça a necessidade de uma avaliação cuidadosa e crítica das possíveis consequências.

Outro aspecto crucial é o impacto social da obra. Durante sua execução, pescadores, ambulantes e barraqueiros poderão ser impedidos de trabalhar devido à turbidez do mar e à interrupção do fluxo de turistas. Essa situação pode resultar na perda temporária ou até permanente dos meios de subsistência para muitos trabalhadores informais que dependem da praia para seu sustento. Em outras cidades, projetos semelhantes resultaram em processos de higienização social, onde áreas urbanas foram remodeladas de maneira que marginaliza e exclui comunidades vulneráveis, favorecendo uma estética que atende apenas aos interesses turísticos e imobiliários das ditas “elites”. 

Abrindo um parênteses, como querem fazer na praia do meio, com o novo ordenamento do plano diretor de Natal, uma dita higienização da praia do meio, do forte e de areia preta. Pois empresários dizem que essas praia não são utilizadas pela população. Acho que eles não estão falando da mesma praia que vejo lotada todo final de semana, com a população tanto dos bairros do próximos, como de outros bairros de Natal. Na verdade o que esses mega empresários querem é tirar o pobre, o nativo, a população real daquela praia, privatizando e encarecendo tudo, para a exclusão social que eles tanto almejam, na cabeça deles, nós pobres não deveríamos estar ali, frequentando a mesma praia que os ricos gostariam de estar. 

A necessidade de licenças ambientais e a análise rigorosa da drenagem da praia pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) destacam a complexidade e os riscos envolvidos em uma obra dessa magnitude. Além dos desafios técnicos, é essencial garantir que os aspectos socioeconômicos e ambientais sejam considerados e que as comunidades afetadas sejam devidamente consultadas e incluídas no processo de decisão.

Em um momento em que o desenvolvimento urbano sustentável e inclusivo é mais importante do que nunca, é crucial que Natal aprenda com os erros de outras cidades e busque soluções que beneficiem não apenas o turismo, mas também a comunidade local e o meio ambiente. A engorda da Praia de Ponta Negra pode ser uma oportunidade de revitalização ou um passo para a marginalização e exclusão social. A escolha depende de uma abordagem cuidadosa, transparente e participativa, que priorize o bem estar da população local, os fluxos da natureza e a sustentabilidade.

Não podemos cair no conto das projeções e imagens feitas por programas de computador. Na imagem 3D tudo fica bonito, mas na prática geralmente é a população local que leva a pior. 

Uns veem como solução, outros como problema. Eu vejo como uma solução problemática.

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