Líder comunista do RN e ex-companheiro de Anatália, Luiz Alves ganha biografia
Natal, RN 9 de jul 2026

Líder comunista do RN e ex-companheiro de Anatália, Luiz Alves ganha biografia

16 de março de 2025
11min
Líder comunista do RN e ex-companheiro de Anatália, Luiz Alves ganha biografia
Foto: cedida

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Aos 84 anos, o revolucionário comunista Luiz Alves Neto vai ganhar uma biografia publicada pelo selo da Liga Operária de Mossoró. Ele foi casado com Anatália de Souza Melo Alves, potiguar assassinada pela ditadura militar.

“O Velho”, como também ficou conhecido, militou junto com Anatália no Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e chegou a ser preso pela ditadura. Viu a companheira ser presa e morta pelos militares, mas manteve as convicções revolucionárias. Posteriormente, ajudou na construção do PT, participou do movimento sindical e seguiu morando em Mossoró, onde vive até hoje.

Com previsão de lançamento aproximadamente para abril, “Luiz Alves – Abdicar da luta, Jamais!” reúne entrevistas de companheiros de luta e também memórias do revolucionário potiguar. A publicação é organizada pelo professor e historiador Lemuel Rodrigues e também contou com a colaboração do historiador Glênio Alves, filho de Luiz.   

Luiz Alves foi uma espécie de guia na reorganização dos movimentos de esquerda em Mossoró, logo após o seu retorno à cidade, após também ter sido preso em Vitória de Santo Antão (PE):

“Mossoró teve um movimento operário muito pujante, muito forte e se destacou por isso desde os tempos do Sindicato do Garrancho, então, não era difícil organizar a classe trabalhadora e levá-la para a luta. O movimento comunista se encaixou muito bem na cidade e organizou o movimento sindical. Um movimento combativo, bravo, que sempre se destacou por sua capacidade de luta”, relata o biografado na obra.

Lemuel Rodrigues recebeu o convite da Liga Operária para escrever e livro e aceitou após perceber que nunca ninguém havia feito nada sobre a vida do comunista.

“Todo mundo sabe quem é Anatália. Mossoró tem até uma rua em homenagem a ela. E é muito justo, tem diretórios acadêmicos, centro acadêmico, e é muito justo. Merecedora de homenagens e ser lembrada por ser mulher, por ser militante e pelas condições em que ela foi assassinada covardemente. Quem é martirizada ou martirizado é sempre mais lembrado do que quem sobrevive. E aí foi essa a provocação [conhecer mais sobre Luiz]”, aponta.

Livro está em pré-venda | Foto: divulgação

Origens

Luiz Alves nasceu em Areia Branca, também na região Oeste do Rio Grande do Norte, mas foi ainda jovem estudar em Mossoró, onde cursou Ciências Sociais na Uern, e também passou no primeiro concurso para o Banco do Brasil.

“Era um cara muito estudioso, um intelectual. Um cara que sabia muito bem o que queria e continua sabendo o que quer. Mas não tinha nada sobre ele. O que é que você encontra? Se você pegar o relatório da Comissão da Verdade, ou alguma matéria, todos os anos, em março, faziam uma matéria, colocavam lá a foto dele, mas ninguém conhecia, na verdade, a história dele. Por que não mostrar ao Rio Grande do Norte quem foi Luiz durante a ditadura e quem é Luiz depois?”, questiona Lemuel.

Nesta trajetória, toda a vida do potiguar é lembrada, desde o nascimento em Areia Branca, os estudos em Mossoró e a partir de 1968 quando, já militante, vai a Recife para se juntar aos companheiros do PCBR, partido fundado naquele ano e extinto em 1980, que tem origens no PCB.

“Em 1967, no sexto congresso do PCB, há um racha e as pessoas que saem do PCB, por exemplo, Marighella, Jacob Gorender, Mário Alves, são alguns nomes de peso que saem e criam outros partidos. E um desses partidos que surgiram da cisão do PCB foi o PCBR, que já era uma corrente dentro do PCB insatisfeita com a linha de pensamento do PCB, porque acusavam o PCB de ser um partido reformista, de não querer bater de frente com a ditadura. E essa corrente tinha uma visão mais de confronto, de achar que só existia um meio de barrar a ditadura, que seria pela luta armada”, conta Rodrigues.

Movidos pela sede de derrubar a ditadura, Luiz e Anatália vão para a Zona Canavieira de Pernambuco, estado que foi um dos principais centros de resistência ao regime, onde o PCBR começava a montar seu comando naquela localidade.

“Luiz foi como militante e atuou na Zona Canavieira de Pernambuco, em Gravatá, atuou em Caruaru, Vitória de Santo Antão, Jaboatão dos Guararapes. Então ele caiu, foi preso em Vitória de Santo Antão. Estava com ele José Adeildo Ramos, que é um paraibano, que também era do PCBR, ainda está entre nós e mora em João Pessoa. E Anatália foi presa em Gravatá”, diz o pesquisador.

De Vitória de Santo Antão, Luiz foi levado até Gravatá, onde Anatália estava presa e, de lá, o casal foi para o Recife, no Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), onde seguiram as sessões de tortura.

“Isso foi em dezembro de 1972. Em janeiro de 1973, Anatália foi morta barbaramente e, em 1974, Luiz sai por força de habeas corpus, fica na clandestinidade e só volta a ter uma liberdade em 1979, quando sai a anistia. Ele volta para Mossoró, aí aqui ocorre algo que é impressionante. Luiz não se esconde. Ele continua fazendo o trabalho que ele sempre fez: militância na esquerda”, define Lemuel.

O formador de uma geração

Segundo Lemuel Rodrigues, Luiz Alves foi responsável pela formação de quase todos os políticos de esquerda da região à época. 

“Ele assessorou a fundação de sindicatos, esteve na fundação do PT de Mossoró. Ele esteve assessorando vereadores de esquerda, dando cursos de formação política para vários sindicatos. Então ele foi uma pessoa atuante, ele não calou e nem parou. Ele voltou para o Banco do Brasil e, quando retornou, reassumiu o emprego e a primeira coisa que ele fez foi entrar no movimento sindical bancário, fazendo oposição à gestão da época e lutando para que o sindicato se fortalecesse. Sindicato do Comércio, Sindicato dos Servidores do Município, Sindicato da Agricultura, Sindicato dos Trabalhadores das Salinas, Sindicato dos Bancários. Então, Luiz foi um mentor intelectual, político, de grande parte desses sindicatos aqui de Mossoró e também da capital”, aponta o autor do livro.

Luiz Alves foi bancário e militante sindical | Foto: cedida

Gilberto Diógenes, presidente da Liga Operária de Mossoró, lembra do retorno de Luiz a Mossoró:

“Luiz continuava forte e destemido em sua missão contra qualquer tipo de perseguição e opressão, buscando ainda repassar seus conhecimentos para nós, toda uma geração hoje de cabelos esbranquiçados pelo tempo, mas que aprendeu a lutar com os seus ensinamentos e levou muita porrada — literalmente — para conseguir um mundo melhor e mais justo para nossos companheiros”, relata.

Segundo Lemuel, quem ler a obra vai perceber os depoimentos de como os colegas da época da ditadura e os colegas dos momentos seguintes viam e veem Luiz. 

“É uma oportunidade muito grande dos jovens conhecerem um pouco como foi a vida desses também jovens militantes nos anos 60 e 70 em se entregar, em dar sua vida em defesa da democracia.”

Hoje, de acordo com Lemuel, “O Velho” segue em Mossoró, mas mais recluso pela idade.

“Ele está mais recluso, pela idade, o cansaço. E a família tem muito cuidado. Ele mora com a esposa dele, a terceira esposa dele. Com Anatália ele não teve filhos, então ele teve um segundo casamento, teve filhos, e teve um terceiro casamento que também tem filhos”, comenta.

A memória de Luiz já não é a mesma de décadas atrás, mas o professor da Uern diz que ele está bem, que ainda o visita e conversam.

“Ele, graças a Deus, é um homem muito forte, muito lúcido daquilo que ele quer ainda, daquilo que ele fez, daquilo que ele defendeu. É muito convicto, muito firme em suas posições”, apregoa.

Pré-venda

Para garantir alguns custos de produção da obra, a Liga Operária está abrindo a sua pré-venda ao custo de R$ 50. A coordenação editorial de “Luiz Alves – Abdicar da luta, Jamais!” é da SobreArt Produções Culturais, do poeta, jornalista e editor Caio César Muniz. 

O exemplar pode ser garantido com antecedência pelo Pix: 386.152.152-00.

Após o depósito, é necessário enviar o comprovante para o número (84) 99904-0286.

Anatália de Souza Melo Alves

Anatália era costureira, nascida em Frutuoso Gomes (RN), morou grande parte da sua vida em Mossoró (RN) e precisou se mudar para Recife (PE), juntamente com seu companheiro, após o decreto do Ato Institucional nº5 (AI-5) em 1968 e o aumento da repressão. Atuou prestando atendimento de enfermagem aos trabalhadores e militantes, além de alfabetizar trabalhadores rurais no método Paulo Freire.

Em 17 de dezembro de 1972, Anatália foi sequestrada por agentes do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), em Recife. No entanto, sua prisão só foi registrada após 26 dias de seu sequestro, em 13 de janeiro de 1973. Durante o tempo em que ficou presa, ela sofreu diversos tipos de torturas, espancamentos e violência sexual, e teve como uma das suas testemunhas, Isolda Maria Carneiro de Melo, com quem dividia cela e que, assim como Anatália, passou por todo tipo de tortura.

Durante a ditadura, a polícia violentou mulheres das formas mais brutais possíveis. Em uma sessão pública da Comissão Estadual da Memória e Verdade de Pernambuco, o marido de Anatália, Luís Alves Neto, relatou algumas das torturas que ela sofreu quando foi presa pelo DOI-CODI:

“(…) submetem ela a uma tortura violentíssima e três ou quatro agentes da polícia torturando ela, eu numa grade, mas ouvia os gemidos dela, ela sendo torturada, clamando por mim, eu numa grade preso só fazia protestar, “Bandidos, canalhas”. Então quando chega num momento que ela gritando muito e me chamando, vem um companheiro depois, disse que ela estava sendo estuprada por cinco homens, cinco policiais. Miranda e mais outros.”

As torturas seguiram covardemente por mais de 30 dias, até a sua morte, em 22 de janeiro de 1973, quando o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), forjando o laudo de sua morte, comunicou que Anatália teria se suicidado nas dependências do DOPS, enforcando-se com a alça de sua bolsa. No entanto, segundo o laudo do Instituto de Polícia Técnica (IPT) de Pernambuco, Anatália foi encontrada deitada numa cama de campanha, contrariando a versão de que teria morrido no banheiro. A análise pericial constatou que sua morte teria sido causada por asfixia por enforcamento, porém durante a análise das fotos, foi notado que seus órgão genitais foram queimados, o que indicou a violência presente no caso. A jovem Anatália foi brutalmente assassinada aos 27 anos, sepultada sem que a família tomasse conhecimento e sem que lhes fosse entregue a certidão de óbito.

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