O Sebo do Irmãozinho: o sonho, a resistência e a magia dos livros
Natal, RN 28 de jun 2026

O Sebo do Irmãozinho: o sonho, a resistência e a magia dos livros

25 de maio de 2025
8min
O Sebo do Irmãozinho: o sonho, a resistência e a magia dos livros
Fundado em 2000 no município de Parnamirim (RN), o Sebo do Irmãozinho é um disseminador natural da cultura | Fotos: Gil Araújo

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No coração de Parnamirim, um refúgio tranquilo e repleto de livros pulsa firme, resistindo há 25 anos. É o Sebo do Irmãozinho, um pequeno templo dedicado à palavra escrita, erguido com esforço, perseverança e um amor profundo pelo conhecimento. Quem conduz esse espaço cultural é um homem simples, de fala suave, mas cujas ideias transbordam lucidez e afeto, iluminando cada canto desse santuário das histórias.

“Para mim, o sebo é mágico”, diz o livreiro conhecido como "irmãozinho", ao explicar que a ideia de um sebo nasceu de um sonho antigo, acalentado desde os tempos em que vendia hortaliças numa bicicleta pelas ruas de Natal. O destino tomou outro rumo quando ele parou, curioso, diante do antigo sebo de Jassa, o Catalivros. Ali, entre pilhas de livros usados, nasceu um encantamento que se tornaria vocação.

Sem capital para investir, começou como pôde: trocando relógios velhos por livros. Nas feiras, vendia revistinhas da Turma da Mônica, iniciando um contato direto com o público leitor, muitas vezes formado por crianças e jovens que chegavam com olhos brilhando diante das histórias ilustradas. Era pouco, mas era o início de uma travessia.

Em 2000, após alguns anos trabalhando com venda de livros novos, inclusive como representante de editoras porta a porta, ele firmou sua base no centro de Parnamirim. Primeiro, num ponto pequeno. Depois, com persistência e trabalho, conseguiu ocupar o espaço onde hoje funciona o sebo: um lugar com três cômodos, que ainda lhe parece pequeno para o tamanho do sonho.

Chamado carinhosamente de “irmãozinho” por todos que passam por ali, o livreiro adotou esse modo de tratamento como filosofia de vida. “Irmãozinho é uma forma carinhosa de interação humana. Se a gente começasse a se tratar assim, com mais humildade, talvez houvesse algum alívio nessa sociedade conturbada em que vivemos”, reflete. Para ele, todos somos irmãozinhos: “Aquele que quer ser grande demais é que talvez tenha dificuldade de aceitar isso. Mas o irmãozinho é um todo, é especial porque é simples, chamo todos de irmãozinho, e eles me chamam assim de volta”.

O Sebo do Irmãozinho é um espaço de troca — não apenas de livros, mas de olhares, de ideias e de esperanças. Irmãozinho fala que os impactos da tecnologia e da leitura digital, que diminuíram as vendas ao longo da última década. Mas ainda acredita no poder insubstituível do livro físico: “O livro é palpável, dá sustentação psicológica. Quando você abre uma página, você viaja no espaço-tempo. Ele é imortal”.

Antes do sebo

Em meio às dificuldades, uma história de generosidade e amor pelos livros marca a trajetória do Irmãozinho, antes de empreender com o sebo. Durante os anos em que trabalhou vendendo livros de porta em porta para editoras, o Irmãozinho viveu muitas histórias, mas uma delas ficou gravada em sua memória como um símbolo da força transformadora da leitura.

Era começo dos anos 1980, quando visitava escolas no interior do Rio Grande do Norte com uma coleção de livros de conhecimentos gerais. Numa dessas visitas, encontrou uma menina que, ao abrir os volumes, teve os olhos iluminados de encantamento. "Ela ficou fascinada", conta ele, com emoção.

Mas a família da menina não tinha condições financeiras para comprar os livros. Ainda assim, ele decidiu procurar os pais dela. Quando o pai chegou da roça, exausto do trabalho, foi até o hotel onde ele estava hospedado e ouviu a proposta.

"Eu disse a ele: o senhor não precisa pagar a entrada, nem a primeira prestação. Essas duas parcelas, eu tiro do que seria a minha comissão", lembra. O pai aceitou. A menina chorou de felicidade. Ele também.

"Tu acha que alegria foi na minha vida, de um negócio desse? Não tem quem saiba decifrar uma felicidade que a pessoa transmite. Aquela felicidade vem pra gente também, com o mesmo tom", diz. Esse tipo de encontro, acredita ele, é o que dá sentido à sua missão. Uma troca verdadeira, que não tem valor apenas em dinheiro, mas na esperança que um livro pode acender nos olhos de uma criança.

Luz nos olhos de quem lê

Enquanto o Saiba Mais realizava a entrevista no Sebo Irmãozinho, três estudantes de uma escola próxima, atraídos pelo espaço. O dono logo interrompeu a conversa para atender os clientes, que vasculhavam as prateleiras enquanto, ao fundo, tocava animadamente a banda Arriba Saia. O ritmo da música empolgou os jovens, que começaram a dançar entre uma escolha e outra de livro.

Ao serem questionados se frequentavam o sebo há muito tempo, um deles respondeu por todos: conheciam o lugar desde o início do ensino médio. Revelaram que costumam mais comprar do que trocar livros, e que gostam de garimpar títulos diferentes ali.

Esse tipo de encontro, acredita o Irmãozinho, é o que dá sentido à sua missão. Uma troca verdadeira, que não tem valor apenas em dinheiro, mas na esperança que um livro pode acender nos olhos uma alegria espontânea.

O Sebo durante a Pandemia

Durante o período mais crítico da pandemia de Covid-19, o Sebo do Irmãozinho, como tantos outros pequenos empreendimentos, enfrentou grandes desafios. O movimento diminuiu drasticamente, tanto por conta das medidas de distanciamento social quanto pelas mudanças de hábitos provocadas pelo isolamento. As vendas caíram, mas o livreiro não perdeu o vínculo com os leitores que buscavam os livros por uma pequena porta aberta.

A pandemia também reforçou a percepção do sebo como espaço de afeto, memória e resistência. Em um mundo cada vez mais digitalizado e automatizado, o contato humano, o cheiro do papel, a conversa espontânea e o gesto de trocar um gibi da Mônica por um romance tornaram-se saudade. Mesmo com as incertezas do período, o livreiro manteve o espaço funcionando com as restrições recomendadas, com fé na cultura e no encontro como formas de manter a esperança viva: “A humanidade precisa de reintegração entre os povos”, reflete ele, apontando que o sebo não é apenas um lugar de venda de livros, mas um espaço para acolhimento, troca e reconstrução.

Irmãozinho confessa que não sabe o que o futuro reserva para o sebo. “O futuro é muito incerto. Tudo acontece de forma simultânea, a gente não tem como prever”, diz ele, com a serenidade de quem aprendeu a viver um dia de cada vez. Ainda assim, enquanto for possível, permanecerá ali — de portas abertas para as crianças que chegam com revistas nas mãos, para os adultos que compartilham histórias, e para aqueles que, como ele, veem no livro mais que um objeto: uma centelha de luz no caminho.

Durante a entrevista, o livreiro de 66 anos preferiu não revelar seu nome. Com um sorriso, contou que, ao aderir à modernidade do Pix, tentou criar uma conta em que aparecesse apenas “irmãozinho” na identificação “pra continuar sendo reconhecido assim”, brinca, reafirmando a afetividade com que se coloca no mundo.

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