Batalha da Gruta ocupa a UFRN com cultura, inclusão e memória periférica
No Anfiteatro do Departamento de Artes da UFRN, é lugar de ouvir o grave dos beats e versos cortantes das batalhas de rima e à energia contagiante de corpos que dançam, protestam e celebram. É ali que acontece, uma vez por mês, a Batalha da Gruta, projeto de extensão que reúne juventudes de diferentes regiões da cidade em torno dos cinco pilares da cultura hip-hop: MC, DJ, break, graffiti e conhecimento, representado pelas batalhas de slam e pela articulação política de seus participantes.
Mais que um evento artístico, a Gruta se tornou um símbolo da luta por espaço, memória e justiça social. Nascida em 2024 como resposta a um episódio de violência dentro de um antigo projeto, que também acontecia na UFRN, a Gruta propôs não apenas uma reformulação do projeto anterior, mas uma ruptura ética e estrutural.
“A Batalha da Gruta surgiu como uma resposta a esse episódio de violência, mas também como um chamado à transformação. As próprias meninas envolvidas se organizaram e passaram a liderar o projeto. Era urgente criar um espaço onde a presença feminina fosse respeitada, escutada e valorizada”, afirma Mikelly Cortez, diretora geral do projeto ao lado de Felipe Stabile.
Desde então, a proposta é ocupar o espaço universitário não como concessão, mas como reivindicação política de corpos e culturas historicamente excluídos.
O hip-hop como pedagogia da resistência
Fundamentado na teoria da folkcomunicação, de Luiz Beltrão, o projeto compreende o hip-hop como forma de comunicação dos marginalizados, um instrumento de resistência e criação simbólica que emerge das bordas do sistema. O MC, nesse contexto, pode ser compreendido como líder folk: um sujeito oriundo das classes populares, legitimado por sua comunidade, que atua como mediador entre realidades periféricas e espaços institucionalizados.
“O hip-hop é uma escola informal. Ensina a pensar, a resistir, a se reconhecer. É uma pedagogia da escuta e da criação. Nas oficinas, nas rimas, na dança e nos debates, a juventude aprende a se expressar e a refletir sobre suas vivências”, destaca Mikelly.
É com esse olhar que a Batalha da Gruta desenvolve três eixos principais:
- Batalhas mensais de rima, realizadas na UFRN e em bairros da Zona Norte;
- Oficinas formativas em rima, improvisação, produção musical, história do hip-hop, graffiti e slam;
- Eventos culturais com apresentações musicais, debates e encontros interartísticos.
As ações são todas gratuitas e acessíveis, com recursos como legendas, descrição em texto alternativo e previsão de intérpretes de Libras em edições futuras. A curadoria das oficinas e atrações prioriza artistas negras, periféricas e com trajetória de militância cultural, como Kamal, Vanny, Adaayo e outros nomes que atravessam a cena potiguar com consistência e compromisso político.
A proposta original era circular por diferentes setores da universidade. No entanto, foi no Departamento de Artes que o projeto encontrou acolhimento estrutural e simbólico. “A galera das Artes se identifica com o projeto. Eles nos reconhecem como parte da cena criativa. Hoje, temos uma boa relação com a coordenação do DEART, que nos informa quando podemos utilizar o anfiteatro sem interferir na rotina acadêmica”, explica a equipe.
Mesmo com o reconhecimento interno, a negociação institucional ainda enfrenta obstáculos. O estigma da cultura periférica e os resquícios de elitismo seguem sendo barreiras reais. “Alguns setores ainda resistem a liberar espaço. É como se o hip-hop não pertencesse à universidade. Mas a gente mostra, na prática, que pertence sim. E transforma”, reforça Mikelly.
Um dos momentos mais simbólicos do projeto aconteceu no CASEMI (Centro de Atendimento Socioeducativo de Semiliberdade), onde a Gruta ministrou oficinas de breaking, rima e slam. A experiência revelou o potencial do hip-hop como ferramenta de ressocialização e escuta.
“Ao final, alguns jovens escreveram suas histórias em forma de rima. Falaram de dor, mas também de esperança. Disseram que nunca tinham tido essa oportunidade dentro do CASEMI. Foi um dos momentos mais fortes para nós”, relata a diretora.
A proposta pedagógica das oficinas é flexível e sensível às especificidades de cada público. A oficina de breaking, por exemplo, utilizou planos de aula inspirados em práticas da pedagogia popular. Já as oficinas de rima buscaram construir narrativas a partir das vivências dos participantes.
Batalha é disputa, mas também é cuidado
Com quase 17 integrantes ativos, o projeto é tocado de forma colaborativa, autogestionada e sem apoio financeiro institucional fixo. Os custos com transporte e alimentação dos artistas convidados, por exemplo, muitas vezes saem do bolso da equipe.
“Fazemos milagre com o que temos. Mas o que nos move é a confiança no movimento e nas pessoas que constroem isso com a gente. O hip-hop me mostrou que eu posso sonhar. E eu quero continuar espalhando isso”, afirma Mikelly.
A Gruta também instituiu um núcleo de escuta e acolhimento, onde denúncias e sugestões são recebidas com responsabilidade. A cultura do cuidado é central para o projeto, que busca não apenas transformar o espaço externo, mas também cultivar ambientes internos saudáveis.
“No começo, eu nem sabia operar uma controladora. Mas o pessoal confiou em mim e hoje me sinto parte de algo muito maior. Ali é onde a mágica acontece”, conta Breno Vieira, beatmaker e DJ do projeto.
O projeto reconhece o hip-hop como uma expressão artística originada por comunidades negras e latinas marginalizadas, especialmente no Bronx dos anos 1970. No Brasil, essa linguagem encontrou solo fértil nas periferias, e hoje se consolida como ferramenta de denúncia, criação de identidade e articulação política.
“O hip-hop é resistência. A Gruta é, por essência, um enfrentamento ao racismo estrutural e à elitização dos espaços culturais. Estamos ocupando, com dignidade, o que sempre nos foi negado”, reforça a direção.
A presença da Gruta em eventos como a Semana Nacional de Museus e o Festival da Juventude, da SEJUV, consolidou sua visibilidade enquanto movimento cultural de relevância social.
Em junho de 2025, o projeto completa seu primeiro ano de atividades. Para marcar a data, será realizada uma edição especial no DEART no dia 27 de junho, com batalhas de rima, performances, graffiti e muito som.
“Esse primeiro ano foi de luta, mas também de muitas conquistas. E ainda temos muito a fazer. Vamos ampliar as parcerias, fortalecer o protagonismo feminino e produzir um acervo digital com os registros das batalhas e oficinas. O futuro da Gruta é coletivo”, afirma a coordenação.
Construir pertencimento e comunidade
A Batalha da Gruta não é só um evento. É uma rede viva, um movimento que educa, transforma e amplia o horizonte de jovens que, muitas vezes, foram ensinados a acreditar que não pertenciam a certos lugares.