Brasil: Nunca Mais – 40 anos de um grito que ainda ecoa
Natal, RN 4 de jun 2026

Brasil: Nunca Mais – 40 anos de um grito que ainda ecoa

16 de julho de 2025
4min
Brasil: Nunca Mais – 40 anos de um grito que ainda ecoa

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Há 40 anos, era lançado no Brasil o livro Brasil: Nunca Mais. Fruto de um trabalho clandestino e corajoso, essa obra monumental revelou ao mundo os horrores cometidos pela ditadura civil-militar brasileira, sistematizando mais de 700 processos judiciais, com relatos de torturas, perseguições e execuções promovidas pelo Estado. Sua publicação, em 1985, rompeu o silêncio forçado imposto pela repressão e se tornou um marco incontornável da luta por Memória, Verdade e Justiça.

Em Natal, o lançamento do Brasil: Nunca Mais teve um caráter singular: foi promovido pela Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese, com a participação de Dom Paulo Evaristo Arns — a única presença do cardeal em um lançamento fora de São Paulo naquele ano. O evento aconteceu na Livraria Paz na Terra, então sob a direção do Padre Sabino Gentili, e mais de 200 exemplares foram vendidos, demonstrando a força e a ressonância daquele gesto em pleno processo de redemocratização.

Para mim, essa memória não é uma abstração. Sou filha de dois militantes perseguidos pela ditadura. Meu pai, Glênio Sá, sobreviveu a três prisões, à tortura e à clandestinidade. Carregou até os últimos dias as marcas da violência de Estado e da ausência de justiça — marcas que nos atravessam, como filhas e filhos dos que ousaram resistir. Hoje, presido o Comitê Estadual de Memória, Verdade e Justiça do Rio Grande do Norte e integro o Coletivo Nacional de Filhos e Netos por Memória, Verdade, Justiça e Reparação com a convicção de que essa luta é também por todos que vieram depois.

O Brasil: Nunca Mais é, acima de tudo, uma herança política e espiritual. Um trabalho coletivo liderado por figuras como Dom Paulo Evaristo Arns e o reverendo James Wright, que, com risco de vida, organizaram mais de 850 mil cópias de documentos do Superior Tribunal Militar e os microfilmaram, garantindo que a verdade escapasse do apagamento e da censura. A ditadura, como não poderia deixar de ser, perseguiu inclusive os religiosos envolvidos no projeto, acusando-os de subversão por denunciarem torturas a instâncias internacionais.

Quatro décadas depois, essa publicação segue atual. Ela não pertence apenas ao passado — ela nos convoca permanentemente. Porque no Brasil, ao contrário de países como a Argentina, não houve justiça de transição. Não responsabilizamos os torturadores. Não rompemos com a herança autoritária. Seguimos convivendo com monumentos que homenageiam assassinos e com uma institucionalidade que, em muitos casos, ainda criminaliza os que lutam por justiça.

E mais: vivemos hoje um novo ciclo de ameaças. Na América Latina, vemos o avanço de governos autoritários, a militarização das democracias e uma nova versão da Operação Condor, com traços digitais e discursos ultraliberais. Na Argentina, Milei ataca a memória e desmonta políticas públicas conquistadas com décadas de mobilização. No Brasil, os tentáculos da extrema-direita seguem ativos, enquanto nossa soberania é ameaçada por pressões geopolíticas — inclusive com interferência direta do governo dos Estados Unidos.

Neste cenário, lembrar os 40 anos do Brasil: Nunca Mais é reafirmar que nossa luta não acabou. É denunciar o negacionismo e resistir ao revisionismo histórico. É exigir, ainda hoje, a abertura dos arquivos da ditadura, a retirada de homenagens a torturadores, a priorização dos processos da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. É também garantir dotação orçamentária e independência para os órgãos que tratam da política de memória.

O livro, como afirmou Adolfo Pérez Esquivel em sua carta ao comitê do Nobel ao indicar Dom Paulo, apresenta “fatos irrefutáveis sobre a institucionalização da tortura durante o regime militar”. E é justamente por apresentar esses fatos que ele continua sendo atacado. Porque onde há memória, há verdade. E onde há verdade, não há espaço para a impunidade.

Os 40 anos do Brasil: Nunca Mais não são apenas uma data comemorativa — são um chamado. Para que não esqueçamos, não perdoemos e não repitamos. Para que a democracia, no Brasil e na América Latina, seja mais que uma promessa — seja justiça realizada.

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