Nota de pesar
Natal, RN 30 de jun 2026

Nota de pesar

28 de julho de 2025
4min
Nota de pesar
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Semana passada perdi o meu primeiro paciente. Não exatamente meu primeiro paciente, que desde a graduação em medicina ocorre de acompanhar uma morte aqui e ali. Mas meu primeiro paciente mesmo, com o qual estabeleci um vínculo, com o qual conversei um pouco, ri um pouco, escutei um pouco, tentei ajudar.

Ele foi enforcado com um cabo de televisão no Ceduc, onde aguardava em privação de liberdade a decisão de um juiz sobre seu futuro próximo, já que faria 18 anos. Por esse mesmo motivo no nosso último encontro, há 10 dias, ele saiu com um encaminhamento para continuar o acompanhamento em um lugar para adultos. Ele me agradeceu bastante, não disse o motivo, mas falou “obrigado” várias vezes enquanto era algemado novamente e saía do consultório. Eu o agradeci de volta, também sem saber por quê. Tinha abaixo do olho azul claro esquerdo duas lágrimas fixas, tatuadas após a morte de um dos irmãos, também assassinado, há cerca de um ano. Em cada dedo da mão esquerda, tatuou o número 1, um coração, o número 2 e um cifrão. Perguntei o significado daqueles símbolos e ele tentou explicar mas eu não entendi, ou porque não tinha repertório suficiente, ou porque ele não lembrava o motivo ou porque não queria explicar. Depois de três tentativas frustradas, eu entendi apenas que o coração era sobre “uma boy” com quem ele já não estava mais, rimos e demos o assunto por encerrado.

Nossos mundos tão diferentes mal se tocavam. Eu não conheci a família dele. Não sabia o que o movia suas escolhas. Do seu passado, tinha apenas as respostas a algumas perguntas que fiz nos nossos poucos encontros. Mas o pouco que nossos mundos se tocaram me tocou. Não sei se pela parte da dor que compartilhou comigo, que era tanta, pelos olhos doces e pela gentileza, pela agonia de não saber do próprio futuro, ou pelo amor com que falava dos familiares, que eram presentes e o visitavam regularmente.

Soube de sua morte um dia depois pelo zap da instituição em que eu o atendia. Ele teve um olho arrancado pelo assassino, seu companheiro de cela, não sei se o das lágrimas fixas ou o outro, nem sei como fez isso nem por quê. Procurei no google mais informações, queria saber sobre onde seria o velório e o enterro, mas não encontrei nota de pesar, convite para velório nem perfil no insta. Nada. Além da matéria do jornal sensacionalista compartilhada no grupo de zap, havia um vídeo do mesmo perfil em que a avó do menino reclamava um carro prometido para ir ao enterro, que pelo que entendi seria em local diferente do jazigo da família, e as explicações sobre sua morte. Algumas pessoas – familiares e amigos – também gritavam “justiça” no vídeo. Também vi um vídeo curto em que ele usava filtro de palhaço e brincava em uma piscina, menorzinho e de aparelho nos dentes, postado pela tia.

Era um rapaz gentil, educado, que passou os últimos anos de sua vida entre semi liberdade ou privação de liberdade, conforme decisão da Justiça. Estava aprendendo a ler. Vinha preocupado com a família e com a própria vida e estava com dificuldade para dormir. Meus esforços eram apenas tentar deixá-lo em pé enquanto passava por tudo aquilo que ele falava e eu não conseguia nem imaginar.

A violência assistida e vivida havia deixado marcas profundas em seu cérebro e seu corpo. Nessa última consulta eu perguntei o que ele queria fazer caso ficasse em liberdade, e ele falou que queria constituir família, meio sem convicção – afinal, 17 anos. Morreu sem conhecer a vida adulta, sem dignidade, sem ar e sem olho, sem nota de pesar, sem explicação e sem despedida.

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