O Partido Digital Bolsonarista
Natal, RN 28 de jun 2026

O Partido Digital Bolsonarista

28 de junho de 2026
10min

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No início de 2026, o CEBRAP – Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – e o CCI (Centro para Imaginação Crítica), publicaram o livro intitulado O Partido Digital Bolsonarista (versão e-book, com 287 páginas), organizado por Marcos Nobre e Ana Claudia Teixeira, com a participação dos pesquisadores Daniela Constanzo, Carol Luck, Leonardo Barbosa, Mércia Alves e Paulo Yamawake.

O livro tem uma introdução (Marcos Nobre), oito capítulos (O PDB como uma nova forma política; Cadeias de lealdades no PDB; Coordenação do PDB nas redes; Quem manda no PDB; 7 de setembro: ritual, visibilidade e ordenação interna; Como o PDB se financia; O PDB na arena eleitoral, O PL e o PDB na Câmara dos Deputados), e conclusões.

Foi resultado de três anos de pesquisas (2023-2025), baseadas, também, em uma extensa revisão da literatura sobre partidos e sistemas eleitorais, governos representativos etc. E, embora salientem o caráter ainda “exploratório, incipiente e preliminar”, o que eles fazem, como afirma Eugênio Bucci, no artigo O partido clandestino da extrema direita (O Estado de S.Paulo, 11 de junho de 2026) é “jogar uma luz pioneira sobre um aparato bilionário que se escondia nas trevas”.

Bucci se refere ao “furor das massas hipnotizadas, no abominável histrionismo da extrema direita, dentro daquele feixe caudaloso de desvios comportamentais, mora um bicho inesperado. A sanha do ódio surdo que atropela as boas maneiras domésticas tem por trás de si o arcabouço e a essência de um – pode acreditar – partido político muito bem azeitado”.

O livro, como salienta Marcos Nobre na apresentação, não é uma mera coletânea de textos, mas resultado de uma pesquisa coletiva com o objetivo de analisar o que os autores qualificam como o partido digital bolsonarista, que “não é uma organização de fins meramente manipulativos, mas uma organização que opera como partido, diferente dos chamados partidos tradicionais (ou analógicos)”.

Um partido digital é definido como “uma organização que se apropria das ferramentas digitais para promover outras formas de mobilização e participação, desafiando as estruturas hierárquicas tradicionais dos partidos convencionais. Ele atua à margem das instituições que regulam a competição política, com impacto sobre o modo como as ações políticas e financeiras são desenvolvidas no sistema político e eleitoral”. E que seu conceito “não cabe nas definições habituais encontradas no debate público e na literatura especializada sobre o que seja um partido”.

Não são partidos tradicionais que se digitalizaram, “porque já nasceram digitais” e não recorrem à internet “como se ela fosse uma das muitas ferramentas que os partidos tradicionais podem utilizar para ampliar o seu alcance”, e sua característica principal é que seguem a lógica que é própria das redes.

Não têm a estrutura formal de um partido político, com sede, direção, programa, filiação formal, estatuto etc. e, não seguindo a legislação eleitoral, têm a vantagem em relação aos partidos tradicionais, de poder atuar em vários partidos, ou seja, de atuar e se articular como poder suprapartidário, como partidos que compõem à base do bolsonarismo no Congresso Nacional, embora tenha o PL como partido e hospedeiro preferencial e a pretensão de representar o bolsonarismo (tanto dentro como fora do Congresso Nacional).

Trata-se de uma inovação política que, para existir, depende do ecossistema digital bolsonarista. E que “tem por trás a lógica do digital que se impõe e tende a se impor cada vez mais”. Se diferenciam dos partidos tradicionais, e analisa-se a sua natureza, como ele funciona, quais são os padrões de coordenação, hierarquia, disciplina e atuação institucional.

No capítulo O partido digital como uma nova forma política (p.23-62), Marcos Nobre e Leonardo Barbosa analisam o partido digital bolsonarista como algo novo na política brasileira, inserido no contexto da ascensão da extrema direita global, com suas especificidades locais – no caso, o êxito na eleição presidencial de 2018, com uma campanha baseada amplamente na militância digital. E embora não repetisse o feito na eleição de 2022, “na onda de candidaturas da direita radical”, conseguiu eleger governadores e uma grande bancada no Congresso Nacional e nesse sentido “o que parecia uma perturbação inesperada e transitória no cenário político brasileiro revelou-se, na verdade, uma mudança irreversível”.

E é exatamente essa “mudança irreversível” que deve ser analisada e compreendida e o livro trata de alguns aspectos desse processo, dessa nova forma de ação política organizada “cujas dinâmicas e cujos processos decisórios ocorrem na esfera digital”.

Como salientam, trata-se de uma organização política que representa uma ruptura com os partidos de massa nascidos nos Estados Unidos e Europa no final do século XIX e também nas formulações do cientista político francês Bernard Manin, que em 1995 publicou um livro de referência sobre as transformações dos governos representativos (Principes du gouvernement représentatif, Editora Champs Flammarion,1995), e mais especificamente no capítulo VI, analisa o que chamou de metamorfoses do governo representativo, a passagem da democracia de partidos, para a democracia de público, característica do final do século XIX e grande parte do século XX nas democracias representativas.

No caso de partidos digitais, eles resultam da erosão da mediação dos partidos tradicionais, e não se trata mais de democracia de público, porque estas foram “transformadas com o surgimento das tecnologias digitais e das mudanças subsequentes na comunicação e na formação da opinião pública”, até porque esses partidos têm como uma de suas características serem partidos de extrema direita e, portanto, antidemocráticos, de ataques frontais à democracia.

Para os autores, trata-se de uma nova forma de organização política, um modelo alternativo de partido, o que não significa afirmar que substituirá ou fará desaparecer outras formas de organização, mas que se organiza e se estrutura em outro momento histórico, com o avanço das tecnologias digitais, da internet, da ampliação (e uso eficaz) das redes sociais, e mais recentemente, com o uso de Inteligência Artificial.

E esta é uma questão relevante: saber como o bolsonarismo se organiza, como atua à margem da estrutura partidária tradicional, mobiliza seus seguidores (um dos capítulos trata mais especificamente das mobilizações dos 7 de setembro durante o governo Bolsonaro) e mantém a lealdade política de sua base de apoio (os autores se referem ao economista alemão Albert Hirschman (1915-2012) e mais especificamente a sua teoria da lealdade, que formam o que ele chama de cadeias da lealdade “como parte de uma discussão relevante sobre partidos políticos e suas bases”).

O partido digital bolsonarista não é “um conjunto de episódios de atuação mais ou menos coordenado nas redes e sem uma estrutura clássica e padrões de comportamento dos partidos tradicionais”, mas um partido autêntico, organizado, com coordenação e atuação política, tanto nos parlamentos, com seus aliados e/ou representantes, como na sociedade, com intensa inserção nas redes sociais.

Trata-se, portanto, de uma organização política, que atua como partido mas, como afirma Bucci no citado artigo, que “nunca se registrou na Justiça Eleitoral e não presta contas a ninguém. Age como um aparelho influente e centralizado, mas, diferentemente das siglas partidárias, não tem existência oficial nem personalidade jurídica”. E não é “um amontoado de milícias digitais em transe, assim como não é apenas um movimento de redes sociais animadas por influencers ensandecidos, mas um fenômeno de organização profissional e partido amarrado por uma disciplina férrea”.

Existe uma coordenação “que emerge de mecanismos próprios à lógica das redes”, e assim, não se trata de uma organização que disponha, entre outros aspectos, de ferramentas virtuais, de um novo domínio de atuação online, ou seja, apenas de digitalização dos partidos tradicionais, mas de um novo modelo partidário, mas que opera sob a dinâmica das redes. Na realidade, “a internet não é apenas mais um instrumentos de atuação, é o ambiente em que existem e operam”.

E, tratando-se de um partido, mesmo sem registro formal na Justiça Eleitoral, como todos os partidos, visa à conquista não apenas do poder político, institucional, mas nesse caso, o propósito é bem mais amplo, de ir além do poder político institucional e assim, “sua busca se torna uma referência organizada de uma parcela da sociedade que pretende representar e que se identifica como bolsonarista”. E nesse sentido, opera no âmbito do bolsonarismo como ecossistema digital e sua legitimidade se constrói sobre a base da lógica digital.

Há alguns aspectos relevantes para sua compreensão: a forma como opera, quem manda, como se financia, as cadeias de lealdade, como se mobiliza, articula seguidores e engajamento nas redes, como se insere na arena eleitoral (tanto nas disputas eleitorais como na atuação no parlamento dos eleitos com seu apoio) e as hierarquias internas.

Em relação à participação eleitoral, há um capítulo na qual se analisa como o partido digital atua na arena eleitoral, no qual se examina a sua aliança com o PL (com a incorporação do PL ao bolsonarismo, e o apoio a determinadas candidaturas) nas eleições municipais de 2024 e, entre outros aspectos, foi feito um levantamento de dados de investimentos de campanha digital e também na sua atuação na Câmara dos Deputados (há uma lista com os nomes de parlamentares, com perfis distintos, alguns do Centrão, dados eleitorais, comportamento nas redes sociais, etc.).

Com afirmam os autores, o partido digital bolsonarista “hackeia o PL e o tem como caminho prioritário para entrar nas instituições parlamentares e eleitorais”, e o PL se tornou seu hospedeiro preferencial, mobilizando e organizando o ecossistema bolsonarista.

Um aspecto importante salientado no livro é quanto à baixa (ou ausência de) regulação das plataformas digitais, “que possibilita que o partido digital bolsonarista utilizar a infraestrutura de empresas privadas com seu território de atuação” e que, “sem leis que obriguem a transparência de algoritmos ou o controle de fluxos financeiros virtuais, mantém uma estrutura hierárquica e de financiamento que escapa à fiscalização do Estado”.

A questão central, especialmente em um ano no qual haverá uma eleição presidencial, é a de saber qual será seu papel de fato, do poder desse partido (clandestino, no dizer de Bucci), sua influência na decisão do voto – não apenas de seus seguidores nas redes, mobilizados e alimentados constantemente, inclusive com desinformação, mas da ampliação de sua atuação e influência -, enfim, o que essa novidade organizativa na política brasileira, que “se caracteriza por usar os meios digitais de mobilização e comunicação para atuar de modo independente da institucionalidade democrática e de seus princípios”, deve significar como ameaça para a democracia e a sua estabilidade.

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