Afrobetizando: projeto leva ancestralidade e arte periférica para escolas de Natal
Natal, RN 25 de jun 2026

Afrobetizando: projeto leva ancestralidade e arte periférica para escolas de Natal

17 de setembro de 2025
3min
Afrobetizando: projeto leva ancestralidade e arte periférica para escolas de Natal

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O som dos tambores ecoou na manhã desta quarta-feira (17) na Escola Estadual Zila Mamede, no bairro Pajuçara, Zona Norte de Natal. O Batuque de Mulheres do GAMI comandou uma oficina de percussão e uma aula-show repleta de energia, ancestralidade e troca de saberes. A atividade marcou a abertura da 1ª edição do Afrobetizando – Artes da Perifa, projeto que busca fortalecer a implementação das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas brasileiras.

Realizado pela Produtora Mungunzá, o Afrobetizando nasceu, segundo o coordenador Mateus Freitas, da necessidade de tirar essas leis do papel e levá-las de fato para dentro das salas de aula.

“Muitas vezes, o ensino das culturas afro-brasileira e indígena fica restrito a datas comemorativas, quando na verdade elas estão na base da nossa identidade e poderiam dialogar com todas as disciplinas. Como dizia Abdias Nascimento: sem a cultura negra não existiria a cultura brasileira, e o mesmo vale para a indígena”, destacou Freitas.

A programação da edição piloto conta com rodas de conversa, oficinas e apresentações artísticas em duas escolas públicas da capital. Além da atividade realizada na Zila Mamede, o projeto chega nesta quinta-feira (18) à Escola Estadual Imperial Marinheiro, no bairro Nordeste, com pocket show da banda Sourebel e oficina de graffitagem comandada pelo artista LED.

O foco, explica Mateus, é valorizar a arte produzida nas periferias e aproximar as comunidades escolares de suas próprias manifestações culturais.

“Queremos despertar a curiosidade dos estudantes para os legados que herdamos de povos indígenas e africanos e que se refletem na música, na linguagem, na culinária e em tantas dimensões do nosso cotidiano. O Afrobetizando busca também estimular professores a trazerem esses elementos para suas disciplinas”, disse.

Cultura, resistência e desafios

Viabilizado pelo edital “Poeta Blackout”, da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) 2024, o projeto contou com apoio da Fundação Cultural Capitania das Artes (Funcarte), Prefeitura do Natal, Ministério da Cultura e Governo Federal. Para além das atividades nas escolas, a iniciativa também conta com parcerias locais, como o Ponto de Cultura Casa da Vila e a Serigrafia Potiguar.

Apesar do entusiasmo com a execução do Afrobetizando, o coordenador faz questão de lembrar os desafios enfrentados pelos fazedores de cultura das periferias.

“O recurso destinado pelo edital foi muito abaixo do valor de mercado, o que limita bastante a execução dos projetos. Muitas vezes precisamos escolher entre reduzir o impacto da ação ou reduzir nossos próprios cachês, que são fundamentais para a sobrevivência dos trabalhadores da cultura”, comenta Freitas.

PNAB e continuidade

A PNAB é considerada uma das maiores vitórias recentes do setor cultural. Nascida da resistência da classe artística e da derrubada de vetos do governo anterior, a lei garante recursos contínuos para o fomento cultural, com pelo menos 20% destinados a manifestações das periferias.

Para Freitas, embora o avanço seja significativo, ainda há necessidade de repensar os modelos de financiamento.

“A política exclusiva de editais já se mostra limitada diante da grande demanda. Precisamos de novas conquistas para o setor, mas já é uma esperança saber que teremos investimentos constantes nos próximos anos”, completou.

Com essa primeira edição, o Afrobetizando abre caminho para futuras ações formativas que pretendem aprofundar o diálogo entre cultura afroameríndia e escola. A expectativa é que novos formatos e linguagens possam ser incorporados nas próximas etapas, ampliando a consciência crítica e política das juventudes.

“Projetos como este são fundamentais não apenas para fortalecer a identidade cultural local, mas também para mostrar às novas gerações que suas raízes têm potência e valor. É disso que se faz um futuro mais justo e plural”, conclui.

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