Moda dos patinetes elétricos em Natal começa sem planejamento, orientação e fiscalização
Natal, RN 19 de jul 2026

Moda dos patinetes elétricos em Natal começa sem planejamento, orientação e fiscalização

25 de setembro de 2025
13min
Moda dos patinetes elétricos em Natal começa sem planejamento, orientação e fiscalização
Foto: Alisson Almeida

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Os patinetes elétricos compartilhados viraram uma febre desde que o serviço foi lançado no último final de semana pela Prefeitura de Natal, através de uma parceria público privada com a empresa Jet. De acordo com a Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (STTU), a iniciativa “faz parte das ações de incentivo à mobilidade sustentável, alinhada ao Plano Cicloviário de Natal”. No entanto, os primeiros dias da nova sensação que tomou conta da capital potiguar foram marcados pelo uso inadequado dos equipamentos, evidenciando a falta de planejamento, fiscalização e orientação para a população.

O professor do Instituto de Políticas Públicas e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Urbanos e Regionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Fábio Fonseca Figueiredo, pesquisador do tema “Bicicleta e Sociedade e Mobilidade Ativa”, com enfoque no uso das bicicletas no meio urbano, manifestou preocupação com a falta de planejamento na implantação do serviço em Natal.

Patinetes só podem ser usados individualmente, mas flagramos um homem andando com uma criança na Praia de Miami. Foto: Alisson Almeida

Ele se disse especialmente preocupado com a questão da segurança viária, uma vez que os equipamentos estão sendo usados de forma inadequada, sem nenhuma orientação à população e sem nenhuma fiscalização da STTU.

O professor lembrou que já ocorreram acidentes envolvendo usuários de patinetes na cidade, por isso defendeu, como medida preventiva, a redução do limite de velocidade dos equipamentos, que atualmente é de 20 km/h.

“Nem todo mundo tem destreza e habilidade para usar os equipamentos. As rodas são pequenas, então você não tem como fazer um giro mais rápido caso necessite. A velocidade, talvez, devesse diminuir de 20 km/h para 10 km/h. Isso talvez facilitasse”, opinou.

Professor da UFRN defende “uso mais consciente” dos patinetes elétricos para evitar acidentes. Foto: Alisson Almeida

“Uma campanha educativa poderia ajudar bastante quanto ao uso mais responsável dos patinetes para que se evite acidentes. A gente não pode esquecer que, em média, 8% dos recursos do orçamento público federal para o SUS são gastos com atropelamentos. A gente não quer, obviamente, que mais pessoas se acidentem e esse gasto aumente”, ponderou.

Para o professor, a “modinha” dos patinetes “vai passar” em breve. Ele disse acreditar que, com o tempo, as pessoas usarão os equipamentos de forma “mais consciente”, o que na opinião dele “poderá de fato ser útil para a micromobilidade, embora não vá resolver o problema, sobretudo nos bairros mais periféricos da cidade”.

Vi verdadeiras aberrações pela cidade”, denuncia professor

“Pedalando pela cidade na segunda-feira [22], eu vi algumas aberrações, como estão aparecendo aí nas redes sociais. As pessoas andando de patinetes na contramão, em alta velocidade, em pleno horário do pico, em todos os cantos de Natal”, alertou.

O professor contou que também testemunhou usuários andando com os equipamentos nas calçadas, além de abandonarem os patinetes nesses “poucos e mal conservados espaços que temos em Natal”.

“A Prefeitura deveria fazer uma campanha educativa urgentemente, em todas as mídias, falando sobre a importância desses equipamentos para a micromobilidade urbana da cidade, mas alertando para o uso responsável desses patinetes”, cobrou.

Para ele, a novidade é “interessante”, “engraçadinha”, mas, apesar de serem anunciados como alternativa para a mobilidade sustentável, os patinetes funcionam com baterias que, após descarregadas, precisam ser recolhidas.

“Tem algum plano para recolher as baterias? Como é que isso vai acontecer? Não sei se isso está no documento da parceria público privada da Prefeitura de Natal com a Jet”, ponderou.

Nas redes sociais, pessoas compartilham relatos de uso irregular dos patinetes

Um usuário postou foto com dois patinetes em casa. Foto: Reprodução Redes Sociais

Nas redes sociais, circularam vídeos, fotos e outros registros de uso irregular do serviço, como pessoas publicando imagens com os patinetes em casa, abandonando os equipamentos no meio de algumas vias da cidade e jovens fazendo disputa de salto em dupla com os aparelhos elétricos na Praia de Miami.

Outro registro que viralizou nas redes sociais foi o de um patinete abandonado em cima de uma parada de ônibus da cidade. A reportagem da Agência Saiba Mais também flagrou pessoas fazendo manobras arriscadas, disputando espaço com carros, motos e ônibus no meio do trânsito e adultos compartilhando os patinetes com crianças.

Patinete foi deixado em cime de parada de ônibus em Natal. Foto: Reprodução Redes Sociais

A STTU informou, através da assessoria de imprensa, que está “realizando o trabalho de orientação aos usuários dos patinetes junto com a equipe da Jet”. De acordo, ainda, com a pasta, o uso dos patinetes deve respeitar as regras de trânsito e convivência no espaço público.

O usuário, além de ser maior de idade, não pode transportar cargas, passageiros ou animais e deve estacionar os equipamentos nos pontos indicados pelo aplicativo. É proibido também o uso sob efeito de álcool.

A Prefeitura de Natal informou que os equipamentos estão sendo usados “em fase experimental” de 120 dias. Os patinetes, segundo reforçou a titular da STTU, Jódia Melo, só podem ser usados individualmente, em ciclovias, ciclofaixas ou ciclorrotas.

Equipamentos, segundo a STTU, só poderiam ser usados em ciclovias, ciclofaixas e ciclo rotas, mas, na práticas, as pessoas estão utilizado os patinetes sem nenhuma fiscalização. Foto: Mirella Lopes

A secretária disse, ainda, que os equipamentos contam com rastreamento através de GPS, freios, campainha e faróis de LED, atendendo aos requisitos de segurança. Ela reforçou que os patinetes só podem ser retirados e devolvidos em pontos mapeados no aplicativo da Jet.

“Existe uma rota já pré-determinada autorizada e, na hora que se sair dessa rota, o patinete vai travar por medida de segurança”, explicou.

Jet promete banir “infratores” que cometerem “atos de vandalismo”

A Jet, em nota oficial, informou que mantém uma equipe de monitoramento e de instrutores, responsáveis pela verificação dos equipamentos e orientação dos usuários sobre as regras de trânsito.

“Vale ressaltar que a operação iniciou na cidade nesta semana e que a empresa alinha com o poder publico as estratégias para ações preventivas de educação no trânsito”, diz trecho da nota.

A empresa também afirmou no comunicado que “fará a devida apuração a fim de reaver os veículos” e banir do serviço os “infratores” que realizarem “atos de vandalismo ou ocorrências de má-fé”, como a revenda dos patinetes.

Adalberto Alves, gerente da Jet em Natal. Foto: Alisson Almeida

O gerente da empresa em Natal, Adalberto Alves, confirmou as ocorrências de uso irregular dos equipamentos, disse que os patinetes abandonados fora dos pontos oficiais de estacionamento foram recuperados sem nenhuma avaria e minimizou situações como pessoas que levaram os patinetes para casa.

“Elas levam só para gravar o vídeo para as redes sociais, mas depois devolvem”, contou, reforçando que os locais corretos para devolver os equipamentos são os mais de 400 pontos de aluguel e de estacionamento, indicados no aplicativo da Jet, que estão espalhados em todas as zonas de Natal.

No total, 600 patinetes elétricos foram disponibilizados para aluguel em Natal. Adalberto disse que a aceitação do serviço pela população tem sido muito grande, reconheceu que as pessoas estão usando inicialmente mais para o lazer, mas ressaltou que os patinetes são de fato uma alternativa de mobilidade para distâncias curtas.

Pessoas aguardando a liberação de um patinete na Praia de Miami. Foto: Alisson Almeida

Ele também explicou que, nos horários de pico, a velocidade dos equipamentos foi reduzida para 15 km/h, disse que a empresa mantém uma equipe de monitoramento nos principais pontos da orla da cidade e informou que o aluguel dos equipamentos pode ser feito durante 24h através do aplicativo da Jet.

Adalberto também esclareceu que, pelo aplicativo, o usuário pode visualizar as áreas cidade em que é permitido circular com os patinetes. Quando a pessoa sai dessa rota pré-determinada, o sistema dispara um alarme e a equipe de segurança da empresa faz o recolhimento do equipamento.

Pessoas disputam patinetes na Praia de Miami

A empreendedora Daiane Richlema feliz da vida após conseguir alugar o patinete elétrico para dar sua primeira volta. Foto: Alisson Almeida

A empreendedora Daiane Richelma, moradora do bairro de Cidade Nova, era uma das dezenas de pessoas que disputavam um patinete elétrico na noite da última quarta-feira (24) na Praia de Miami.

Ela disse que seria a primeira vez que usaria o patinete elétrico, porque achou que os erviço era “algo legal, interativo e uma boa opção de lazer para passar o tempo”.

“É a nova moda agora em Natal”, disse, admitindo que tinha sido influenciada pela sensação que tomou conta da cidade na última semana.

“Estou com um pouquinho de medo, mas vou assim mesmo”, contou, enquanto aguardava a liberação de um patinete para dar suas primeiras voltas.

Os amigos João Victor e Maria também foram conhecer a novidade que virou febre em Natal. Foto: Alisson Almeida

A estudante de enfermagem Lourdes Maria, moradora do Tirol, também usou o patinete elétrico pela primeira vez. Ela contou que, quando soube da nova moda na cidade, não entendeu direito como funcionava, mas resolveu conhecer.

“Vim pela vontade de conhecer uma coisa diferente que veio para a nossa cidade. Estava todo mundo usando, aí me despertou a curiosidade e vim conhecer com meus amigos”, relatou, confessando que, no início, teve um “pouquinho de medo”, mas com a prática ficou tranquila.

João Victor, amigo de Lourdes Maria, morador de Capim Macio, também experimentou o patinete pela primeira vez. Ela contou que a sensação de andar no equipamento pela orla, sentindo o vento no rosto, “foi libertadora”.

Assim que chegaram mais patinetes, as pessoas correram para tentar alugar um equipamento. Foto: Alisson Almeida

Além dos personagens ouvidos pela reportagem, dezenas de pessoas aguardavam a liberação de um patinete para dar uma volta no calçadão da Praia de Miami. Famílias inteiras, vindas de todas as regiões da cidade, esperavam a vez de estrear nos patinetes elétricos.

Quando um carro da empresa chegou com mais patinetes, as pessoas correram para tentar desbloquear o equipamento, mas muita gente se frustrava porque, rapidamente, alguém conseguia reservar antes pelo aplicativo da Jet.

Os primeiros passos para usar os patinetes

Para começar a usar patinetes, é preciso primeiro baixar e fazer um cadastro no aplicativo da Jet. Foto: Alisson Almeida

Para usar o serviço, o primeiro passo é fazer um cadastro no aplicativo da Jet, que pode ser baixado pela Play Store ou pela App Store. É possível fazer o download também escaneando o QR Code, fixado no painel dos patinetes, usando a câmera do celular.

Feita a instalação e o cadastro no aplicativo, a pessoa precisa escanear novamente o QR Code para alugar o patinete. A luz verde indica que o equipamento está disponível para uso, a lilás sinaliza que o aparelho está reservado, a vermelha significa que o veículo está em manutenção técnica e a amarela é um alerta para indicar que a pessoa está transitando fora da área permitida.

A tarifa inicial de desbloqueio é de R$ 1,99 nos dias úteis, mas nos finais de semana o custo aumenta para R$ 2,99, além de cobrança adicional por minuto, que varia de R$ 0,54 a R$ 0,89.

A pessoa também pode fazer a assinatura mensal de R$ 14,99, que isenta o usuário de pagar a taxa de desbloqueio cada vez que ele quiser usar o patinete.

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