Professor da UFRN alerta que patinetes não solucionarão “mobilidade ativa” em Natal
A Prefeitura de Natal implantou, desde o último domingo (21), o serviço de patinetes elétricos compartilhados na cidade, ainda em fase experimental, como parte das “ações de incentivo à mobilidade sustentável” na capital. Os 600 equipamentos, adquiridos através de uma parceria público-privada com uma empresa que opera na área, foram disponibilizados em diferentes pontos, como as praias do Meio, Miami e Ponta Negra. O professor do Instituto de Políticas Públicas e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Urbanos e Regionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Fábio Fonseca Figueiredo, pesquisador do tema “Bicicleta e Sociedade e Mobilidade Ativa”, com enfoque no uso das bicicletas no meio urbano, avalia que a iniciativa, como instrumento de recreação, é “interessante”, mas que não é a solução para solucionar a “mobilidade ativa” – aquela que não depende de veículos motorizados.
“A expectativa de que a mobilidade ativa, aquela que não depende de veículos motorizados, seja solucionada por patinetes elétricos é, na minha visão, equivocada”, observa.
Após o anúncio do início do serviço pela Prefeitura de Natal, surgiram críticas nas redes sociais apontando a falta de infraestrutura adequada na cidade para o uso dos patinetes elétricos, como falta de calçadas padronizadas, a deficiência das ciclo estruturas e a violência no trânsito.
“Natal possui atualmente 90 km de ciclovias, ciclofaixas, ciclorrotas. Apesar dessa quantidade de quilômetros que está a um nível intermediário em relação às demais capitais do Brasil, eu considero ciclo estruturas bastante deficientes”, ressaltou.
O professor apontou três aspectos que contribuem para essa deficiência: a falta de conservação, a falta de iluminação e a recente expansão da construção de ciclo estruturas em lugares que não são rota para os ciclistas.
Ele demonstrou preocupação com a implantação da novidade sem o devido planejamento, além da falta de orientação à população sobre o uso do equipamento. O professor manifestou preocupação, especialmente, com a segurança viária, em razão da velocidade máxima permitida para os patinetes em Natal.
“Aqui em Natal, a velocidade máxima permitida será de 20 km/hora. É uma velocidade absurda, porque, se você cair num buraco, se chocar com alguém ou colidir com um ciclista, por exemplo, pode causar lesões graves. A velocidade deveria ser reduzida a, no máximo, 12 km/hora”, analisa.
Fábio faz uma analogia com um pedestre que, normalmente, caminha a 4 km/hora: “Imagine, se você multiplicar isso por três, a pessoa vai andar a 12 km/hora. É uma velocidade muito elevada, mais ainda em um patinete, porque existe o risco de queda. Então, não sei até que ponto foi pensada a segurança viária nesse projeto, levando-se em conta a topografia da nossa cidade, se essa quilometragem se sustenta ou não aqui em Natal”, sublinha.
Saiba Mais: Natal recebe Semana da Mobilidade Ativa de 22 a 27 de setembro
Mulher se acidentou com patinete na Av. Jaguarari
Na tarde de segunda-feira (22), uma mulher se acidentou ao cair de um patinete elétrico após perder o equilíbrio quando trafegava pela Av. Jaguarari. De acordo com informações do “Via Certa Natal”, ela sofreu um corte no queixo, reclamou de dores no punho e foi socorrida por uma amiga. Ela foi levada para o Hospital Walfredo Gurgel.
Um fiscal da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (Semob), antiga STTU, alertou que é preciso “ter um pouco de conhecimento” para usar os patinetes elétricos, lembrando que são equipamentos automáticos, com uma velocidade controlada, mas que requerem alguns “pré-requisitos”.
O professor Fábio Fonseca reiterou que é preciso “estimular a mobilidade ativa” na cidade, mas que os patinetes elétricos não são instrumentos para isso, justamente pela falta de estruturas adequadas na cidade.
“É fundamental estimular as pessoas a adotar a mobilidade ativa, mas os patinetes, por si só, não são os instrumentos que dinamizarão essa mudança, justamente pela ausência de infraestrutura”, analisa.
O professor pondera que a finalidade dos patinetes se restringirá basicamente ao uso turístico, o que, embora seja uma iniciativa válida, não mudará a dinâmica da mobilidade urbana de Natal.
“Para isso, seria necessário um planejamento abrangente, com investimentos em infraestrutura, campanhas publicitárias eficazes e ações de longo prazo. Acredito, infelizmente, que essa transformação não ocorrerá tão facilmente”, completa.
Fase experimental durará 120 dias
A fase experimental do uso dos patinetes elétricos, segundo a STTU, durará 120 dias. A secretária Jódia Melo disse que os equipamentos só podem ser usados individualmente por maiores de 18 anos, em ciclovias, ciclofaixas ou ciclorrotas.
A Prefeitura de Natal informou que os equipamentos contam com rastreamento através de GPS, freios, campainha e faróis de LED, atendendo aos requisitos de segurança. Jódia Melo disse, ainda, que os patinetes só podem ser retirados e devolvidos em pontos mapeados no aplicativo.
“Existe uma rota já pré-determinada autorizada e, na hora que se sair dessa rota, o patinete vai travar por medida de segurança”, explicou.
O uso dos patinetes, ainda segundo a STTU, deve respeitar regras de trânsito e convivência no espaço público. O usuário, além de ser maior de idade, não pode transportar cargas, passageiros ou animais e deve estacionar os equipamentos nos pontos indicados pelo aplicativo. É proibido também o uso sob efeito de álcool.
A pasta assegura que haverá equipes treinadas nos principais pontos da cidade para reforçar a orientação, auxiliando os usuários quanto ao uso correto dos equipamentos. Além disso, todas as viagens incluem seguro gratuito contra acidentes.