A política e os papangus
Natal, RN 8 de jun 2026

A política e os papangus

27 de outubro de 2025
6min
A política e os papangus
Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

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O advento das redes sociais, além de expor o que o ser humano tem de mais terrível e revelador, trouxe à tona, no campo da política, figuras que se tornaram, da noite para o dia, expoentes no ato de aparecer, não importando como nem quando; muito menos onde trabalhar essa hiperexposição e de que forma se conduzir com as consequências que esse ato promove no cotidiano da sociedade.

          Esses dias, ouvi de um prefeito de capital, uma declaração em que ele justifica o seu estilo de trabalhar e conduzir os destinos da cidade, com uma crítica velada a determinadas figuras políticas que abusam da auto exposição. Disse o prefeito: “eu não preciso estar dando cambalhotas na internet, nem dando pulinhos para mostrar o resultado do meu trabalho”.

Essa declaração retrata, além da crítica a certas posturas de alguns gestores, características de determinados políticos que passaram a ter na internet a sua maior fonte de informação e exposição, não se preocupando com o estabelecimento da verdade, nem muito menos com o compromisso em bem informar, na grande maioria do que postam na internet.

Passou a ser comum ver nas redes sociais, cidades deslumbrantes, com seus gestores mostrando obras fantásticas e o povo feliz. Criando assim, uma imagem nas pessoas que assistem aquilo, uma compreensão da realidade que, na maioria das vezes, não é efetivamente o que o cidadão daquele lugar vive em seu cotidiano. Os prefeitos instagramáveis e suas cidades de ilusão povoam o universo das redes sociais que os transformam em verdadeiros “pop stars” de uma chamada nova política. Nova na forma de se apresentar, mas tão antiga na condução dos seus atos. Na verdade, tudo mais do mesmo.

 Além desses gestores, existem os legisladores que usam as tribunas do congresso nacional, das assembleias legislativas e das câmaras de vereadores pelo Brasil a fora, muito mais para aparecer como um ser moderno e antenado às novas tecnologias, do que trabalhar e conduzir com seriedade, ética e eficácia a atividade parlamentar em seu conjunto mais elementar.

Os espetáculos promovidos por essas figuras que emergiram na cena política como antipolíticos, vão desde discursos absurdos, misóginos, preconceituosos, como se a imunidade parlamentar fosse passaporte para o cidadão falar sem filtros, nem respeito, até desfiles com enormes bíblias abertas e gritando palavras impronunciáveis pelo plenário da câmara dos deputados, na comemoração de uma votação que em nada dizia respeito a sociedade e muito a interesses de um pequeno, barulhento mas organizado grupo, por exemplo.

Sem falar na necessidade que eles têm em expor nas redes sociais todo tipo de absurdo   simplesmente em busca de likes e votos, reafirmando o que o filósofo italiano Humberto Eco trouxe no raciocínio lá em 2015, de que “as redes sociais deram voz a uma legião de idiotas”. Muito além das redes sociais, a idiotização de parte da sociedade ganhou vez e voz com uma legião de políticos que, se aproveitando da ignorância e da ingenuidade de grande parte da população, passaram a defender pontos de vistas os mais absurdos, e até pouco tempo atrás, impensáveis de assistirmos nas tribunas das casas legislativas do país.

As figuras folclóricas que antigamente apareciam, aqui e acolá na política, deixaram de ser minoria e passaram a ter mais força e evidência na mídia e fora dela, graças a capacidade de amplitude que as redes sociais trouxeram como marca de um espaço pseudodemocrático.

Os papangus – não aquelas figuras tradicionais do carnaval de Bezerros, em Pernambuco, a quem devoto admiração, mas sim essas figuras que extrapolam o bom senso e os princípios da boa política em troca de likes e seguidores, estão espalhados pelo Brasil como a verdadeira representação política da nossa sociedade. Infelizmente é triste, mas verdadeira a constatação: vivemos numa sociedade adoecida, onde o grotesco, o ridículo, a falta de pudor, o  ódio e o escatológico se transformaram em atividades corriqueiras, em detrimento do debate sério, da discussão em profundidade dos grandes temas que o país enfrenta.

Para termos essa constatação, basta assistir a uma sessão de uma casa legislativa, em qualquer lugar do Brasil, mas o mais grave é assistir atualmente as sessões da câmara dos deputados e do senado. São espetáculos recheados de inverdades, narrativas criadas para atender a interesses de grupos – por sinal, a divisão do congresso em bancadas é uma típica deformação da política que beneficia a uns poucos em detrimento da imensa maioria da sociedade – cuja verdade, o respeito à sociedade, por exemplo, fica em terceiro plano e cada vez mais distante das reais expectativas do povo brasileiro.

A CPMI do INSS é o mais novo palco para a superexposição dos papangus da política. Longe de se aterem ao foco principal que é o roubo a milhares de aposentados, promoverem questionamentos e direcionamentos efetivos contra os larápios, a maioria dos integrantes da comissão, usa as sessões para promoverem os maiores absurdos que se possa imaginar, abusando de forma escancarada e muitas vezes debochada da imunidade que a eleição ao cargo lhes proporciona.

Os papangus da política estão ainda mais ativos. Principalmente nesse período que antecede eleições gerais no país. E podem ter certeza, eles continuarão a surgir, vendendo ilusões e deixando a cena política ainda mais paupérrima. Infelizmente. E aí, o que podemos fazer? Eu acho que muito. Só depende de nós.

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