Em Natal, Liniker fala sobre negritude, afeto e a força do Nordeste em sua música
A primeira atração confirmada do MADA 2025, Liniker chegou a Natal carregando o frescor e a densidade de quem vem trilhando um dos percursos mais marcantes da música brasileira contemporânea. A artista paulista, indicada em sete categorias no Grammy Latino deste ano, incluindo Álbum do Ano por Caju, Canção do Ano por Veludo Marrom e Gravação do Ano por Ao Teu Lado, apresentou um show potente e delicado, que reafirmou seu lugar como uma das vozes mais expressivas da negritude brasileira.
Nos bastidores do festival, Liniker conversou com a Agência Saiba Mais sobre a discussão que tomou as redes: afinal, Caju é um disco pop? A pergunta, que poderia soar superficial, revela uma camada profunda sobre quem tem o direito de ser considerado “popular” num país ainda atravessado por marcadores de raça e classe.
“Ser pop é tocar o coração das pessoas populares. É atravessar limites, chegar onde as barreiras sempre foram muito expostas pra gente”, diz Liniker, com a serenidade de quem sabe o peso e a beleza da própria trajetória. “Caju é pop, mas também é tudo o que ele quiser ser, porque é um disco de música. Eu não quero estar presa dentro de um limite, quero experimentar.”
A resposta de Liniker parece desmontar, com doçura e firmeza, a lógica que tenta enquadrar artistas negros em subgêneros, negando-lhes o estatuto da “música pop”, ainda tratado como um espaço reservado à branquitude. “Toda vez que eu chego num lugar, sinto que tentam me colocar numa caixa”, ela afirma. “Mas Caju é um disco que subverte isso. É sobre experimentar, confundir, expandir.”
Grammy Latino
O reconhecimento da crítica e da indústria veio com força após o lançamento de seu último disco: sete indicações ao Grammy Latino. Mas Liniker encara o feito com a calma de quem está presente no próprio processo.
“É muito doido, porque é novíssimo. Mesmo já tendo ganhado uma vez, é a primeira vez que concorro nas categorias principais. Eu sei que essa vitória não é sozinha, é uma vitória que carrega um país, uma comunidade, minha história, minha família. Eu tô feliz e consciente de que esse momento tá acontecendo agora.”
A 26ª edição da cerimônia do Grammy Latino será realizada na quinta-feira, 13 de novembro, na MGM Grand Garden Arena, em Las Vegas (EUA). A artista, que também vai se apresentar na premiação, diz que tem buscado viver a plenitude desses ciclos, sem pressa e sem a urgência que o mercado impõe.
“O que eu tinha que fazer, eu já fiz: o trabalho, o disco. Agora é aproveitar, estar lá, cantar, me divertir.”
A música nordestina que influencia
No palco do MADA, Liniker reafirmou o quanto o Nordeste tem atravessado sua sonoridade e afetividade. Caju traz nuances rítmicas e parcerias que ecoam o Brasil profundo, e a artista reconhece o quanto estar nessa região a reconecta com o país que a inspira.
“Pra além de ser produtora, eu sou pesquisadora. Eu gosto de ouvir música, de me expandir. As viagens que fiz nesses dez anos de carreira mudaram meu gosto musical. Conhecer artistas do Norte e do Nordeste me abriu pra uma riqueza que é abrangente, generosa. E ter essa certeza de que nada acontece só no Sudeste é libertador.”
Liniker cita nomes como Priscila Senna e Amaro Freitas, com quem tem trocado e aprendido sobre as pluralidades do país. “É muito importante estar no Brasil, me relacionando com as coisas do Brasil”, resume.
Próximos passos
Mesmo com o sucesso, Caju ainda pulsa em processo. O álbum, lançado há pouco mais de um ano, segue sendo desdobrado em videoclipes e performances audiovisuais.
“Caju ainda tem uma história a ser contada. Desde o início, eu disse que não queria essa urgência das coisas. Mesmo o disco tendo um ano, ainda tem muito a viver. A ideia é seguir com as 14 faixas transformadas em filme, mas com generosidade comigo, respeitando o tempo das coisas.”
Ao final da conversa, Liniker sorri com a serenidade de quem faz da própria arte um gesto político de permanência e sensibilidade. Entre o calor da plateia nordestina e a expectativa do Grammy, ela segue desafiando categorias, rótulos e fronteiras. Caju é pop, é preto, é plural, e é o que quiser ser.
Confira seu último videoclipe lançado: