Geração saudosa dos anos 80 não sabe se envelheceu ou ainda é ‘boy’
Natal, RN 10 de jun 2026

Geração saudosa dos anos 80 não sabe se envelheceu ou ainda é 'boy'

14 de outubro de 2025
4min
Geração saudosa dos anos 80 não sabe se envelheceu ou ainda é 'boy'

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Sim, caro leitor e cara leitora, questões geracionais são uma obsessão temática minha, admito e faço mea culpa. Mas, entre textos semanais e demônios internos, qual o cronista que não se repete. Sei que deveria falar em política nacional, Trump, acordos em Gaza, mas movido pelas falas e posturas de gente querida e por minhas próprias idiossincrasias lá vou eu abordar questões que envolvem como a geração que nasceu nos anos 70 e foi adolescente nos anos 80, percebe as coisas.

Como se sabe, cinquentões e sessentões, em larga escala, são nostálgicos. Na verdade, mais que isso. Muitos estão presos a um passado idealizado onde supostamente tudo era melhor. As cidades, os filmes, o futebol, os bares, tudo melhor antes do que hoje. Principalmente a música. Para muita gente querida da minha idade (tenho 5.4, nascido em 1971) a música só tinha qualidade até Scorpions e Titãs. Ainda que hoje tenhamos Liniker, Otto, Almério, Céu, bandas de rock independentes, para os saudosistas hoje só existe “música ruim”.

É folclórico e engraçado, mas também preocupante. Não estar sintonizado com o espírito da época traz problemas e isola a pessoa. Não à toa muita gente querida com essa postura dialoga de forma ruim com filhos e netos. Já abordei este tema específico em outros textos. Hoje pretendo, com bom humor, confesso, me deter em uma contradição do posicionamento dessa moçada (ou deveria dizer velharada?): da indecisão sobre postura etária.

Explico: parte desse pessoal, principalmente entre o Clube do Bolinha, quer ser “boy”, para usar um termo bem potiguar. Ou seja, se veste de maneira, digamos, jovial, entre o esportivo e o informal. Investe em implante capilar (calvície é coisa de idoso), faz a barba para que ela não se mostre embranquecida. Paga de descolado em barzinhos e restaurantes e não raramente tenta se mostrar para as “novinhas”.

Contudo, quando abre a boca, muitas vezes parece que o cidadão está em plenos anos 70 da Guerra Fria. Anacronismos diversos, preconceitos internalizados e não resolvidos, falta de sintonia com as mudanças acontecidas no jogo social de décadas para cá. O mundo mudou. E não apenas nas técnicas de evitar a calvície.

Ou seja, nosso ‘boy’ cinquentão tem alma de idoso puritano mesmo. Que gosta do bônus da modernidade (internet, redes sociais, aplicativos, dinâmica social acelerada) mas não lida com o, digamos, ônus (entender que o mundo mudou também em outros aspectos). Não cola posar de jovial e se indignar com as letras acrescidas na nomenclatura LGBTQIA+ ou se chocar quando uma pessoa jovem simplesmente afirma ser não-binária.

Aliás, também existe uma contradição no fato destes cinquentões-joviais (pelo menos na aparência) tantas vezes investirem na fachada e manterem hábitos antigos, sendo os mesmos e vivendo como nossos pais (como cantava Elis Regina na música de Belchior).

Por falar tanto em anos 80, lembrei enquanto escrevia essas mal traçadas linhas do “Tio da Sukita”, do comercial de refrigerante, o coroa que se encantava com a jovem em um elevador e a cada encontro casual mudava as roupas, cabelo, estilo para parecer “mais jovem”. Eu morria de medo de virar um Tio da Sukita. Hoje acho graça quando vejo um deles, digamos, em ação.

Talvez esse azedume seja uma mostra de que eu mesmo não sou tão jovial quanto penso e que minha ranzinzice é tão aguda quanto a desse pessoal que eu ironizo. Vai saber. Por vezes me pego sendo o mesmo e vivendo como meus pais. Mas é necessário nos conectarmos com a época em que vivemos, lembrando que o termo “na minha época” tão usado pelos cinquentões/sessentões, é um equívoco baseado na percepção de que o período da juventude era superior a hoje por ele próprio, e não porque justamente éramos jovens. Ou seja, uma sensação interna, não coletiva. Para nossos pais, “a minha época” eram os anos 50 e 60 e eles deviam ter dificuldade em assimilar cultura e postura dos anos 80. Lembro até hoje do susto de minha mãe quando coloquei no som de casa o disco “Cabeça dinossauro” dos Titãs.

Enfim, como escreveu Vinícius de Moraes, meu tempo é quando.

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