Quando foram anunciadas pela Fifa as novidades para a Copa do Mundo de futebol 2026, nos EUA, Canadá e México, eu, que sempre fui fascinado (para não dizer obcecado) pelo torneio, levei um banho de água fria. Aumento de 32 seleções para 48, portanto, de 8 grupos para 12, com a famigerada volta dos melhores terceiros colocados passando para a outra fase (não mais as tradicionais oitavas de final, mas 16avos de final, chamadas de playoffs). Enfim, um horror. Mas eu desconfiava que poderia ser pior.
Os EUA têm experiência em sediar grandes eventos esportivos e receberam a Copa de 1994, aquela em que o Brasil de Romário e Bebeto foi tetracampeã, sem maiores percalços a não ser o sol escaldante. Mas eram outros tempos. O presidente estadunidense à época era Bill Clinton, aquele com cara de galã e fama de mulherengo que quase perdeu o mandato devido a um charuto com Monica Lewinski no Salão Oval da Casa Branca.
Hoje os EUA vivem uma espécie de governo autoritário, com Trump impondo suas leis rigorosas antiimigração e desrespeito aos direitos básicos, além da agressão quase diária a outros países e povos. Imaginamos, ou torcemos, que esse estado de coisas não afetaria a Copa do Mundo, que ficaria a cargo da Fifa. Engano.
Antes mesmo do torneio começar vemos a Ditadura Trump em ação, com autoritarismo e abusos. O fotógrafo oficial da seleção do do Iraque foi impedido de entrar nos EUA após 13 horas de interrogatório e deportado sem explicações de volta para casa. O principal atacante iraquiano foi submetido a 7 horas de interrogatório. A seleção do Irã foi impedida de ficar nos EUA, tendo que entrar em território americano para jogar e sair imediatamente após os jogos para a concentração no México. O melhor árbitro africano, um somali, foi simplesmente impedido de entrar no país e deportado. Torcedores iranianos com ingressos já comprados tiveram seus vistos de entrada negados. Jogadores do Senegal, alguns deles super craques que jogam em times de ponta na Europa, humilhados sendo revistados na pista do aeroporto.
Como o previsto, a Copa nos EUA começa como uma sequência de abusos de acordo com as antipatias e neuras da gestão Trump. E com as vítimas sendo sempre de origem árabe, africana ou pessoas pretas. É um projeto de governo, estendido a um torneio de futebol. Uma vergonha a Fifa se submeter a isso, com seu presidente, Gianni Infantino se curvando a esse vexame sendo sabujo do presidente americano.
Lembrando que no Brasil, em 2014, a Fifa não permitiu que o governo brasileiro em nada se intrometer na realização do torneio. E que em 2018 e 2022, muita gente criticou a escolha das sedes Rússia e Catar, pelos desrespeitos aos direitos humanos. Contudo, em relação às seleções e torcedores, jornalistas e jogadores não houve nenhum incidente ou restrição.
Ninguém torce para um evento do porte de uma Copa do Mundo dar errado, mas as evidências nos levam a crer que teremos um mês de abusos, problemas e desrespeitos.
Havia planejado às vésperas deste torneio escrever um texto lúdico sobre minha relação com o torneio, derna a mitológica Copa de 1982, minha primeira copa, aos 11 anos, quando chorei junto com o Brasil de Sócrates, Zico e Falcão perdendo para a brava Itália de Paolo Rossi que até aquela partida (onde fez os três gols italianos) não havia feito um gol sequer.
Mas os tempos não são de coisas lúdicas. Também não são tempos de aguentar gente dizendo que futebol e política não tem nada a ver e não devem ser misturadas. Trump já colocou essa Copa como pauta política. Será quase impossível não assistir às partidas sem esperar algum acontecimento geopolítico. Como a possibilidade de, nas oitavas de final, termos um confronto entre EUA x Irã, países que estão em conflito bélico.
Ou ainda a suprema ironia da França ganhar a Copa e Trump, como presidente do país sede, ter de entregar a taça para o capitão Kyllian Mbapeé, homem negro filho de imigrantes camaronês e argelina, conhecido por criticar a extrema-direita. Como disse o mestre uruguaio Eduardo Galeano, dentre as coisas desimportantes, o futebol é a mais importante.