Por Rômulo Sckaff
O debate sobre o Pix precisa sair da superfície. Não se trata apenas de dinheiro, de taxa ou de arrecadação. A questão central é a informação.
O Pix reorganizou a forma como o dinheiro circula no Brasil, mas também reorganizou quem enxerga essa circulação. Antes, boa parte dos dados sobre consumo, pagamento e comportamento econômico passava pelas grandes empresas financeiras, pelas bandeiras de cartão, pelas maquininhas e pelas big techs do dinheiro.
Com o Pix, parte importante dessa informação deixou de circular por esses intermediários privados e passou a ficar concentrada no sistema público de regulação financeira, especialmente no Banco Central.
É por isso que o incômodo é maior do que parece. O problema para alguns setores não é o Pix ser gratuito, rápido ou popular. O problema é que ele reduziu a dependência brasileira de estruturas privadas internacionais que sempre lucraram com cada transação e, ao mesmo tempo, acumulavam dados preciosos sobre o consumo da população.
Quando a oposição tenta transformar o Pix em ameaça, dizendo que ele será taxado ou usado contra o povo, ela esconde outro debate. O Pix não precisa passar pelas bandeiras norte-americanas para funcionar. E é exatamente aí que mora parte da disputa.
Para esses setores, recolocar o Pix dentro da lógica das bandeiras internacionais significaria devolver às grandes empresas financeiras o acesso privilegiado às informações sobre nossas compras, nossos hábitos e nossos caminhos econômicos.
O discurso da taxa é uma cortina de fumaça. Taxar o Pix não está em discussão como querem fazer parecer. E mesmo que um dia houvesse algum tipo de cobrança regulatória, esse dinheiro não iria para a terra do Tio Sam. Ficaria dentro do sistema financeiro brasileiro, sob regulação nacional.
A pergunta verdadeira é outra.
Quem deve controlar as informações sobre a economia cotidiana do povo brasileiro?
O debate sobre o Pix não é apenas sobre pagar ou não pagar taxa. É sobre soberania tecnológica, soberania financeira e soberania sobre os dados de consumo de milhões de brasileiros.
Precisamos pensar para além do discurso fácil. O Pix não incomoda porque tira dinheiro do povo. Ele incomoda porque tirou poder de quem sempre ganhou dinheiro observando, intermediando e controlando os caminhos do nosso consumo.
Pix para além das taxas