“Nossa loucura quer passar”: Protesto em Natal pede resgate da rede psicossocial
Por Eduarda Catunda, especial para a Agência SAIBA MAIS
Pacientes, movimentos sociais, professores, mandatos populares e estudantes ocuparam a praça Pedro Velho (Praça Cívica), nesta sexta-feira (17), em um ato público pela reabertura imediata do Centro de Atenção Psicossocial Dr. André Luís (CAPS III da Zona Leste).
A data do protesto não foi escolhida por acaso. 17 de outubro é reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como o Dia Mundial da Saúde Mental.
A manifestação foi organizada pela Associação Potiguar Plural e teve como palavra de ordem “Sai da frente com seu preconceito do meio, nossa loucura quer passar! CAPS aberto já”, sublinhando que o debate sobre saúde mental transcende campanhas sazonais como o Setembro Amarelo, sendo uma demanda constante por política pública e atenção integral.
A Crise do CAPS III Leste

O CAPS III da Zona Leste é um ponto importante na Rede de Atenção Psicossocial da capital potiguar, uma vez que é um serviço de atenção contínua, 24 horas, e está focado em acolher pessoas em intenso sofrimento psíquico, incluindo aquelas com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas.
Antes do fechamento, a unidade atendia cerca de duas mil pessoas por mês em Natal.
As falas emocionadas das pessoas que participaram do ato público revelam o impacto direto da interrupção do serviço.
Conceição, 61, dona de casa, destacou o valor do acolhimento oferecido:
“A capacidade de acolhimento é incrível, os profissionais da equipe multidisciplinar conhecem os pacientes pelo nome. É uma riqueza! precisamos do CAPS 3 Leste aberto!”, disse.
O drama de Tânia, aposentada e paciente há mais de 10 anos, é um retrato do problema.
“Depois que o CAPS fechou me deu duas crises, fui para hospitais, não tenho mais acesso às medicações e estou gastando dinheiro do bolso. Prometem e não abrem! Queremos o CAPS aberto para fazer nossos atendimentos!, disse.
O estudante de psicologia do Centro de Referência em Direitos Humanos Marcos Dionísio (CRDH), Pedro Cavalcanti, 22, ressaltou que a saúde mental é uma questão invisibilizada na cidade, onde muitas pessoas que passaram por internações e por violências, têm suas vidas deixadas de lado.
A luta contra o abandono e a promessa não cumprida

Professora da Escola de Saúde da UFRN, Jacileide Guimarães, reforçou que a reabertura é uma questão legal e de integralidade do cuidado.
“A reabertura do CAPS III Leste é crucial porque garante a atenção em saúde mental com integralidade, como exige a nossa legislação. Esta é uma luta que está totalmente respaldada na Lei nº 10.216/2001, a Lei da Reforma Psiquiátrica. Nós lutamos, acima de tudo, por uma atenção de qualidade, em liberdade e na comunidade, e para isso, é urgente resgatar e fortalecer toda a nossa Rede de Atenção Psicossocial”, afirmou.
A manifestação não é a primeira em defesa da pauta, mas faz parte de uma jornada de lutas e mobilizações travadas por mais de um ano pela população natalense.
Em nota divulgada em 2024, a secretaria municipal de Saúde (SMS) informou que a prefeitura entregaria a nova unidade até o final daquele ano.
“Houve necessidade de ajuste contratual, após visita técnica… que com o olhar sensível do cuidado integral, pontuaram e sugeriram pequenas adequações… A previsão de transferência definitiva para o novo local está programada para acontecer até o final do ano de 2024,” informou a SMS, na época.
Em reforço à mobilização social, a questão da saúde mental e o fechamento do CAPS III Leste também ecoam no campo político. Em maio de 2025, o vereador Daniel Valença (PT) promoveu uma audiência pública com o tema “Por uma Natal Antimanicomial“.
O evento serviu como um espaço institucional para debater e cobrar a reestruturação do sistema de atenção psicossocial, focando diretamente na unidade fechada.
Segundo o vereador, a audiência cumpriu o papel essencial do legislativo de fiscalizar e pressionar medidas efetivas da Prefeitura para a garantia de um cuidado em liberdade e o respeito à Lei Antimanicomial.
Hoje, em meados de outubro de 2025, a luta pela reabertura do CAPS III Leste continua, com os usuários e profissionais cobrando celeridade e cumprimento do cronograma.
Natal lidera estatísticas de depressão no Nordeste
A urgência do ato ganha peso diante dos dados do Ministério da Saúde. O Vigitel 2023 aponta que Natal é a capital do Nordeste com o maior número de adultos diagnosticados com depressão. Segundo os dados do levantamento, 13,2% dos maiores de 18 anos, ou 117 mil pessoas, conviviam com a doença em 2023. As mulheres são as mais afetadas, representando a maior porcentagem dos casos (17,3%).
Com a população em intenso sofrimento psíquico e liderando estatísticas regionais de depressão, a reestruturação do sistema de atenção psicossocial e a reabertura do CAPS III Leste são vistas pelos manifestantes não apenas como uma necessidade administrativa, mas como um imperativo ético e de saúde pública para a capital potiguar.