Crise climática muda rotina e produção em comunidade quilombola do RN
O cheiro da goiaba madura costumava anunciar o tempo da colheita na comunidade quilombola de Nova Esperança, zona rural de Baraúna, no Oeste potiguar. Hoje, a lembrança permanece viva:
“Na minha infância, o cheiro da goiaba tomava conta da comunidade. Agora, a fruta não aparece como antes”, relata a agricultora Sueli Bessa, de 39 anos.
As estiagens prolongadas e as mudanças no regime de chuvas transformaram a paisagem e a rotina das 70 famílias que vivem no território. Sueli cresceu vendo a produção de frutas e hortaliças garantir alimento e renda para os moradores. Nos últimos anos, porém, os extremos climáticos passaram a ditar o ritmo da comunidade. Em alguns períodos, a seca prolongada compromete plantações e reduz a disponibilidade de água. Em outros, chuvas intensas tornam estradas praticamente intransitáveis.
A realidade vivida em Nova Esperança ganhou destaque nacional durante o Encontro Nacional das Mulheres Quilombolas, realizado em Brasília. Representando a comunidade potiguar, Sueli levou à discussão um problema que afeta territórios tradicionais em diferentes regiões do país: os efeitos cada vez mais evidentes das mudanças climáticas sobre a produção de alimentos, a permanência das famílias no campo e a preservação dos modos de vida quilombolas.
Em Nova Esperança, os impactos vão além da agricultura. Sem abastecimento regular de água, os moradores dependem de um poço artesiano que sofre com os períodos de seca. A falta de infraestrutura também agrava as dificuldades. A comunidade não possui ruas asfaltadas e, durante temporais, o acesso à área rural fica comprometido.
“Quando chove forte lá, é horrível”, afirma Sueli.
As consequências já provocaram mudanças profundas na dinâmica local. Parte dos moradores precisou abandonar a agricultura familiar e buscar trabalho nas indústrias instaladas na área urbana de Baraúna, a mais de 20 quilômetros de distância. O deslocamento diário, entretanto, é dificultado pelas condições das estradas.
Apesar dos desafios, a resistência continua sendo uma marca da comunidade. Sueli complementa a renda produzindo geleias e compotas vendidas em feiras da região. Ela também alimenta o sonho de concluir os estudos e ingressar em um curso superior.
“Penso em enfermagem ou direito, para ajudar ainda mais a minha comunidade”, diz.
Mulheres são as primeiras a sentir impactos do meio ambiente nas comunidades

A preocupação das mulheres quilombolas com o avanço da crise climática foi um dos temas centrais do encontro nacional. Durante o evento, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) lançou o livro “Vozes Quilombolas: Mulheres em Defesa do Clima”, estudo que reúne relatos de lideranças de diversos biomas brasileiros sobre os impactos ambientais enfrentados em seus territórios.
Segundo a pesquisadora e agrônoma Fran Paula, responsável pelo levantamento, as mulheres costumam ser as primeiras a perceber as transformações ambientais porque permanecem diretamente ligadas às atividades produtivas e ao cuidado com os recursos naturais.
“Não trazemos apenas denúncias do racismo ambiental, mas também soluções e estratégias que as mulheres estão construindo para enfrentar a mudança climática”, destaca.
No Rio Grande do Norte, onde a convivência com o semiárido já faz parte da história de muitas comunidades rurais, as mudanças climáticas intensificam vulnerabilidades antigas. Em Nova Esperança, a redução da produção agrícola, a insegurança hídrica e as dificuldades de acesso evidenciam como a crise climática deixou de ser uma ameaça futura para se tornar uma realidade presente.
Enquanto as goiabeiras produzem menos do que antigamente, moradores como Sueli e sua filha, a estudante Suelene Ribeiro, seguem mobilizados para garantir que a comunidade continue existindo e produzindo. Para elas, enfrentar as mudanças do clima também significa proteger a identidade, a cultura e a permanência das famílias no território quilombola.
*Com informações da Agência Brasil
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