Na próxima quinta-feira (16), o Departamento de Artes da UFRN se transforma em território de experimentação sensorial com mais uma ação do Potiguarias Visuais, projeto de arte multimídia criado pela artista Christalina. A partir das 18h30, a programação integra projeções mapeadas, performances musicais e intervenções audiovisuais que buscam reconectar o público com o espaço urbano e com a memória coletiva potiguar.
Mais do que uma mostra artística, Potiguarias Visuais é uma pesquisa viva, que atravessa tecnologia, ancestralidade e território. Christalina, que se define como “artista visual, bruxa da magia digital, mãe, mulher da periferia e autodidata” vem desenvolvendo o projeto no entrelaçamento entre programação criativa, vídeos generativos e projeções mapeadas. Em suas palavras, trata-se de “criar imagens e sons com código de programação, projetando-as sobre a cidade e permitindo que o público se veja dentro delas”.
“Essa projeção tanto interfere no espaço urbano quanto é influenciada por ele. Eu conecto uma câmera que filma o público e devolve a imagem deles na projeção, misturada a vídeos psicodélicos e memórias da cidade. É um entrelaçamento de tempo, memória e território”, explica em entrevista ao Saiba Mais.
A artista enfatiza que a proposta nasce do desejo de transformar o espaço público em extensão da tela digital, abrindo caminhos para que as pessoas se reconheçam nos lugares onde vivem. “Quero que o público se enxergue como parte da paisagem da cidade e se inspire a retomar o direito de ocupá-la”, afirma.
Essa imersão estética e política se amplia quando Christalina fala do território da universidade, espaço que ela também ocupa como estudante de Licenciatura em Artes Visuais na UFRN. A ação desta quinta acontece justamente no Departamento de Artes, lugar que para ela simboliza a presença de uma mulher periférica e mãe dentro da academia, “ocupando e reconfigurando os espaços a partir de outras sensibilidades”.
“O projeto começa de maneira solo, dentro do meu ateliê, das minhas ideias e sonhos, mas se consolida mesmo no mundo com a coletividade”, conta. “Agora estamos reunindo cerca de 30 pessoas, entre artistas, músicos, técnicos e colaboradores. O Potiguarias é esse movimento de juntar gente, criar um corpo coletivo que pensa e sente o que é ser potiguar.”
A programação reflete essa diversidade de vozes. Participam do evento o Folia de Rua Potiguar, grupo fundado pelo percussionista Jorge Negão, que difunde ritmos e folguedos do Rio Grande do Norte através da percussão, dança e teatro; o Grupo de Improvisação Livre da UFRN, coordenado por Anderson Pessoa, que se apresenta ao lado de Felipe Ribeiro (guitarra), Naldo Silva (piano), Luana Pereira (violino) e Paulo Fernandes (contrabaixo), explorando composições contemporâneas e diálogos sonoros com as projeções visuais de Christalina.
A noite também conta com a força rítmica da baterista seridoense Quequel tha Kid, musicista autodidata com mais de duas décadas de trajetória no circuito independente, e com o som psicodélico e performático do DJ e VJ Sogos, multiartista natalense que une audiovisual, música e experimentação digital. Completa o time a artista e comunicadora Rita Machado, cuja presença evoca o olhar poético e artesanal das “rendeiras de imagem” potiguares.
“O que eu quero com essa proposta é promover um encontro para a gente pensar sobre ser potiguar, sobre o nosso lugar dentro da cidade”, reflete Christalina. “É um trabalho que pesquisa a cidade, mas também os movimentos artísticos e nossas autorreferências. É uma forma de nos vermos e nos reconhecermos.”
No entrecruzar de corpos, luzes e sons, o projeto se propõe a transformar tecnologia em rito e código em afeto, convidando o público a olhar a cidade como espelho e extensão de si.