Entre mudas de abacate cultivadas ao redor do Departamento de Artes da UFRN e videoinstalações criadas a partir de televisores antigos e DVDs riscados, o GINGA se firma como um coletivo de experimentação artística que une teoria e prática em pleno chão potiguar. O grupo nasceu em 2022, a partir da chegada da professora Patrícia Teles ao curso de Artes Visuais da UFRN, e desde então vem desafiando convenções estéticas, propondo diálogos latino-americanos e tensionando a própria ideia de arte contemporânea.
“Eu queria criar um espaço de investigação prática e teórica em arte contemporânea. Algo que fosse coletivo, visceral e político, inspirado em experiências que tive no doutorado na UnB com o grupo Corpos Informáticos”, relembra Teles. O nome GINGA surgiu de um brainstorm entre estudantes: antes, a proposta era batizar o coletivo de “CAJU – Coletivo de Arte Jovem da UFRN”. Mas o apelido considerado “brega” deu lugar a uma palavra que, para além de nomear um peixe típico de Natal, evoca malícia, esperteza e jogo de cintura diante da vida.
Entre o precário e o experimental
Desde o início, o grupo se propôs a pensar a arte a partir de cinco eixos: performático, precário, tecnológico, participativo e latino-americano. Na prática, essas frentes se entrelaçam. O projeto Guacamole, por exemplo, consiste no plantio de abacateiros que só darão frutos dentro de uma década – se resistirem. A incerteza faz parte da obra. “O precário não é só falta de recurso. É também condição estética e política. Lygia Clark já falava do ‘precário como novo conceito de existência’. Para nós, é a vulnerabilidade que move a imaginação”, explica Teles.
O ginga.mp4, projeto de pesquisa em vídeo, revela outra face desse pensamento: explorar tecnologias obsoletas, instáveis ou em desuso como potência criativa. “O digital também é precário. Basta lembrar que muitos sites feitos em Flash simplesmente desapareceram. É a gambiarra que subverte esse ciclo de obsolescência”, completa.
Ao mesmo tempo em que experimenta com o efêmero, o GINGA finca raízes em referências ancestrais e latino-americanas. O uso de alimentos nativos nas performances – abacate, milho, batata, coca – conecta o grupo a práticas críticas contra a colonialidade.
Entre os artistas que inspiram suas pesquisas estão Lygia Clark, Hélio Oiticica e Lygia Pape, além de nomes contemporâneos como Marta Minujín (Argentina), Tania Bruguera (Cuba), Cecília Vicuña (Chile) e Ximena Garrido-Lecca (Peru). “Eles abriram caminhos para uma arte que não é produto acabado, mas experiência. E escreviam sobre isso, o que é precioso para a formação de novas gerações”, sublinha Teles.
Partilhas
As ações do grupo não se restringem às salas da universidade. Em 2024, o coletivo promoveu o I Seminário de Excursões Ginga, em Pernambuco, onde cada integrante apresentou reflexões a partir das obras da Usina de Arte, museu a céu aberto. “Foi enriquecedor porque muitos desconheciam o espaço. E lá aprendemos que a arte contemporânea já faz parte do cotidiano da comunidade local, que convive com as obras no dia a dia”, conta Teles.
No próximo semestre, o grupo ocupará a Galeria Laboratório do Deart com videoinstalações do projeto ginga.mp4. A primeira, assinada por Luca Delmas, fica aberta ao público de 2 a 9 de setembro, em Natal.
Contexto potiguar
A UFRN é a única instituição de ensino superior a oferecer o curso de Artes Visuais no Rio Grande do Norte, e isso torna o GINGA um espaço singular de formação. “Pelo Deart passam alunos de várias regiões do estado. Isso pode ser uma ponte para levar nossas ocupações além da capital”, diz a coordenadora.
Conduzir um coletivo estudantil, no entanto, não é tarefa simples. “A arte contemporânea exige uma ginga: um jogo de cintura para compreender ironias, deboche, mas também densas reflexões políticas e sociais. O maior desafio é manter o grupo ativo, atravessado por tantas demandas. Mas quando os estudantes chegam nesse ponto de pensamento crítico e coletivo, surgem trabalhos amadurecidos. Aí está a potência”, reflete Teles.
Inscrições abertas!
Pela primeira vez, o coletivo abriu inscrições para novos integrantes. O processo é simples: basta preencher o formulário online até 7 de setembro de 2025. A seleção será feita a partir das cartas de apresentação enviadas, seguidas de conversas com os interessados. “Queremos expandir a rede e criar mais trocas com artistas-pesquisadores que se identifiquem com nossas linhas de atuação”, afirma.
Serviço
Inscrições abertas para o GINGA: até 07/09/2025, pelo formulário neste link.