Região Metropolitana de Natal tem uma das maiores desigualdades de renda do país
Natal possui a Região Metropolitana com a terceira maior desigualdade de renda registrada no Brasil em 2024. É o que mostra a 16ª edição do Boletim Desigualdade nas Metrópoles, produzido em parceria pelo INCT Observatório das Metrópoles, a PUCRS Data Social e a Rede de Observatórios da Dívida Social na América Latina (RedODSAL).
O boletim mede o grau de distribuição de rendimentos entre os indivíduos de uma população por meio do coeficiente de Gini, uma escala que varia de zero a um. O valor zero representa a situação de completa igualdade, em que todos teriam a mesma renda, e o valor um representa uma situação de completa desigualdade, em que uma só pessoa deteria toda a renda.
“Os dados mostram uma relativa estabilidade da concentração de renda no mercado de trabalho nos últimos trimestres nas Regiões Metropolitanas. Isso demonstra uma dificuldade de superar desafios estruturais do nosso mercado de trabalho, mesmo em um contexto de retomada da atividade econômica com melhora dos indicadores de ocupação e redução da desocupação”, analisa Cassiano Trovão, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Em 2024, a Região Metropolitana de Natal ficou com grau de 0,537, atrás apenas de Brasília (0,547) e Recife (0,556). No outro extremo, as Regiões Metropolitanas com menores coeficientes de Gini, em ordem decrescente, foram Porto Alegre (0,489), Vale do Rio Cuiabá (0,486), Belo Horizonte (0,484), Manaus (0,480) e Goiânia (0,478).
Ainda assim, considerando o período entre 2021 (ano de pandemia) e 2024 (último ano com dados completos), a Região Metropolitana da capital potiguar teve queda na desigualdade. Antes, o coeficiente era de 0,589, o segundo maior do país, empatado com João Pessoa e atrás de Aracaju.
“Do ponto de vista regional, o RN e, mais especificamente, a Região Metropolitana de Natal, continua apresentando os piores níveis de concentração de renda no mercado de trabalho, do Nordeste, o que reflete uma estrutura produtiva que contribui para a manutenção de um mercado de trabalho marcado pela diferenciação salarial em que predominam, de um lado, salários elevados no setor público, e, de outro, salários de baixa remuneração em um setor de serviços de baixa produtividade“, observa Cassiano.
A maioria das Regiões Metropolitanas apresentou redução na desigualdade de renda nesse período, com exceção das Regiões Metropolitanas de Curitiba, Florianópolis, Grande São Luís e Vale do Rio Cuiabá.
Segundo os pesquisadores responsáveis pelo boletim, o movimento de queda na desigualdade tem sido puxado principalmente pelo aumento da renda do trabalho, que cresceu de forma mais intensa entre os 40% mais pobres da população, atingindo os maiores valores da série histórica.
Entre 2021 e 2024, a taxa de pobreza no Brasil caiu de 31,1% para 19,4% no conjunto das regiões metropolitanas, permitindo que 9,5 milhões de pessoas saíssem da situação de pobreza.
Nesse período, o coeficiente de Gini para o país caiu de 0,565 para 0,534. O valor atingido é o menor da série histórica, superando aquele de 2015, quando foi registrado um Gini de 0,539 – até então o menor nível de desigualdade desde 2012. Seguindo esta tendência, se em 2021 a renda do estrato mais rico era 19,2 vezes maior que a do estrato mais pobre, em 2024 essa razão de rendimentos caiu para 15,5 vezes. Programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, o mercado de trabalho aquecido, aliado à valorização real do salário-mínimo, ajudaram na melhoria dos indicadores sociais.
Para 2025, a expectativa é de manutenção do cenário positivo, mas em ritmo mais lento, de acordo com os pesquisadores. O crescimento econômico projetado deve contribuir para a queda da pobreza, ainda que em menor intensidade, enquanto a desigualdade tende a se estabilizar. A continuidade da valorização do salário-mínimo e o controle da inflação aparecem como fatores-chave, ao passo que os juros elevados podem limitar a geração de empregos e ampliar a concentração de renda.
Os dados do Boletim Desigualdade nas Metrópoles são provenientes da PNAD Contínua anual, do IBGE, e dizem respeito à renda domiciliar per capita total. O recorte utilizado é o das 22 principais áreas metropolitanas do país, de acordo com as definições do IBGE. Os dados estão deflacionados para o ano de 2024, de acordo com o IPCA. O estudo trabalha com as linhas de US$6,85/dia PPC para pobreza e US$2,15/dia PPC para a extrema pobreza, assim como definidas pelo Banco Mundial. Em valores mensais de 2024, a linha de pobreza é de aproximadamente R$695 per capita e a linha de extrema pobreza é de aproximadamente R$218 per capita.