“Ver meu nome entre os 20 foi surreal”, conta potiguar finalista em concurso do TikTok
Natal, RN 3 de jun 2026

“Ver meu nome entre os 20 foi surreal”, conta potiguar finalista em concurso do TikTok

15 de outubro de 2025
6min
“Ver meu nome entre os 20 foi surreal”, conta potiguar finalista em concurso do TikTok

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O jornalista e escritor potiguar Tony Lucas, de 27 anos, está entre os 20 finalistas nacionais do concurso “Livros do Futuro”, promovido pelo TikTok em parceria com as editoras Record (Galera), Globo (ALT) e Harper Collins. O resultado foi divulgado após votação popular que mobilizou leitores de todo o país. Agora, o potiguar segue para a etapa final, em que os manuscritos completos serão avaliados por um júri especializado.

Tony concorre na categoria Suspense com o romance Sina, obra inédita ambientada no interior do Rio Grande do Norte. O livro combina terror psicológico e elementos sobrenaturais para contar a história de Samuel, um homem gay que retorna ao sítio da infância dez anos após o pai cometer uma chacina e tentar tirar a própria vida. O reencontro familiar é interrompido por assassinatos brutais, sonhos perturbadores e fenômenos inexplicáveis que o fazem duvidar da própria sanidade.

Sina” traz também uma forte marca regional e afetiva. Parte da narrativa foi inspirada na infância do autor em Tangará (RN), no sítio Lagoa do Feijão, onde cresceu. “Eu quis escrever um Nordeste sem caricaturas, com emoção, com a forma que a gente fala e sente. Quis mostrar que nossas histórias também podem ser universais”, explica Tony em entrevsta ao Saiba Mais.

Antes de alcançar a repercussão atual, Tony já havia publicado o livro de poemas O garoto que só queria ser amado, lançado em 2016/2017. O título marcou sua estreia literária, mas o baixo alcance acabou afastando o autor dos círculos literários. “Vendi poucas cópias, passei despercebido e isso me abalou muito. Fiquei anos sem escrever, sem dizer que era escritor”, relembra.

O retorno veio de forma inesperada. Inscrito no concurso do TikTok quase sem expectativas, Tony viu sua trajetória mudar a partir da seleção entre os 150 semifinalistas. “Foi um choque. Eu nem tinha olhado o site. Quando chegou o e-mail, saí correndo pra contar pra minha mãe. Era como se algo dentro de mim tivesse sido reparado”, diz.

A entrada na fase final do “Livros do Futuro” ampliou a dimensão do feito, e da responsabilidade. “Eu não imaginava o peso que é representar o Rio Grande do Norte. Quando vi as mensagens, percebi que as pessoas queriam muito ver um potiguar na final. Isso virou um combustível e também uma responsabilidade enorme”, conta.

Apoio coletivo

Sem grande presença nas redes sociais, Tony apostou em outra tática para conquistar votos: o jornalismo. “Como eu venho dessa área, decidi recorrer à mídia tradicional: jornais, portais, TV, porque acredito muito na força dessas plataformas”, explica. A estratégia deu certo. Com matérias publicadas em veículos potiguares, a história de Tony se espalhou, despertando apoio de leitores, professores, escritores e figuras da cena cultural local.

“Foi uma avalanche de carinho. Pessoas que eu nem conhecia me mandaram mensagem dizendo que estavam votando, torcendo, compartilhando. Teve professora que falou que queria usar o livro num clube de leitura. Foi quando percebi que o público estava realmente abraçando a história.”

Captura de tela da mensagem anunciando a seleção do finalista.

O autor associa sua trajetória à ideia de representatividade nordestina e LGBTQIA+ dentro da literatura de suspense, um gênero ainda pouco explorado por vozes do Nordeste. “O meu protagonista é um homem gay, e a história acontece aqui, no interior do estado. Eu queria mostrar que o terror e o suspense também cabem na nossa paisagem, na nossa fala, no nosso modo de viver.”

Outro elemento que diferencia o livro é o tarot, que estrutura a narrativa: cada capítulo leva o nome de uma carta, e os acontecimentos dialogam com seus significados simbólicos.

“Sou tarólogo desde 2022. Pensei o livro com base nas cartas, porque o tarot é sobre caminhos, sobre destino, e o próprio livro fala disso. Acho bonito pensar que cada escolha que a gente faz pode mudar nossa sina.”

Academia e terror

Além da escrita literária, Tony concilia o processo criativo com o mestrado em Estudos da Mídia na UFRN, onde pesquisa justamente o BookTok, comunidade de leitores e criadores de conteúdo literário que inspirou o concurso. Seu trabalho analisa como o algoritmo da plataforma afeta a visibilidade de autores nordestinos e a circulação da literatura regional.

“De alguma forma, é como se tudo tivesse se conectado. Estou pesquisando o TikTok e, ao mesmo tempo, participando de um concurso que nasceu dentro dele. Acho que isso mostra o quanto o digital tem transformado a forma como contamos e compartilhamos histórias.”

Agora, o escritor vive dias intensos. O prazo para entrega do manuscrito final é 1º de novembro, e Tony tem dedicado cada hora livre à escrita. “Eu já tinha o esboço do livro, os capítulos organizados, mas agora é o momento de dar vida à história. É fácil escrever porque eu sei o que quero, mas é uma responsabilidade enorme. Os jurados são booktokers e críticos literários, pessoas que vivem de ler, então o texto precisa ser muito bom.”

Ele planeja enviar o manuscrito no Halloween (31 de outubro), data simbólica para quem escreve sobre mistérios e assombrações. “Faz sentido. É uma data que tem a ver com o livro, com o gênero e com o meu próprio percurso.”

O resultado final do concurso será divulgado em 12 de janeiro de 2026. Os vencedores de cada categoria receberão R$ 10 mil, contrato de publicação com as editoras parceiras e apoio em marketing e divulgação.

Independentemente do resultado, Tony já se considera realizado. “Hoje, eu acredito que Sina pode ser publicado, seja pelo concurso, seja de forma independente. O importante é que ele existe, e que tem tanta gente acreditando junto comigo. Esse livro já é nosso”, finaliza.

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