Priscilla Vilela é premiada como Melhor Atriz em festival internacional de Orlando
A atriz potiguar Priscilla Vilela vive um dos momentos mais marcantes de sua trajetória artística. Após vencer o prêmio de Melhor Atriz no FESTin Lisboa 2025, ela acaba de ser novamente reconhecida, desta vez no LABRFF Orlando 2025, pela atuação em “Enquanto o Céu Não Me Espera”, longa dirigido pela amazonense Christiane Garcia. A produção, que já conquistou o público e a crítica em festivais nacionais e internacionais, reafirma o vigor e a potência do cinema brasileiro feito por mulheres e a partir da Amazônia.
“Foi tremendo! Toda participação em festival e indicação chega com muita celebração e alegria!”, contou Priscilla em entrevista ao Saiba Mais. “O longa foi gravado há mais de seis anos. Nesse hiato atravessamos uma pandemia, e àquela época lembro que fui tomada por diversos medos, apesar de nunca ter perdido a esperança de vê-lo ganhar o mundo. Então, hoje, presenciar esse momento de tantos festivais, reconhecimento do público e prêmios vai muito além.”
Gravado antes da pandemia, “Enquanto o Céu Não Me Espera” acompanha a trajetória de um agricultor amazônida que enfrenta as cheias dos rios e os desafios de permanecer em seu território. O filme é a estreia de Christiane Garcia na direção de longas e foi rodado em comunidades ribeirinhas do Amazonas.
Para Priscilla, a experiência foi transformadora. “Desde quando li o roteiro, depois que conheci a Chris, o Paulo, o Jeann, o Irandhir, o Breno, toda a equipe e a família ribeirinha que nos recebeu para o nosso laboratório, eu sabia que aquele trabalho transformaria a mim e minha vida para sempre. E assim foi.”
A personagem Rita, interpretada por Vilela, é o coração pulsante da narrativa. Uma mulher que ama, sonha, luta e enfrenta as contradições de viver em um território onde o ciclo das águas dita o ritmo da vida. “Rita é a companheira do Vicente, é o amor do Vicente. Ela me ensinou que o ciclo das águas da Amazônia, que tudo dá e tudo tira, também acontece dentro da gente. Precisamos aprender o que deixar ir pra poder seguir”, lembra.
Em seu discurso, Priscilla Vilela não deixou de refletir sobre o lugar da mulher e da maturidade no audiovisual brasileiro. “Recentemente alguém do mercado se preocupou, pois na minha idade, 43 anos, talvez me achassem nova demais para interpretar uma mãe, ou velha para ser filha. Aos reféns do mercado, eu digo: viva o cinema independente feito por mulheres, que não se encontra limitado a amarras de idade”, declarou.
Ela ressalta que o prêmio é também um símbolo de liberdade criativa. “Esse filme representa que existe ‘vida’, em outras palavras, trabalho, para além de uma caixinha chamada mercado. Representa que podemos contar as histórias que quisermos contar.”
A imersão na Amazônia
Durante o processo de preparação, a equipe do filme passou dias convivendo com famílias ribeirinhas. Vilela relata que foi um mergulho literal e simbólico. “Assinei um termo de responsabilidade porque sabia que gravar ali era colocar minha vida em risco. Era um ambiente onde existiam jacarés, cobras, peixes elétricos. Mas foi mágico. A cada dia eu pedia licença à mata, entendendo que aquele lugar me aceitava.”
Entre os momentos mais marcantes, a atriz recorda ter presenciado uma casa sendo levada pela cheia do rio, uma imagem que a marcou profundamente. “Aquele filme me ensinou sobre força, impermanência e fé. Sobre o que é permanecer quando tudo à sua volta está em movimento.”
Ao final da conversa, Priscilla deixou uma mensagem direta às jovens atrizes e cineastas do Nordeste. “Contem as suas histórias. Sejam fiéis ao que toca vocês. O método é você. Ninguém precisa impressionar um diretor ou um roteirista. Nosso trabalho é encontrar verdade no que fazemos.”
Para ela, é urgente que o Nordeste e a Amazônia sejam narradores de si mesmos: “A gente precisa parar de ser lembrado apenas como a mão de obra que construiu esse país. Nós colocamos esse país de pé. Agora é hora das pessoas conhecerem as nossas histórias.”
Com a força de sua performance e a profundidade de seu discurso, Priscilla Vilela reafirma o poder do cinema brasileiro em revelar mundos que resistem, encantam e transformam. “Enquanto o Céu Não Me Espera”, ao cruzar territórios, águas e afetos, também se torna espelho de um Brasil que insiste em se reinventar, e que, nas palavras da atriz, “existe para além do mercado, porque existe onde há coragem, beleza e verdade”, finaliza.
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