Família denuncia omissão após morte de gata capturada em Mossoró
Natal, RN 16 de jun 2026

Família denuncia omissão após morte de gata capturada em Mossoró

15 de janeiro de 2026
5min
Família denuncia omissão após morte de gata capturada em Mossoró

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

A morte da gata Lucy, animal doméstico capturado durante uma ação de manejo de felinos no Condomínio Quintas do Lago, em Mossoró, trouxe à tona uma série de questionamentos sobre a legalidade do serviço contratado, a transparência do processo e as condições em que os animais vêm sendo retirados do local. O caso motivou um protesto com mais de uma centena de pessoas e desencadeou pedidos formais de investigação junto à Polícia Civil e ao Ministério Público.

Arizete Menezes, moradora do condomínio e avó afetiva da gata em entrevista à Agência Saiba Mais descreve que Lucy vivia com um casal de moradores do condomínio, era vacinada, acompanhada regularmente por médico-veterinário e utilizava coleira de identificação. Ainda assim, foi capturada por uma armadilha instalada nas áreas comuns, no contexto da execução de um contrato firmado entre a associação de moradores e a empresa EMSUV para retirada de gatos classificados como comunitários.

De acordo com documentação apresentada à Delegacia de Plantão de Mossoró, a captura ocorreu apesar de a gata não se enquadrar no perfil de animal errante ou sem tutor. Os tutores afirmam que, após perceberem o desaparecimento, entraram em contato com a administração do condomínio e foram informados de que o animal estava sob responsabilidade da equipe de manejo, mas sem indicação do local exato para onde havia sido levado.

O requerimento policial aponta que, ainda no dia do desaparecimento, os tutores atenderam integralmente às exigências feitas para a devolução do animal, incluindo atualização cadastral, envio de registros de vacinação e comprovação inequívoca da guarda responsável. A regularização teria sido confirmada pela própria administração do condomínio poucas horas depois, sem que, mesmo assim, houvesse a liberação de Lucy ou a informação precisa sobre seu paradeiro

No dia seguinte, diante da persistente falta de respostas, familiares iniciaram uma busca direta por clínicas e hospitais veterinários da cidade. Foi nesse contexto que Lucy foi localizada em um estabelecimento veterinário, já sem vida. O corpo foi encontrado dentro de um gatil, sem que houvesse, segundo os tutores, explicações claras sobre as circunstâncias da morte naquele momento.

Após localizar o corpo do animal, a família registrou boletim de ocorrência relatando a possível prática de crimes como apropriação indevida, pela recusa em devolver o animal após identificação dos tutores, e maus-tratos com resultado morte, uma vez que Lucy faleceu enquanto estava sob custódia de terceiros.

O requerimento destaca que Lucy permaneceu retida por mais de 36 horas sem acesso dos tutores e sob um fluxo de informações considerado contraditório ou incompleto. Também é apontada a negativa inicial de acesso ao prontuário médico-veterinário completo, o que levou os tutores a solicitarem formalmente a preservação de documentos, registros e comunicações relacionadas ao atendimento.

O caso de Lucy ocorre em meio à execução de um contrato que prevê a captura e retirada de mais de 60 gatos das áreas comuns do condomínio, com transporte para uma ONG localizada no município de Apodi. No entanto, moradores questionam a divergência entre o que foi aprovado em assembleia e o que foi formalmente contratado, além da ausência de informações públicas individualizadas sobre o destino dos animais já capturados.

Segundo os requerentes, mais de 30 gatos teriam sido retirados do condomínio até o momento, sem divulgação de relatórios detalhados sobre locais de acolhimento, condições de guarda ou processos de adoção. Essa ausência de dados motivou pedidos formais para que a empresa e a associação apresentem listas nominais, registros de transporte e prontuários de cada animal capturado.

A atuação da empresa ocorre em um cenário de judicialização. Em 2024, mudanças no regulamento interno do condomínio, que endureceram regras sobre alimentação e permanência de felinos comunitários, foram alvo de ação judicial. Inicialmente, uma decisão liminar suspendeu os efeitos das novas normas, mas posteriormente a autorização para execução do contrato de manejo foi restabelecida, com previsão de multa para moradores que impedissem as capturas

Mesmo com essa autorização, os moradores ligados à causa animal sustentam que a execução do contrato deve observar limites legais e contratuais, especialmente no que se refere à distinção entre gatos comunitários e animais domésticos identificados.

Para o advogado especialista em Direito Animal e Direito Civil, Amaro Júnior, a situação descrita levanta questionamentos jurídicos relevantes: “Mesmo havendo contrato ou autorização para manejo de animais comunitários, isso não afasta a responsabilidade civil e, eventualmente, penal, se ficar comprovado que houve retenção indevida.”

O protesto realizado nesta semana reuniu cerca de 115 pessoas e teve como foco não apenas a morte de Lucy, mas também o destino dos demais felinos retirados do condomínio. Os manifestantes pedem transparência, acesso aos documentos do contrato e responsabilização caso sejam constatadas irregularidades.

Enquanto aguardam o resultado da necrópsia do animal, solicitada pelos tutores, e o avanço das apurações policiais e ministeriais, a família afirma que seguirá cobrando esclarecimentos. “Lucy virou o símbolo de uma situação maior. Queremos saber o que aconteceu com ela e onde estão todos os outros gatos”, afirmou Arizete Menezes, moradora do condomínio e mãe de um dos tutores.

SAIBA+
RN endurece punições contra maus-tratos em adestramento de animais domésticos
Deputada do PT propõe banco de ração para apoiar protetores de animais no RN

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.