Em defesa de uma reforma agrária popular
Natal, RN 12 de jun 2026

Em defesa de uma reforma agrária popular

26 de abril de 2026
7min
Em defesa de uma reforma agrária popular

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O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) foi criado oficialmente em 1984, durante o 1º Encontro Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, realizado em Cascavel (PR). Ao longo do tempo, o movimento passou a organizar famílias em assentamentos (atualmente em torno de 400 mil) e acampamentos (cerca de 70 mil).

O número de famílias assentadas e o apoio às famílias acampadas se dão em função da luta e da organização do MST, que “permitiram a conquista e a desapropriação de latifúndios em todo o país, garantindo a criação de assentamentos da reforma agrária”.

Um de seus principais objetivos é a democratização da terra em um país com histórico secular de concentração fundiária e de riqueza. Atualmente, apenas 1% das propriedades rurais concentra cerca de 50% de todas as terras agricultáveis. Ainda assim, segundo o IBGE, a agricultura familiar é responsável por aproximadamente 70% dos alimentos consumidos no Brasil.

Entre as pautas centrais do MST, destacam-se quatro eixos fundamentais: a democratização da terra e a criação de novos assentamentos; a liberação de crédito para a produção de alimentos e para a instalação das famílias; a Educação do Campo – com políticas como o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA) e a garantia de recursos para a Política Nacional de Educação do Campo, das Águas e das Florestas (Pronacampo); e a defesa de uma reforma agrária efetiva como política fundamental para a soberania nacional.

Essa é a base para a defesa de uma de suas principais reivindicações: a reforma agrária popular, que, ao longo do tempo, tem enfrentado a paralisação de medidas, entraves burocráticos e a falta de recursos para a efetivação das políticas públicas nessa área.

A reforma agrária popular compreende a democratização do acesso a terra, em consonância com a Constituição de 1988, que estabelece a função social da propriedade. Nesse sentido, cabe à União desapropriar terra por interesse social, conforme o artigo 186, que determina que a função social da propriedade rural é cumprida quando há: aproveitamento racional e adequado; uso adequado dos recursos naturais e preservação ambiental; observância das relações de trabalho; e exploração que favoreça o bem-estar de proprietários e trabalhadores.

No entanto, não basta garantir o acesso a terra por meio da desapropriação. É necessário também implementar um conjunto de políticas públicas, como a criação de novos assentamentos, a regularização fundiária, o acesso ao crédito, à moradia, à educação do campo e a uma infraestrutura básica — eletricidade, saneamento, lazer, entre outros – além do apoio à produção e à comercialização. O MST também defende a desburocratização do acesso ao crédito e a soberania alimentar.

O que se propõe é um modelo alternativo ao agronegócio, baseado na produção de alimentos saudáveis, em contraposição ao uso intensivo de agrotóxicos – no qual o Brasil figura entre os maiores consumidores mundiais – e de transgênicos.

Atualmente, segundo dados do MST, existem 185 cooperativas, 120 agroindústrias e 1.900 associações, além de mais de 120 mil famílias cadastradas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), organizadas em cerca de 1.250 acampamentos em todo o Brasil.

Destaca-se também o papel fundamental das mulheres nesse processo, desde as primeiras ocupações, com participação ativa em acampamentos e assentamentos. Um exemplo dessa atuação são as Jornadas Nacionais de Lutas das Mulheres Sem Terra, realizadas anualmente em março, especialmente no dia 8, Dia Internacional da Mulher.

Em julho de 2025, durante a semana do Dia Internacional da Agricultura Familiar, o MST realizou a Jornada da Semana Camponesa, com mobilizações em todo o país sob o lema “Para o Brasil alimentar, Reforma Agrária Popular!”. O objetivo foi ampliar o diálogo com o governo federal para avançar nas políticas de reforma agrária e aumentar o número de famílias assentadas, além de atender às cerca de 70 mil famílias acampadas.

Ao longo de sua trajetória, o movimento tem enfrentado a pressão do agronegócio, de latifundiários e de seus aliados dentro e fora do Congresso Nacional (na mídia, redes sociais etc.). Mesmo com compromissos assumidos por governos que ajudou a eleger, como o de Luiz Inácio Lula da Silva, persistem resistências dos latifundiários, de seus representantes no Congresso Nacional, de seus apoiadores na mídia hegemônica, e nas redes sociais, à aquisição de novas áreas e à implementação efetiva das políticas de reforma agrária, o que mantém a concentração fundiária no país.

Nesse contexto, setores da direita e da extrema direita buscam criminalizar o movimento, especialmente por meio da acusação de invasão de terras. No entanto, tais ocupações ocorrem, fundamentalmente, em latifúndios improdutivos, terras griladas ou propriedades com irregularidades ambientais e trabalhistas, que passam a cumprir função social ao serem destinadas à produção e à moradia de famílias sem terra.

Durante a Semana Camponesa de 2025, foi divulgada uma carta pública que critica retrocessos no Congresso Nacional, denunciando as ameaças à soberania nacional com subordinação da agricultura brasileira às empresas transnacionais e “com ações no Poder Legislativo, representantes dos interesses do agronegócio e da mineração”, como o chamado PL da devastação, e a criminalização dos movimentos sociais e a especulação sobre áreas de assentamento.

O documento reafirma que a soberania nacional está diretamente ligada à soberania alimentar, construída por meio da agricultura familiar camponesa e da reforma agrária.

Outro ponto destacado é que a concentração fundiária permanece como uma das principais causas da desigualdade no Brasil, gerando conflitos e violência no campo. Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre 1985 e 2024, foram registradas 1.833 mortes em conflitos agrários, sendo 44% delas na Amazônia. Assim como medidas que facilitam a mineração e grandes obras em projetos de assentamentos rurais.

A reforma agrária popular, portanto, envolve o acesso a terra, ao crédito, à moradia, à educação do campo e ao fortalecimento da agricultura familiar.

Apesar disso, a reforma agrária segue paralisada. O MST questiona a ausência de avanços concretos diante da existência de mais de 70 mil famílias acampadas e cerca de 400 mil assentadas, que aguardam políticas efetivas para ampliar a produção de alimentos livres da especulação financeira e do uso intensivo de agrotóxicos.

Nesse cenário, a defesa da reforma agrária popular se apresenta como um caminho necessário para a construção de um país mais justo, comprometido com a sustentabilidade ambiental e a redução das desigualdades sociais.

Uma data simbólica para o movimento é 17 de abril, quando, em 1996, ocorreu o massacre de Eldorado de Carajás (PA), no qual 21 trabalhadores rurais foram assassinados pela polícia. A data tornou-se símbolo da luta pela terra e foi reconhecida internacionalmente pela Via Campesina como o Dia Internacional de Luta Camponesa.

Em abril de 2026, milhares de trabalhadores sem terra realizaram mobilizações em capitais e outras cidades do país, incluindo ações em algumas sedes do INCRA, reunindo cerca de 20 mil militantes em 17 estados e no Distrito Federal. O objetivo foi denunciar a paralisação das políticas fundiárias e exigir que a democratização da terra seja prioridade do Estado brasileiro.

As mobilizações também reivindicaram investimentos em infraestrutura e apoio à produção agroecológica, reforçando que a ausência de uma reforma estrutural da questão fundiária mantém milhões de famílias sem acesso a terra.

Para o MST, a reforma agrária popular deve garantir não apenas o acesso a terra, mas também a construção de territórios baseados em relações sociais mais justas, na produção de alimentos saudáveis e no enfrentamento das desigualdades e da violência no campo.

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