Anistiada, Ave Sangria celebra legado em tributo em Natal e reafirma espírito libertário
Natal, RN 13 de jun 2026

Anistiada, Ave Sangria celebra legado em tributo em Natal e reafirma espírito libertário

13 de junho de 2026
7min
Anistiada, Ave Sangria celebra legado em tributo em Natal e reafirma espírito libertário
Banda foi homenageada no Tributo à Ave Sangria realizado na Cidade Alta nesta sexta (12), com presença de Almir de Oliveira e Marco Polo Guimarães - Foto: Valcidney Soares

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“Foi uma experiência única a gente assistir”, dizia Almir de Oliveira, guitarrista e compositor da banda de rock pernambucana Ave Sangria, enquanto conversava com fãs. Ao lado dele, estava outro membro da formação original, o vocalista Marco Polo Guimarães. Nesta sexta-feira (12), a dupla experimentava outra ótica: ao invés de ficarem sobre o palco, estavam junto ao público no Tributo à Ave Sangria realizado no Backstage Bar, na Cidade Alta, em Natal. A noite foi permeada pela execução integral do disco de estreia da banda pernambucana, de 1974, que fora alvo da censura pela ditadura militar — neste ano, o Estado brasileiro reconheceu a perseguição política sofrida pela banda e concedeu anistia com indenização aos músicos, que também receberam um pedido de desculpas formal. Para Marco Polo Guimarães, a decisão representou um momento de alívio e alegria.

O Tributo à Ave Sangria ficou a cargo da banda Cajarana, liderada pelo músico Manu de Olinda. Todas as 12 canções foram tocadas, com direito a palinha para “Geórgia, a Carniceira”. Antes e após o show, Marco Polo e Almir eram constantemente tietados por fãs, solicitados para fotos e requisitados para autógrafos. Considerada uma das bandas mais importantes e cultuadas do rock brasileiro, a Ave Sangria surgiu em Recife no início da década de 1970, misturando rock psicodélico, música nordestina, poesia e experimentação sonora em uma linguagem única. Em plena ditadura militar, o grupo desafiou padrões estéticos e comportamentais, tornando-se referência para diversas gerações de artistas e ocupando um lugar fundamental na história do rock psicodélico nacional. A trajetória de ascensão do grupo foi interrompida no mesmo ano de lançamento do álbum “Ave Sangria” e só retomada em 2014. 

Esta não foi a primeira passagem da Ave Sangria por Natal. Eles estiveram na cidade ainda na década de 1970, em uma participação num evento com o também músico Mirabô Dantas, e no Festival do Sol de 1973. Em 2024, foram uma das principais atrações do quase homônimo Festival DoSol, no largo da Rua Chile. Entre o público diverso, os jovens eram aqueles que mais vibravam com as interpretações dos clássicos da banda. Um dos mais aguardados, claro, era “Seu Waldir”. Foi esta a principal música questionada pela ditadura, interpretada pelos órgãos repressivos como um “incentivo à homossexualidade”.

“Foram os jovens que nos redescobriram através da internet. A partir de 2008 começou uma frequência muito grande de jovens descobrindo o disco e perguntando ‘cadê essa banda?’, ‘a gente quer ver essa banda ao vivo’, e houve uma pressão para a gente voltar”, conta Marco Polo Guimarães.

“Hoje em dia, nosso público é 90% de pessoas bem mais jovens, inclusive crianças. Recentemente, a gente esteve fazendo um show em Brasília e chegou um pai lá com um menino de 10 anos com o disco na mão, e o pai disse ‘olha, eu gosto do som de vocês, mas o fã é ele, aquele que me obrigou a vir hoje assistir esse show’”, recordou o cantor.

“Então, isso é legal para a gente, porque, primeiro, mostra que o nosso trabalho tem qualidade, é atemporal, não ficou perdido no público do passado, e atinge o público que realmente a gente gosta de dialogar, que é o público jovem, que a gente os energiza e eles nos energizam também”.

Censura e repressão

Marco Polo Guimarães conta que o fim da banda em 1974 representou um choque — o disco foi proibido e eles não tinham estrutura financeira nem instrumental para tentar prosseguir com o trabalho. O conjunto musical, que já nasceu contestador, expressava em sua sonoridade à rejeição à ditadura militar.

“A gente não gostava daquele ambiente e o que a gente queria era exprimir a nossa natureza, que era uma natureza libertária, muito contrária àquilo e tudo o que estava havendo. Então, foi uma reação espontânea nossa em relação à ditadura e resultou nesse conflito.”

Após a volta à ativa em 2014 com mudanças na formação da banda, a Ave Sangria já lançou um segundo disco, Vendavais, de 2019. 

“E parece que é uma missão nossa sempre estar indo contra ambientes negativos, porque o segundo disco que a gente lançou foi justamente no período em que o Brasil estava na mão daquele filho da puta. Então, toda vez que tem um ambiente negativo, a Ave Sangria chega para dar uma injeção de positividade”, destaca Guimarães.

A decisão da Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos, aprovada em março, tirou, para o vocalista, o peso de “banda maldita” sofrido pela Ave Sangria.

“De que a gente estava errado, que a gente tinha cometido um pecado, um crime. Então, o Estado pedir desculpas, reconhecer que ele errou e nós estávamos certos, isso me deu uma sensação de alívio”, reconhece.

“E finalmente, uma sensação de alegria, de finalmente nós provarmos juridicamente que estava com a razão, mas agora com o carimbo jurídico a gente tem a certeza de que a gente estava certo o tempo todo”.

“Nossa guerra nunca vai ter fim”

A Ave Sangria canta na música “O Pirata” que sua guerra “nunca, nunca vai ter fim”. O sentimento libertário e de contestação parece permanecer igual em Almir e Marco Polo, que vê um movimento cíclico no conservadorismo ao comentar sobre o Brasil de hoje.

“O conservadorismo não vai desistir nunca, ele vai insistir sempre. É muito mais confortável você se apegar a coisas que você já conhece, coisas tradicionais, coisas que não colocam nada em risco, do que você arriscar no novo, na inovação, na criatividade, na invenção”, avalia.

“Então, isso sempre vai acontecer. Eu acho que esse embate vai ser eterno e o nosso lado aqui, que é o lado não conservador, vai permanecer muito forte lutando contra essa besteira toda”, acredita o cantor.

“Nossa guerra nunca vai ter fim. Afinal de contas, nossos instrumentos de trabalho são a arte, a literatura, a cultura, a escola, o saber, a paz, o amor e a verdade”, diz Almir de Oliveira.

Para os fãs, o guitarrista ainda adianta: a Ave Sangria já pensa em seu terceiro álbum.

“Em breve, daqui a mais um tempo, a gente vai trabalhar nele e lançar. Não temos ainda um prazo, mas vai sair”, conta Oliveira.

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