“Eu vou morrer gritando”: a mulher que enfrentou o muro de Maracaípe
“Medo a gente sente. Dorme com ele, acorda com ele. A diferença é que eu não pratico o medo.”
Helena Ivalda do Nascimento faz uma pequena pausa antes de continuar.
“À frente do meu medo está Deus. E ao meu redor estão meu povo, minha família, meus amigos e toda a rede de apoio que construí. Se eu tivesse medo, já teria desistido.”
No litoral sul de Pernambuco, quase ninguém a chama pelo nome de batismo. Para todos, ela é Leninha.
Tem 39 anos, é mulher negra, mãe, avó, pescadora artesanal e presidenta da Associação Mangue Mulher Maracaípe. Nos últimos três anos, seu rosto passou a circular por audiências públicas, manifestações, reportagens e processos judiciais. Também passou a ser alvo de ameaças de morte.
Tudo por causa de um muro.
Erguida em 2023 no Pontal de Maracaípe, a barreira alterou a circulação de pescadores, marisqueiras, ambulantes, jangadeiros e comerciantes. O conflito ganhou repercussão nacional e se tornou um dos principais símbolos da disputa entre interesses privados e o direito das comunidades tradicionais ao território.
Em maio deste ano, a 35ª Vara Federal de Pernambuco determinou a retirada da estrutura. O prazo para que o proprietário realizasse a demolição terminou no último dia 25 de junho sem que a decisão fosse cumprida. Agora, a Justiça autorizou que a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) e o Ibama executem a remoção, cobrando posteriormente os custos do responsável pela obra.
Para Leninha, no entanto, a decisão judicial representa apenas uma etapa.
“A luta não acabou.“
Uma pescadora antes de ser liderança
Leninha costuma dizer que não escolheu a pesca. Foi a pesca que a escolheu.
“Pesco desde os 11 anos. Sou filha de pescador, neta de pescadora e bisneta de pescadora. É uma raiz muito forte.”
Ela nasceu e cresceu em Maracaípe. Aprendeu ainda menina a caminhar pelo manguezal, reconhecer as marés, coletar mariscos e transformar os crustáceos em artesanato. “Nunca imaginei minha vida longe daqui. Eu sobrevivo da minha pescaria.“
Mas, segundo ela, a disputa pelo território antecede em muito a construção do muro. “Sempre houve esses atropelos por parte desse fazendeiro. Isso não começou em 2023. Vem desde o pai dele. O muro foi apenas o auge de uma violência que a comunidade enfrenta há muitos anos.“
O muro que fechou caminhos
A autorização concedida pela CPRH previa uma obra de contenção costeira com cerca de 250 metros. Segundo moradores, porém, a estrutura construída alcançou aproximadamente 570 metros, ocupando uma extensa faixa entre a praia e o estuário.
Relatórios produzidos pelo Ibama e pela Superintendência do Patrimônio da União apontaram impactos ambientais, avanço sobre área pública e obstáculos ao livre acesso à praia. O Ministério Público Federal ajuizou uma ação civil pública pedindo a retirada da estrutura.
Enquanto o processo seguia na Justiça, a rotina da comunidade mudava.
“Maracaípe ficou sem o direito de ir e vir.“
Leninha explica que, para vender o pescado aos barraqueiros da praia, dependia do horário da maré.
“Se a maré estiver cheia, eu não consigo passar. Ou me arrisco pela água, ou espero baixar. Isso interfere diretamente no meu sustento.“
Segundo ela, o problema nunca atingiu apenas as marisqueiras. “O muro prejudicou barraqueiros, ambulantes, jangadeiros, comerciantes. Tem vídeos de vendedores sendo arrastados pela força da água porque não conseguem passar com segurança.“
Ela observa que a economia local sempre funcionou como uma engrenagem.
“Uns pescam. Outros transportam. Outros vendem. Outros cozinham. Quando você interrompe um caminho, não atinge só uma pessoa. Atinge toda a comunidade.”
“É um muro que oprime”
Durante a entrevista, Leninha evita falar apenas sobre concreto. Para ela, a estrutura representa outra coisa.
“É um muro que veio para oprimir.“
Ela lembra que, durante muitos anos, utilizou aquele trecho da praia para vender artesanato produzido a partir de conchas e outros materiais encontrados no mangue. “Quando minha primeira filha nasceu, há 24 anos, eu vendia artesanato ali. Hoje olho para aquele lugar e não consigo acreditar que está fechado.“
Segundo ela, não era um comércio que destruía a paisagem. “Nós usávamos as próprias árvores para expor nosso trabalho. Não derrubávamos nada. Nós amamos esse território.”
Por isso, acredita que a retirada da estrutura terá um significado que ultrapassa a questão jurídica.
“Quando aquele muro cair, muitas feridas também vão começar a cicatrizar.”
A luta virou rotina
A mobilização da comunidade começou logo após a construção da barreira. Vieram manifestações, atos públicos, denúncias aos órgãos ambientais, audiências na Assembleia Legislativa de Pernambuco e no município de Ipojuca, além da atuação de organizações como a Comissão Pastoral dos Pescadores, da Ordem dos Advogados do Brasil, do Ministério Público Federal e de entidades ligadas aos direitos humanos.
Leninha esteve em praticamente todos esses espaços. “Nós fizemos tudo o que você puder imaginar para chegar até essa decisão da Justiça Federal.”
Ela reconhece, porém, que o desgaste foi enorme.
“Foram quase três anos. Sai uma decisão, ele recorre. Sai outra, ele recorre. E nós seguimos resistindo.“
O preço de denunciar
A visibilidade também trouxe consequências. Leninha passou a receber ameaças de morte. Conta que teve números de telefone divulgados, recebeu ligações intimidatórias e mensagens constantes.
Em outra ocasião, diz que um carro tentou atingi-la quando seguia para o trabalho.
Também relata uma tentativa de abordagem à força em um ponto de ônibus. “Um homem segurou meu braço e queria que eu entrasse na caminhonete. Só consegui sair porque outra pessoa apareceu.“
No fim de 2023, ela foi incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos.
Mesmo assim, acredita que os riscos permanecem.
“Tenho certeza de que, quando o muro cair, as ameaças podem até aumentar.“
Resistir também é permanecer
Em determinado momento da conversa, a entrevista deixa de tratar apenas da disputa judicial. Passa a falar de futuro.
Leninha conta que sua neta, hoje com quatro anos, também se chama Helena. Na família, explica, o nome atravessa gerações. Assim como a pesca. Assim como a luta.
“Hoje eu luto por ela.”
Pergunto se já pensou em desistir. Ela responde sem hesitar. “Se eu parar de lutar, quem vai lutar por elas?”
Depois acrescenta:
“Em Maracaípe muita gente tem medo de se expor. O medo vem antes da luta. Mas eu jamais vou deixar de lutar.”
O mangue como lugar de cura
Ao falar do território, Leninha abandona a linguagem dos processos judiciais. Fala de pertencimento. Conta que enfrentou uma depressão durante seis anos e atribui ao retorno ao manguezal parte importante de sua recuperação.
“O mangue curou minha depressão.”
Ela sorri. “É minha segunda casa. Em alguns momentos, chega a ser a primeira.”
Para quem olha apenas um mapa, Maracaípe pode parecer uma faixa de areia entre o rio e o mar.
Para ela, é outra coisa.
“Você pode viajar o mundo inteiro. Mas, quando chega em Maracaípe e molha os pés naquela água, sente algo diferente.”
Uma decisão que vai além do concreto
A retirada do muro ainda não aconteceu. Mas, para Leninha, há algo que ninguém consegue desfazer. A mobilização transformou a comunidade. Mulheres que antes evitavam aparecer passaram a ocupar audiências, reuniões, entrevistas e espaços de representação.
A discussão sobre acesso à praia tornou-se também uma discussão sobre racismo ambiental, direito ao território, pesca artesanal e democracia.
Quando pergunto o que espera do dia em que o muro finalmente cair, ela não fala em vingança. Fala em festa.
“A gente vai rir. Vai dançar. Vai celebrar.“
Depois faz outra pausa. “Porque essa vitória não é minha.É das mulheres. Dos homens. Das crianças. Dos idosos. De todo mundo que sabe que aquele muro nunca deveria ter existido.“
E, antes de encerrar a conversa, volta à frase que resume sua trajetória.
“Eu costumo dizer que vou morrer gritando.”
Não é uma metáfora. É um compromisso. “Gritando para defender meu território. Gritando para defender meu povo. Porque é ali que está minha vida.”
Série especial | Mulheres do Mangue
Esta reportagem integra uma série especial da Saiba Mais sobre mulheres pescadoras artesanais do litoral pernambucano — mulheres que defendem o mangue, o mar e modos de vida ameaçados pela especulação imobiliária, pelas mudanças ambientais e pela ausência de políticas públicas.
Na primeira reportagem, mostramos como o Festival do Mangue transformou a defesa do território em um espaço de organização política.