Lideranças denunciam intolerância religiosa após fala de vereador na Câmara de Natal
Uma fala do vereador Subtenente Eliabe (PL) durante sessão da Câmara Municipal de Natal provocou reação de lideranças religiosas, movimentos sociais e parlamentares ligados à defesa da liberdade religiosa. O episódio, ocorrido no último dia 11, é apontado por representantes dos povos tradicionais de matriz africana como um caso de intolerância religiosa e racismo religioso.
Durante discurso no plenário, ao criticar setores da oposição, o parlamentar mencionou entidades cultuadas em religiões afro-brasileiras. “Essa turma que pede as divindades aí, até o Exu Caveira, Zé Pilintra, o que eles entendem aí, para que a coisa dê errada”, afirmou. A declaração repercutiu entre praticantes de Candomblé, Umbanda e Jurema Sagrada, que consideraram a associação ofensiva e discriminatória.
Babá Cláudio Oliveira, sacerdote de Candomblé, responsável pela Ilê Axé Olorum Malê, na Zona Norte de Natal, e representante da Federação de Umbanda, Candomblé e Jurema do Rio Grande do Norte (Fejuc-RN), afirma que a fala reforça preconceitos historicamente direcionados às religiões de matriz africana. Segundo ele, a comunidade foi surpreendida pela circulação do vídeo nas redes sociais e decidiu reagir de forma organizada.
“Durante todos esses anos, nunca teve uma fala tão pesada e tão racista quanto foi agora do vereador Eliabe”, afirmou. “Foi uma fala extremamente racista e preconceituosa, onde nós, povos tradicionais de matriz africana, ficamos extremamente revoltados.”
De acordo com Babá Cláudio, lideranças religiosas, entidades representativas e integrantes do movimento negro elaboraram uma carta aberta à sociedade e iniciaram uma série de medidas para cobrar responsabilização pelo ocorrido. O grupo registrou um boletim de ocorrência e prepara uma representação junto ao Ministério Público.
“Ele precisa aprender que liberdade de expressão não dá o direito de ser racista e colocar aquilo que vem à cabeça”, declarou em entrevista à Agência Saiba Mais. “A intolerância e o preconceito dão voz ao racista e ao discriminador. Por isso entendemos que esse episódio não pode passar sem resposta.”
Para o líder religioso, a controvérsia vai além de uma divergência política e evidencia um problema estrutural enfrentado por comunidades tradicionais de matriz africana. Segundo ele, ataques dessa natureza atingem não apenas a dimensão religiosa, mas também aspectos raciais e culturais historicamente associados às populações negras e indígenas.
“Nós sofremos diariamente perseguição pelo fato de sermos povos tradicionais de matriz africana. Nunca foi só uma questão religiosa. É uma tradição de negro, de preto e de indígena, e a gente não aceita esse tipo de postura”, disse. “É criminoso e nós iremos tomar as providências cabais para que atos como esse não se repitam.”
O caso também repercutiu entre parlamentares. A deputada estadual Divaneide Basílio informou ter recebido a denúncia das mãos de Babá Cláudio e defendeu a apuração do episódio. Em publicação nas redes sociais, afirmou que “racismo e intolerância religiosa não são liberdade de expressão” e classificou o caso como grave.
A vereadora Brisa Bracchi também se manifestou. Segundo ela, discursos dessa natureza não podem ser normalizados em espaços institucionais. “É inadmissível que um parlamentar ainda tenha esse tipo de fala em qualquer plenário que seja sem sofrer as devidas consequências”, escreveu.
A Constituição Federal garante a liberdade de consciência e de crença e assegura o livre exercício dos cultos religiosos. Além disso, a Lei nº 7.716/1989 estabelece punições para práticas de discriminação ou preconceito motivadas por religião. Nos últimos anos, o debate sobre racismo religioso tem ganhado destaque no país, especialmente em casos envolvendo ataques a religiões de matriz africana.
Os representantes dos povos de terreiro afirmam que continuarão acompanhando o caso e cobrando providências dos órgãos competentes.
A equipe de reportagem não obteve resposta da equipe do vereador até o fechamento dessa matéria.
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