Morre Paulo Varela, o poeta que fez do sertão verso e memória
A poesia popular do Rio Grande do Norte perdeu nesta quarta-feira (10) uma de suas vozes mais reconhecidas. Morreu o poeta, cordelista, declamador e memorialista Paulo Varela, artista que dedicou décadas à valorização da cultura sertaneja e da tradição oral nordestina. A notícia provocou comoção entre escritores, cordelistas, instituições culturais e admiradores de sua obra em todo o estado.
Em nota, a Casa do Cordel lamentou a morte do poeta e destacou sua importância para a cultura popular potiguar. A entidade afirmou que Paulo Varela era “mais do que um declamador extraordinário”, descrevendo-o como a personificação da palavra viva, alguém que compreendia a poesia para além do papel, transformando versos em experiência por meio da voz, dos gestos e da oralidade.
Sua trajetória
Natural de Assú, cidade conhecida como a Terra da Poesia, Paulo Varela construiu uma trajetória marcada pela defesa das raízes culturais nordestinas. Seus versos retratavam personagens, costumes, festas populares, histórias do sertão e o cotidiano do povo do interior, contribuindo para preservar memórias e fortalecer a identidade cultural potiguar. Ao longo da carreira, tornou-se uma referência da chamada poesia matuta, sendo frequentemente apontado como um dos maiores representantes do gênero no Nordeste.
A notoriedade de seu trabalho ultrapassou as fronteiras do Rio Grande do Norte. Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória ocorreu em 2005, quando participou do Programa do Jô, na TV Globo. A apresentação levou a poesia popular potiguar para uma audiência nacional e ajudou a consolidar seu nome entre os principais divulgadores da cultura nordestina no país. A repercussão foi tão positiva que sua participação voltou a ser exibida posteriormente.
Antes de dedicar-se integralmente à arte, Paulo Varela trabalhou por muitos anos no setor de telecomunicações. Depois de percorrer diversas regiões do Brasil, decidiu abandonar a carreira empresarial para mergulhar definitivamente na literatura, no cordel e nas manifestações culturais populares. Além de poeta, também atuava como xilogravurista, escultor, cenógrafo e contador de causos, acumulando experiências que ajudaram a moldar sua produção artística.
Sua atuação não se limitou à escrita. Em Natal, foi um dos fundadores do espaço O Encanto do Cordel, criado em 2006 com o objetivo de fortalecer a circulação da literatura de cordel e incentivar novos autores. No local, promoveu encontros, saraus, oficinas e atividades voltadas à difusão da cultura popular. Também desenvolveu trabalhos com xilogravura, ilustrando folhetos e incentivando outras pessoas a conhecerem a técnica.
Paulo Varela também era presença constante em feiras culturais, festivais de folclore e eventos literários em diferentes estados brasileiros. Costumava apresentar seus versos em praças, escolas, centros culturais e festivais, levando consigo uma imagem fortemente associada ao sertão nordestino. Em entrevistas, afirmava ter escrito quase duas mil composições ao longo da vida.
Nos últimos dias, sua contribuição à memória cultural de Assú havia sido lembrada durante as apresentações do Auto de São João Batista 2026, espetáculo que integrou as comemorações dos 300 anos do padroeiro do município. Sua trajetória e seu legado foram incorporados à narrativa do evento como símbolos da identidade cultural assuense.
A morte do poeta também motivou manifestações de pesar da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do Rio Grande do Norte (SPVA-RN), da Secretaria Estadual da Cultura, da Fundação José Augusto e de diversas entidades ligadas à literatura e às artes populares. Em homenagem ao artista, a Prefeitura de Assú decretou luto oficial de três dias e determinou que as bandeiras dos prédios públicos sejam hasteadas a meio-mastro.
Segundo informações divulgadas por familiares e instituições culturais, o velório deverá ocorrer no Ginásio de Esportes de Jardim Lola, em São Gonçalo do Amarante. O sepultamento está previsto para esta quinta-feira (11), no Cemitério Bom Pastor I, em Natal.
Com a partida de Paulo Varela, o Rio Grande do Norte perde um de seus mais importantes guardiões da poesia popular. Permanecem, porém, os versos, os cordéis, as histórias e a voz que transformou a cultura do sertão em patrimônio afetivo de gerações de potiguares.
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