Por Gláucio Tavares Costa*
Ao ex-presidente Jair Bolsonaro foi concedida, pelo ministro Alexandre de Moraes, por intermédio de decisão prolatada no dia 24/03/2026, a benesse da prisão domiciliar humanitária temporária para que o referido detento pudesse se recuperar de um quadro de broncopneumonia, com posterior realização de perícia médica para eventual prorrogação do prazo. O beneplácito foi conferido ao presidiário mediante certas condições, dentre elas a obrigação de permanecer na residência com monitoramento por tornozeleira eletrônica e a expressa proibição de utilizar telefones, internet ou redes sociais, bem como de enviar ou gravar áudios e vídeos, inclusive por meio de terceiros. Pontifica-se, na decisão, que o descumprimento das regras implicará a revogação da prisão domiciliar e o retorno ao regime fechado ou, se necessário, ao hospital penitenciário.
Num cenário de revelação de troca de mensagens com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, embates com Michelle Bolsonaro e trapalhadas na bajulação a Donald Trump, Flávio Bolsonaro deu uma cartada para reverter a sua queda livre nas pesquisas de intenção de voto, qual seja: fazer o pai apenado descumprir as regras da prisão domiciliar. Isso ocorre com a divulgação de uma carta do ex-presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais, certamente com o objetivo de levar o pai de volta ao sistema prisional e, com isso, causar uma comoção nacional que o beneficiasse eleitoralmente.
Todavia, o novo embuste de Flávio Bolsonaro não cumpriu o possível e asqueroso objetivo, uma vez que o ex-presidente Jair Bolsonaro continuará a ser tratado como um preso privilegiado — algo que outrora o desgraçado presidiário veementemente repudiava quando se referia, em conhecido pronunciamento, ao Presídio de Pedrinhas, no estado do Maranhão. Certamente, o ministro Alexandre de Moraes não está disposto a dar tal presente à pré-campanha de Flávio Bolsonaro, devolvendo Bolsonaro ao presídio.
No romance de Fiódor Dostoiévski, Os Irmãos Karamázov, o pai, Fiódor Karamázov, é assassinado pelo filho ilegítimo e criado da casa, Pavel Smerdiákov. Ele foi motivado pela ganância, pelo ódio gerado por sua condição de servo ilegítimo e pela influência das ideias niilistas do irmão, Ivan Karamázov, das quais tomou como justificativa moral a concepção: “se Deus não existe, tudo é permitido.”
Tanto quanto a morte de um artista cria uma sensação de vínculo íntimo e real, mesmo que nunca o tenhamos conhecido pessoalmente, decerto execuções e atentados contra candidatos e pré-candidatos alteram drasticamente o equilíbrio das disputas eleitorais, geram comoção pública e podem promover herdeiros políticos.
Se o possível plano de Flávio Bolsonaro de recolocar o pai na prisão e gerar comoção no eleitorado não der certo, qual seria o próximo passo para salvar a campanha eleitoral do filho inescrupuloso? Será que a morte de Jair poderá ensejar a vida eleitoral de Flávio Bolsonaro?
A ganância de Pavel Smerdiákov não deve ser replicada. Entretanto, fica o alerta: cuidado, Bolsonaro; há um corvo sobrevoando o seu cárcere domiciliar!
* Gláucio Tavares é mestrando em Direito pela Universidad Europea del Atlántico, graduado em Farmácia pela UFRN, autor de artigos e ensaios e ativista pela democracia.