Emenda apoiada por Gonçalves pode descriminalizar racismo se for “opinião”
Natal, RN 16 de jul 2026

Emenda apoiada por Gonçalves pode descriminalizar racismo se for “opinião”

16 de julho de 2026
5min
Emenda apoiada por Gonçalves pode descriminalizar racismo se for “opinião”
A emenda foi proposta ao PL da Misoginia, que equipara o ódio ou aversão a mulheres ao crime de racismo e torna essa prática inafiançável e imprescritível - Foto: Divulgação

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O deputado federal Sargento Gonçalves (PL-RN) subscreveu um requerimento de emenda que pode deixar de considerar o racismo como um crime caso a manifestação seja considerada uma “opinião”. 

O requerimento foi aprovado na terça-feira (14) durante a reunião da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados. A emenda foi proposta ao projeto de lei 896/2023, o PL da Misoginia, que equipara o ódio ou aversão a mulheres ao crime de racismo e torna essa prática inafiançável e imprescritível.

O requerimento de apresentação de emenda foi apresentado pelo deputado Capitão Alden (PL-BA) e recebeu o apoio de outros três parlamentares, todos do PL: Sargento Fahur (PL/PR), Sargento Gonçalves (PL/RN) e Alberto Fraga (PL/DF).

A emenda diz que “não configura o crime previsto neste artigo manifestação de opinião, convicção religiosa, filosófica, científica, acadêmica ou política”. A norma completa que a medida só é válida caso a situação analisada “não constitua incitação direta e inequívoca à violência ou à prática de discriminação vedada por esta lei”.

A emenda também propõe acréscimo no artigo 1º do projeto de lei, para considerar a punição à “prática dolosa de discriminação contra mulheres em razão de seu sexo.”

A justificativa do requerimento de emenda diz que as mudanças visam aperfeiçoar o texto.

“A redação originalmente proposta utiliza conceitos de elevada carga subjetiva, como ‘misoginia’ e ‘ofensa à dignidade’, cuja amplitude pode gerar insegurança jurídica e dificultar a observância do princípio da taxatividade penal”, dizem os deputados do PL.

Já a alteração para não considerar o racismo como crime em caso de opinião, segundo a justificativa, visa harmonizar “a tutela penal com as garantias constitucionais da liberdade de expressão, da liberdade de consciência e da liberdade religiosa.”

“Emenda red pill”, critica deputada de esquerda

A deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS) não é integrante da Comissão, mas participou da reunião e criticou a aprovação da emenda por parte dos deputados. 

“Criminalizar o machismo é um crime para quatro homens que estavam em plenário e permitiram que esse absurdo fosse aprovado”, disse ela.

Segundo a parlamentar, a emenda permite um “salve geral” ao discurso de ódio. 

“É tão escandalosa a emenda red pill que fica liberado o discurso de ódio contra as mulheres por qualquer ‘razão filosófica, política, de foro científico’. Ah, então o ódio político vale. Então exteriorizar o ódio filosófico às mulheres vale”, condenou.

O deputado Capitão Alden, autor principal da emenda, defendeu o seu requerimento justificando que a mudança se trataria de garantir a “liberdade de expressão”.

“A Constituição Federal garante a liberdade de expressão, a liberdade de consciência, a liberdade religiosa e a liberdade de ensino. Esses direitos não podem ser esvaziados por conceitos vagos ou subjetivos que permitam interpretações arbitrárias”, disse.

Nas redes sociais, a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) afirmou que o texto representa uma armadilha apresentada pelo PL, partido de Jair Bolsonaro.

“Como se não bastasse o horror da proposta, a sua tramitação é nojenta por si só: o que eles aprovaram é uma proposta de Emenda ao Projeto de Lei que criminaliza a misoginia e o equipara ao crime de racismo. Com isso, se o Projeto que equipara a misoginia for ser votado na Câmara, a Câmara terá que votar junto uma Emenda que descriminaliza o próprio racismo. Se a Emenda for aprovada com o PL, a misoginia é equiparada ao racismo, mas o racismo é liberado”, explicou.

O PL da Misoginia chegou à Câmara dos Deputados depois de ter sido aprovado no Senado em março. Naquela ocasião, Zenaide Maia (PSD) e Styvenson Valentim (PODE) votaram a favor da criminalização; Rogério Marinho (PL) não compareceu.

No dia 1º de julho, a Câmara aprovou a urgência do projeto de lei com 293 votos a favor e 158 contrários. Três deputados federais do Rio Grande do Norte votaram contra acelerar a tramitação: Carla Dickson (PL), General Girão (PL) e Sargento Gonçalves (PL).

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