Fátima Bezerra
Natal, RN 12 de jul 2026

Fátima Bezerra

12 de julho de 2026
4min
Fátima Bezerra
Fátima Bezerra é a primeira governadora de origem popular do RN / foto: Elisa Elsie

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Nos próximos meses, o Brasil iniciará mais uma campanha eleitoral para a escolha de governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Será um tempo de debates, promessas, críticas e propostas. É também um tempo oportuno para refletirmos sobre os valores que esperamos encontrar na vida pública.

Por isso, gostaria de recordar um gesto da governadora Fátima Bezerra. Em março de 2026, por meio de uma carta dirigida ao povo potiguar, ela anunciou que permaneceria à frente do Governo do Rio Grande do Norte até o término do mandato, abrindo mão de disputar uma vaga no Senado Federal. Independentemente das posições político-partidárias de cada cidadão, trata-se de uma decisão que merece reflexão pelo que representa em termos de responsabilidade pública.

Há momentos na vida pública em que uma decisão vale mais do que uma vitória eleitoral. Há escolhas que revelam a compreensão de que o exercício da política não pode ser reduzido à disputa por cargos, mas deve ser orientado pelo compromisso com um projeto coletivo e pelo dever de servir ao povo.

Vivemos numa cultura política em que, muitas vezes, a ocupação de um cargo parece ser um fim em si mesmo. Por isso, quando uma liderança abre mão de uma candidatura considerada altamente competitiva para concluir a missão que lhe foi confiada pelo voto popular, esse gesto adquire um significado que ultrapassa o cálculo eleitoral.

Na carta dirigida ao povo potiguar, Fátima Bezerra apresenta como razão principal de sua escolha o compromisso de concluir um ciclo de governo e assegurar a continuidade de projetos estruturantes para o Estado. Entre eles, destaca a construção do Hospital Metropolitano, a duplicação da BR-304, o avanço das obras da transposição do Rio São Francisco e a continuidade de políticas públicas nas áreas da educação, da saúde, da segurança e da proteção às mulheres.

Vejo nessa decisão uma compreensão madura do que significa governar. O mandato recebido nas urnas não é apenas uma oportunidade para novos projetos eleitorais; é, antes de tudo, um compromisso assumido com a população. Permanecer para concluir aquilo que foi iniciado pode ser tão ou mais importante do que conquistar um novo mandato.

Vejo também nesse gesto uma expressão de humildade. A política empobrece quando é movida apenas pela ambição pessoal; engrandece-se quando homens e mulheres públicos demonstram capacidade de colocar o bem comum acima dos próprios interesses. Abdicar de uma candidatura com amplas possibilidades de êxito para permanecer governando revela uma compreensão de que o poder só encontra sentido quando se transforma em serviço.

Naturalmente, nenhuma administração está isenta de críticas, e o Rio Grande do Norte continua enfrentando desafios importantes. Reconhecer os avanços não significa ignorar o que ainda precisa ser feito. Ao contrário, significa compreender que governar é um processo permanente de construção, aperfeiçoamento e fidelidade ao mandato recebido.

Ao iniciarmos este novo ciclo eleitoral, talvez seja oportuno perguntar quais valores esperamos encontrar naqueles que pretendem governar ou representar o povo. Competência administrativa é indispensável. Mas também o são a coerência, a responsabilidade, a fidelidade à palavra dada e a capacidade de colocar o interesse público acima das conveniências pessoais.

Ao concluir estas reflexões, recordo também um aspecto da trajetória pessoal de Fátima Bezerra. Cristã católica, ela frequentemente manifesta, em sua vida pública, valores inspirados pelo Evangelho, como a humildade, o serviço, a busca do bem comum, a defesa da dignidade humana, da justiça social e dos direitos humanos. Em tempos de tantas disputas, talvez seja essa a mais bela vocação da política: colocar o poder a serviço da vida e nunca a vida a serviço do poder.

Obrigado, governadora Fátima Bezerra, pela coragem de permanecer até o fim, honrando o mandato que lhe foi confiado e colocando, acima de qualquer projeto pessoal, a defesa dos grandes interesses do povo potiguar. Que esse gesto inspire a vida pública e recorde a todos nós que a política encontra sua mais alta dignidade quando se faz serviço, responsabilidade e compromisso com o bem comum.

Padre Fabio Potiguar Santos é secretário-executivo da Comissão para o Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso do Regional CNBB NE2

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