Revolucionários Primitivos
Natal, RN 3 de jul 2026

Revolucionários Primitivos

3 de julho de 2026
3min
Revolucionários Primitivos

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Por Rômulo Sck
O cangaço pode ser compreendido como uma forma de rebeldia social surgida em um sertão marcado pelo coronelismo, pela concentração da terra, pela violência privada e pela quase completa ausência de direitos para a população pobre.
Reduzir esse fenômeno à categoria de “bandidismo” significa adotar uma definição construída, em grande medida, pelos grupos que detinham o poder político e econômico.

A contribuição de ajuda a ampliar essa compreensão. Ao tratar dos “rebeldes primitivos” e do “banditismo social”, Hobsbawm demonstra que determinados grupos armados surgem como formas de resistência popular em sociedades profundamente desiguais.
Não possuíam uma teoria revolucionária nem um programa político organizado, mas expressavam a revolta de camponeses e sertanejos contra uma ordem considerada injusta.

Essa leitura pode ser aprofundada à luz do pensamento de Gramsci, as classes dominantes não mantêm seu poder apenas pela força, mas também pela hegemonia cultural, isto é, pela capacidade de definir quais ideias serão aceitas como verdade pela sociedade.

Sob essa perspectiva, a imagem do cangaceiro como mero “bandido” pode ser entendida também como parte da narrativa produzida pelas elites para legitimar sua própria ordem social e deslegitimar qualquer forma de contestação.

Isso não significa negar que o cangaço praticou violência.

Significa reconhecer que a própria categoria de “bandido” é também uma construção política e histórica.

Em um sertão onde os coronéis exerciam poder quase absoluto, controlando terras, justiça e forças armadas locais, a resistência de grupos como o de Lampião assumiu significados diferentes para diferentes setores da sociedade.
Enquanto as elites e o Estado os apresentavam como criminosos, muitos sertanejos os viam como homens que enfrentavam uma ordem profundamente opressora.

Durante o governo de Vargas, interessado em consolidar o monopólio da violência pelo Estado e enfraquecer poderes armados paralelos, essa narrativa oficial foi reforçada.

A destruição do cangaço representava não apenas o combate a grupos armados, mas também a afirmação da autoridade estatal sobre o sertão.

Por isso, talvez seja mais adequado compreender o cangaço como uma forma de rebeldia camponesa ou de resistência social.

Seus integrantes não elaboraram um projeto de transformação revolucionária da sociedade, mas expressaram, por meio das armas, a insatisfação de uma população submetida ao coronelismo, à exclusão e à violência.

Nesse sentido, aproximam-se da categoria de “revolucionários primitivos” formulada por Hobsbawm: movimentos que, mesmo sem organização política sistemática, revelam as contradições de uma sociedade profundamente desigual.

O conceitos de hegemonia e dominação cultural podem ser usados para interpretar como a memória do cangaço foi construída e disputada ao longo do tempo.
Talvez por isso o debate sobre o cangaço permaneça tão atual. Mais do que discutir Lampião, discute-se quem tem o poder de definir quem é criminoso, quem é herói e quem merece ser lembrado pela História. Nesse sentido, compreender o cangaço exige também questionar uma tradição elitista que, não raras vezes, tratou os pobres, os sertanejos e suas formas de resistência com medo, desprezo ou criminalização, enquanto silenciava as violências produzidas pelas próprias elites.

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